
A apicultura vem ganhando escala na Zona da Mata alagoana, impulsionada por iniciativas que buscam industrializar e agregar valor à produção. Em União dos Palmares, o Apiário Zumbi dos Palmares evoluiu de uma atividade artesanal para um modelo de negócio verticalizado, que combina beneficiamento, fabricação de insumos e fornecimento para outros produtores. A empresa agora se prepara para avançar no mercado internacional, ao mesmo tempo em que amplia sua presença no território nacional.
Criado em 1997 de forma artesanal, o Apiário Zumbi dos Palmares consolidou, ao longo das últimas décadas, uma estrutura industrial que hoje processa cerca de 35 toneladas de mel por safra e comercializa aproximadamente 150 toneladas de derivados. Além da produção própria, a agroindústria passou a adquirir mel de produtores locais para atender à demanda, ampliando o alcance da apicultura na região.
O diferencial do modelo adotado está na verticalização. Segundo Jean Ferreira, apicultor chefe e proprietário do apiário, a empresa deixou de depender exclusivamente de fornecedores externos e passou a fabricar colmeias, equipamentos de proteção individual e cera alveolada, insumos essenciais para o manejo das abelhas e para o aumento da produtividade.
“Hoje fabricamos as colmeias, roupas e todos os Equipamentos de Proteção Individual necessários para poder manipular as abelhas. Antes era necessário adquirir estes materiais de um grande produtor e encarecia os custos de produção. Então comecei a fabricar as colmeias e esses materiais, além de fabricarmos cera alveolada para ser trocada nas colmeias. Isso dá ao produtor um ganho na produção”, explicou Jean.

Tecnologia e reposição de cera elevam produtividade
A modernização da estrutura produtiva passa também por um elemento pouco visível ao consumidor final, mas decisivo para o desempenho das colmeias: a cera alveolada. Apesar de ser uma substância naturalmente produzida pelas abelhas, sua reposição periódica é fundamental para manter a eficiência da produção.
Segundo Jean Ferreira, cada quilo de cera produzido pelas abelhas pode consumir entre oito e 12 quilos de mel, o que reduz significativamente o volume comercializável. Ao mecanizar o beneficiamento e ampliar a oferta de cera pronta para substituição nas colmeias, o apiário passou a contribuir diretamente para o aumento da produtividade dos produtores parceiros.
“Antes do financiamento, fazíamos o beneficiamento da cera de forma manual, com baixa eficiência e muito desperdício de matéria-prima. Depois que adquirimos a máquina alveoladora, a qualidade melhorou muito e conseguimos implementar um método mais ecológico e produtivo”, afirma.
A mudança não apenas reduziu custos operacionais, mas também criou uma frente de negócios dentro da cadeia apícola, fornecendo insumos estratégicos para outros produtores da região e fortalecendo a integração entre indústria e campo.
Além do mel in natura, a agroindústria trabalha com própolis vermelha e verde, pólen, mel com favo, balas, compostos com gengibre, licor de cachaça com mel e spray para garganta, estratégia que amplia o valor agregado e reduz a dependência do produto primário.
A empresa também se prepara para ingressar no mercado internacional, com certificação para comercialização em países como o México. Para Jean Ferreira, a diversificação e a modernização da cadeia são fundamentais para sustentar o crescimento. “Nossa estratégia tem sido buscar alternativas para agregar valor ao produto e ampliar a comercialização. O mercado externo é um passo natural para quem quer fortalecer a cadeia e garantir mais renda ao produtor”, afirma.
O processo de modernização também foi impulsionado por desafios recentes enfrentados pela atividade. A estiagem que atingiu a região nos últimos anos impactou a produção das colmeias e reduziu a oferta de floradas, exigindo maior eficiência no manejo e ampliação do número de colmeias para manter o volume de produção. Segundo Jean Ferreira, a busca por tecnologia e diversificação tem sido uma estratégia para contornar os efeitos climáticos e garantir estabilidade à cadeia produtiva.
“A estiagem nos atingiu bastante nos últimos anos. Por isso temos buscado melhorias constantes, aumentado o número de colmeias e investido em tecnologia para conseguir atender nossos clientes e fortalecer a cadeia”, afirma.

Crédito impulsiona modernização da apicultura em Alagoas
O avanço tecnológico observado no Apiário Zumbi dos Palmares acompanha um movimento mais amplo de fortalecimento da apicultura no estado. Em 2025, o Banco do Nordeste registrou aumento de 47% nos recursos destinados ao financiamento da atividade e do beneficiamento do mel em Alagoas, totalizando R$ 1,5 milhão em operações.
União dos Palmares, onde está instalado o apiário, concentrou cerca de 46% do volume financiado no estado e mais que triplicou os valores contratados, com crescimento de 207% em relação ao ano anterior. O município vem se consolidando como polo da atividade na Zona da Mata.
Jean Ferreira está entre os produtores que recorreram ao programa Agroamigo, linha de microfinança rural do Banco do Nordeste, para ampliar a capacidade produtiva. O financiamento possibilitou a aquisição de equipamentos e a modernização da estrutura industrial, reduzindo desperdícios e aumentando eficiência.
Para a agente de microcrédito rural do BNB em União dos Palmares, Alexandra Calheiros, o caso do apiário evidencia o papel do crédito na transformação produtiva do campo. “A atividade de apicultura tem apresentado crescimento significativo na região, impulsionada pelo alto valor agregado da cadeia e pela modernização dos empreendimentos apoiados pelo banco”, destaca.
O crescimento das operações indica uma transição do modelo artesanal para estruturas mais organizadas e integradas, com foco em produtividade, agregação de valor e geração de renda no interior.
Além do crescimento das operações de crédito, a apicultura alagoana passa por um processo de organização territorial. Em 2025, o Banco do Nordeste lançou o Programa de Desenvolvimento Territorial (Prodeter) voltado à apicultura no Agreste alagoano, com meta de elevar em 30% a produtividade das colmeias em dois anos. A iniciativa envolve produtores de Cacimbinhas, Minador do Negrão e Estrela de Alagoas, em parceria com Emater, Sebrae, Senar e secretarias municipais.
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