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Empreendedorismo 60+ ganha força entre mulheres em Pernambuco

Aumenta o grupo de empreendedoras 60+ em Pernambuco, onde também cresce a abertura de novos negócios liderados por mulheres
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  1. Empreendedoras pernambucanas criam negócios após aposentadoria
  2. Mulheres de 60 anos ou mais são 13% das empreendedoras
  3. Sebrae-PE apoia empreendedoras com cursos e consultoria
  4. Pernambuco tem 29,7 mil empreendedoras entre 60 e 80 anos
  5. Empreendedorismo na terceira idade cresce em Pernambuco
Beatriz Moraes criou o projeto “Vou com Bia” emprendimento 60+
A empreendedora Beatriz Moraes criou, aos 63 anos, o projeto Vou com Bia que oferece serviços de acompanhante para pessoas com mobilidade reduzida. Foto: Vou com Bia/Divulgação

Aos 63 anos, Beatriz Moraes criou o projeto “Vou com Bia”, que oferece serviço de acompanhante para pessoas com mobilidade reduzida que desejam ir a cafés, restaurantes, shoppings ou consultas médicas. Já a jornalista Rose Maria, aos 59 anos, vai realizar um sonho no próximo dia 15 ao abrir o Dona Café, uma cafeteria em São José da Coroa Grande, no Litoral Sul de Pernambuco. As duas fazem parte de um grupo que cresce no Estado: o das mulheres empreendedoras que abrem novos negócios em Pernambuco e as que iniciaram um novo negócio na maturidade. O Estado tem 29,7 mil empreendedoras entre 60 anos e 80 anos, de acordo com o Sebrae-PE.

“Temos notado um crescimento deste público nos últimos três a quatro anos”, diz a líder de Inteligência de Mercado do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado de Pernambuco (Sebrae-PE), Sylvia Siqueira, se referindo aos empreendedores 60 +. Ele argumenta que vê nesta realidade dois cenários: o do aumento da população 50 + e o crescimento da qualidade de vida associado a uma longevidade ativa em que as pessoas querem realizar sonhos nunca concretizados.

Por outro lado, segundo Sylvia, “algumas pessoas 60+ têm dificuldades para se reinserir no mercado de trabalho e criam oportunidades ao empreenderem”. As empreendedoras 60+ representam 13% de todas as mulheres que abrem um negócio em Pernambuco, de acordo com Sylvia. 

A aposentadoria trouxe uma vontade de empreender nas duas entrevistadas desta matéria. Depois de 41 anos trabalhando na área de vendas e pós-vendas de clientes corporativos em empresas como a Telpe, Telemar e Oi, Beatriz Moraes se aposentou, há dois anos, e decidiu partir para “outras coisas”. Ela diz que começou a imaginar o que queria fazer, analisar as suas habilidades, os dons e o que poderia oferecer para outras pessoas. “Pensei em um serviço para sair de acompanhante com pessoas, que por algum motivo, não pudessem sair sozinhas, como por exemplo uma pessoa que fez uma cirurgia e não pode dirigir”, explica. 

O segundo passo dado por Beatriz foi procurar o escritório do Sebrae-PE, iniciar conversas com um consultor e fazer cursos, incluindo o de precificação e de como atuar nas redes sociais, como o Facebook e Instagram. “O Sebrae orientou o que eu deveria ter uma conta no Facebook e no Instagram. Como é um serviço que envolve muita confiança, as pessoas não contratam pelas redes sociais, mas prestam atenção nos seus seguidores”, comenta. 

O objetivo do serviço, diz Beatriz, é ampliar a qualidade de vida das pessoas com baixa mobilidade. “Muitas vezes, as pessoas dependem da agenda dos filhos e netos e não querem incomodar. Eu sou a liberdade destas pessoas. Elas não precisam pedir nada a ninguém porque têm a mim”, conta Beatriz, acrescentando que se o cliente gostar de cachorro, leva a sua cadelinha de raça maltês, Mel, para as saídas.

“É uma energia boa que acontece quando o idoso sai de casa. E, se Mel for junto, muitas vezes, começa uma conversa com outra pessoa. É impressionante o nível de socialização, quando Mel vai junto. O cliente já conhece outra pessoa naquele momento, começa a conversar com outras pessoas – que também gostam de cachorro – e quando volta pra casa já tem outros assuntos pra falar. Tem muita coisa lá fora pra gente ver”, comenta. 

Numa saída para levar uma cliente, de 94 anos, à ginástica, Beatriz perguntou o que você quer fazer agora depois de fazer o exercício. A resposta foi: “queria ver o mar”. Beatriz desmarcou o próximo compromisso que tinha, avisou a família e levou a cliente – que estava com a cuidadora – pra ver o mar, se sentaram nas cadeiras altas que ela tinha na mala do carro, conversaram e tomaram água de coco. “Veja que sensação maravilhosa. A pessoa dizer que quer ver o mar e ter alguém que leve ali naquele momento que ela quer ir. Geralmente, essas pessoas ficam muito dentro de casa e isso, às vezes, prejudica o cognitivo”, comenta Beatriz.

O Vou com Bia cobra por hora, atende, preferencialmente, clientes da Zona Norte do Recife até Boa Viagem, “mas pode abrir exceções”. Antes da primeira saída, Beatriz faz uma visita inicial na casa da cliente para ambas se conhecerem melhor e também pega os contatos de parentes mais próximos, caso ocorra alguma emergência e seja necessário falar com a família. Os clientes pagam R$ 85 por hora.

Aos 65 anos, Beatriz diz que o projeto virou um complemento de renda, mas “não como deveria”, por ter poucas clientes fixas, mas ela deixa claro que está de bem com a vida e que sente prazer em estar à frente do Vou com Bia.

Aos 59 anos, a jornalista Rose Maria vai realizar o sonho de ter uma cafeteria que abre no dia 15 deste mês. Foto: Dona Café/Divulgação

Dona de café, um sonho realizado

Logo depois de se aposentar, a jornalista Rose Maria – que trabalhou em grandes veículos como a Rede Globo e o Diário de Pernambuco – abriu uma assessoria de imprensa, mas sempre teve “o sonho de ter um cafeteria”. No dia 15, deste mês, Rose, aos 59 anos, vai estar abrindo a Dona Café, numa galeria, às margens da PE-60, em São José da Coroa Grande, onde decidiu morar depois da aposentadoria.

“A terceira idade está chegando com o prazer e a alegria de empreender. Vamos começar pequeno num ambiente alugado. Em São José, não tem um café. E a galeria fica no caminho para quem vai para Japaratinga e Maceió ou quem está voltando no sentido de Barreiros ou Recife”, comenta Rose, acrescentando que Dona Café é um pontapé inicial. No começo, o café vai ter espaço para 20 pessoas sentadas.

Rose fez uma parceria com o Domínio Café, em Minas Gerais, que incluiu o apoio em cursos de barista, entre outras coisas. “A maturidade traz uma tranquilidade pra fazer as coisas, é um capital de giro. A gente percebe que nada é pra ontem, não perde o entusiasmo e aumenta a vontade de acertar”, diz Rose, que vai fazer 60 anos em junho próximo.

A vontade de Rose de empreender também juntou-se a habilidade da sua companheira há 25 anos, Joelma Melo, de 57 anos. “Ela é uma exímia cozinheira” e vai fazer os doces e salgados a serem servidos no café. “Vamos colocar a mão na massa para realizar um sonho e ter uma velhice mais tranquila no futuro”, conclui Rose.

Sylvia Siqueira fala da necessidade de ter políticas públicas para o público 60+ interessado em empreender. Foto: Sebrae-PE/Divulgação

Políticas públicas para o empreendedorismo 60+

Com mais pessoas 60+ empreendendo, Sylvia Siqueira diz que precisam surgir políticas públicas que contribuam para os negócios liderados por pessoas da terceira idade serem mais bem sucedidos. “A inserção digital é um desafio que precisa se consolidar pra essas pessoas. O acesso ao crédito é outro desafio, porque, às vezes, a idade é classificada como um risco e aí as instituições bancárias oferecem créditos que não são os mais adequados para as necessidades deles. Essas políticas públicas deveriam garantir que estes negócios sejam competitivos de acordo com as demandas do mercado”, argumenta Sylvia.

Ela também argumenta que é necessário pensar na expansão do negócio a longo prazo e nos desafios que a futura sucessão traz aos empreendimentos.

O perfil das empreendedoras pernambucanas mostra uma concentração maior entre mulheres de 30 a 49 anos, fase em que muitas já acumulam experiência profissional e buscam maior autonomia. No total, são 146,5 mil mulheres empreendedoras nessa faixa etária.

Também chama a atenção do Sebrae-PE, o fato de existirem 29,7 mil negócios com empreendedoras que têm entre 60 anos e 80 anos.   

Segundo dados da Receita Federal, atualmente, existem cerca de 294 mil empreendedoras em Pernambuco, sendo que 96% delas estão em micro e pequenas empresas. Desse total, 54% estão formalizados como microempreendedores individuais.

Mulheres ampliam presença na criação de novos negócios

No dia internacional das mulheres, uma boa notícia. Nos últimos dois anos, a abertura de empresas lideradas por mulheres cresceu em Pernambuco. Em 2024, foram 34,9 mil novos empreendimentos. Já em 2025, esse número alcançou 47,9 mil novos registros. 

Sylvia Siqueira argumenta que o empreendedorismo vem sendo visto como um caminho concreto para a geração de renda, a autonomia e a inclusão produtiva. “ O crescimento do empreendedorismo feminino em Pernambuco demonstra a capacidade das mulheres de transformarem desafios em oportunidades. Quando uma mulher empreende, ela gera impacto não apenas para si, mas também para sua família, sua comunidade e toda a economia local ”, afirma a especialista.

Futuridade 60+ vai ampliar rede de apoio

Em evento realizado no dia 4 de março, em Brasília, o Sebrae nacional lançou o Futuridade 60+, iniciativa que tem o objetivo de mobilizar, capacitar e articular ecossistemas regionais para ampliar a autonomia econômica das pessoas acima dos 60 anos. Somente em 2025, a entidade registrou 876 mil atendimentos a esse segmento.

O país contabilizou, no fim de 2024, o dado recorde de 4,3 milhões de seniores donos de negócios. Pesquisa realizada pelo Sebrae, com base em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), mostra que, entre 2012 e 2024, o número de donos de pequenos negócios com 60 anos ou mais cresceu 53%.

Realizado inicialmente no Centro-Oeste, o Futuridade 60+ será promovido nas outras quatro regiões do país, liderado pela Unidade de Empreendedorismo Feminino, Diversidade e Inclusão (UEDI) do Sebrae Nacional. “O empreendedor sênior tem resultados muito mais impactantes do que o empreendedor jovem abaixo dos 25 anos”, avalia o gerente de Gestão Estratégica do Sebrae Nacional, André Spinola.

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