
Quatro fazendas que atuavam fazendo mineração de criptomoedas de forma ilegal foram fechadas pela Polícia Civil de Alagoas. As estruturas funcionavam na zona rural do município de Porto Real do Colégio, que fica às margens do Rio São Francisco. Os responsáveis pelo espaço são investigados pelo furto de água do rio e de energia elétrica, que em cinco meses rendeu um prejuízo de R$ 750 mil.
A operação foi realizada na última sexta-feira (9) pela Diretoria de Inteligência Policial (Dinpol), com apoio tático-operacional da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil alagoana. Em entrevista ao Movimento Econômico, a delegada Bárbara Porto explicou que o trabalho investigativo segue em andamento, mas que até o momento já foram identificados o furto de água, que era bombeado de forma ilegal do Rio São Francisco para resfriar as máquinas que faziam a mineração de dados nos locais, além do furto de cerca de 200 mil kWh de energia.
As estimativas da Polícia Civil são de que o prejuízo mensal girava em torno de R$ 155 mil e totalizou R$ 750 mil em cinco meses de operação ilegal. Os trabalhos investigativos seguem para apurar ainda crimes como sonegação e lavagem de dinheiro, segundo informou a Polícia Civil.
“As pessoas que moravam no entorno começaram a relatar prejuízos com constantes quedas de energia, muitas delas perderam eletrodomésticos com as oscilações no fornecimento elétrico. Como estamos em investigação ainda, alguns detalhes do esquema não podem ser divulgados”, disse.
Nos locais, os policiais apreenderam máquinas especializadas (ASICs), especializadas na mineração de criptomoedas. De acordo com o delegado Thales Araújo, diretor da Dinpol, a atividade de mineração de criptomoedas, por si só, não é ilegal, porém as condições em que as fazendas foram instaladas e operadas eram ilícitas.
“As estruturas eram alimentadas por ligações clandestinas, os chamados ‘gatos’, em todos os locais descobertos. O consumo ilegal de energia era de tamanho vulto que causava instabilidade e picos de energia nos arredores, provocando a queima de aparelhos eletrodomésticos e prejuízos significativos à população inocente”, explicou.

Equipamentos ligados 24 horas por dia
Uma fazenda de criptomoedas funciona como um “data center” voltado à mineração e reúne dezenas ou centenas de equipamentos operando 24 horas por dia para executar cálculos que sustentam a validação de transações em redes que utilizam proof of work (como o Bitcoin), o que pode gerar recompensas em criptoativos e taxas da rede.
Para isso, normalmente utiliza máquinas especializadas (ASICs), que são as mais comuns na mineração de criptomoedas ou Bitcoin, ou rigs com GPUs (placas de vídeo) em alguns modelos de mineração, além de uma infraestrutura de suporte indispensável, como fontes de alimentação de alta potência (PSUs), racks e cabeamento, switches/roteadores, sistemas de monitoramento e controle, e principalmente refrigeração/ventilação (exaustores industriais, climatização e, em algumas operações, soluções de resfriamento mais intensivas).
Como o processamento é contínuo e gera muito calor, o consumo de energia tende a ser elevado e constante, exigindo instalações elétricas robustas e operação técnica permanente.
Desvio de água do Rio São Francisco
As investigações apontaram que a estrutura montada para mineração de criptomoedas utilizava furto de energia elétrica em larga escala, por meio de ligações diretas e ilegais à rede de distribuição, além de bombeamento irregular de água do Rio São Francisco para manter o funcionamento contínuo das máquinas.
Ainda segundo o delegado, o desvio de energia é um elemento central nesse tipo de exploração criminosa. “Uma operação de mineração regularizada exige alto investimento em maquinário e elevados custos de manutenção. No caso em tela, estimamos que a estrutura desarticulada consumia cerca de 200 mil kWh, o equivalente ao consumo moderado de aproximadamente mil residências, gerando um prejuízo mensal estimado em R$ 155 mil em energia furtada, totalizando cerca de R$ 750 mil em apenas cinco meses de operação ilegal”, detalhou.
A Equatorial Alagoas informou por meio de nota que que prestou apoio técnico à Polícia Civil e que permanece à disposição para prestar o suporte técnico necessário, respeitando a legislação vigente e o andamento das investigações.
“A empresa reforça que atua continuamente no combate ao furto de energia elétrica, prática prevista nos artigos 155 e 171 do Código Penal Brasileiro, e reforça que os clientes podem denunciar, de forma anônima, pelo 0800 082 0196, pelo site www.equatorialenergia.com.br”, disse por meio de nota.
Nordeste tem projetos legalizados de mineração de criptomoedas
O excedente de energia limpa produzida no Nordeste tem atraído atenção de gigantes mundiais que atuam na mineração de criptomoedas. Há pelo menos cinco projetos em andamento no Nordeste que podem posicionar a região neste segmento.
Na Bahia, a Renova Energia informou à Reuters em outubro de 2025 que estrutura um dos primeiros investimentos de grande porte no setor: um projeto de mineração de criptomoedas estimado em US$ 200 milhões, com capacidade de 100 MW, organizado em seis data centers alimentados por um parque eólico. O cliente não foi divulgado.
Além do anúncio do projeto, a Renova aparece em etapas formais de conexão elétrica. O Ministério de Minas e Energia publicou portarias reconhecendo a alternativa de acesso à Rede Básica do SIN para os data centers Satoshi I_B (portaria listada em 28/07/2025) e Satoshi I_A (Portaria SNTEP/MME nº 3.011, de 09/10/2025), ambos em Igaporã (BA). No caso do Satoshi I_A, a portaria descreve o acesso via entrada de linha em 34,5 kV e condiciona a conexão a Parecer de Acesso do ONS e autorização da Aneel.
Operadoras do sistema elétrico testam mineração de bitcoins
A Axia Energia (antoga Eletrobras) anunciou uma operação/projeto em escala maior na Bahia para testar mineração de bitcoin como laboratório de demanda elétrica semelhante à de data centers. A iniciativa busca entender requisitos e eficiência energética e cita investimento de quase R$ 90 milhões, combinando fontes como eólica e solar.
No Piauí, a Enegix assinou um Memorando de Entendimento (MoU) com o governo estadual e a agência Investe Piauí durante a Brazil Energy Conference 2025, iniciando tratativas para instalar um data center de mineração em Parnaíba. A proposta divulgada prevê investimento estimado em US$ 120 milhões e capacidade planejada de até 100 MW.
No Ceará, a Etice incluiu mineração de criptoativos entre as prioridades estratégicas para 2026, conectando o tema à agenda de expansão de data centers e processamento de dados (incluindo IA). O plano mira usar como vantagem o Cinturão Digital (rede com mais de 6 mil km), e há investimento informado de R$ 12 milhões para elevar a capacidade de 200 Gbps para 400 Gbps até o fim de 2026, além de estudo para novo leilão de pares de fibra ociosos.
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