
Não é apenas o setor têxtil que deverá sentir os efeitos do fim da chamada “taxa da blusinha”. Segmentos como maquiagem, beleza e cosméticos também estão entre os mais expostos à retomada da isenção para compras internacionais de até US$ 50, medida que amplia a competitividade de plataformas asiáticas de comércio eletrônico no mercado brasileiro e acende um alerta entre empresários da indústria e do varejo.
Para Cândido Espinheira, CEO da Yes! Cosmetics, a mudança não cria um problema novo, mas acelera uma transformação estrutural que já vinha alterando a dinâmica do setor. “O consumidor ficou mais global, muito mais racional em preço e menos fiel às marcas tradicionais. Ele descobre alternativas no TikTok, pesquisa reviews, compara produtos do mundo inteiro e decide a compra com poucos cliques”, afirma.
Segundo o executivo, o mercado brasileiro de cosméticos, historicamente apoiado em uma combinação de carga tributária complexa, barreiras logísticas, forte presença do varejo físico, franquias e venda direta, passa a conviver com uma competição global muito mais intensa.
“O fim da taxa não cria o problema; ele acelera uma mudança que já estava acontecendo. O consumidor brasileiro deixou de comparar apenas com a loja do shopping e agora compara preço e produto com o mundo inteiro”, diz.
Espinheira avalia que o segmento intermediário tende a ser o mais pressionado. “As marcas premium fortes continuam tendo espaço e as extremamente baratas também. O problema está no meio, com produtos parecidos, preços altos e pouco diferencial”, explica.
Na sua avaliação, o produto, por si só, tornou-se uma commodity, e a competitividade dependerá cada vez mais de branding, comunidade, inteligência artificial, velocidade de lançamento e relacionamento com o consumidor.
Atualmente, a Yes! Cosmetics conta com cerca de 100 operações em todo o país, dois centros de distribuição em São Paulo e Recife, e projeta crescimento de 15% no faturamento em 2026. “As empresas mais enxutas e rápidas tendem a ganhar. Quem operar com estruturas pesadas e margens apertadas sofrerá mais”, afirma.

Competição desigual e impacto sobre empregos
Para o CEO da Mundo do Cabeleireiro, Celso Moraes, o setor de cosméticos já enfrenta uma disputa difícil com produtos importados de baixo custo. “No segmento de cosméticos, além da carga tributária, temos todo o custo para atender às exigências da Anvisa. Quando produtos entram no país sem o mesmo nível de controle e de custos, a concorrência fica muito mais difícil”, afirma.
Após a fusão com a Bel Cosméticos, o grupo liderado por Moraes passou a operar 140 lojas em 17 estados. Para o executivo, o avanço das importações afeta diretamente a geração de empregos e a arrecadação. “O consumidor pode encontrar preços menores no curto prazo, mas o custo para a economia brasileira pode ser muito maior”, conclui.
Regulação sanitária e segurança do consumidor
Outro ponto de preocupação envolve a fiscalização sanitária. Espinheira ressalta que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária desempenha papel decisivo para assegurar a qualidade dos produtos comercializados no país. “A regulação sanitária brasileira foi desenhada para importadores formais, não para milhões de pequenas remessas internacionais chegando direto ao consumidor”, observa.
Segundo ele, embora a legislação exija registro para produtos regulados, o aumento do volume de remessas internacionais impõe um desafio adicional às autoridades. “A Anvisa faz um trabalho muito sério e isso ajuda a evitar que qualquer aventureiro coloque no mercado produtos sem o controle adequado”, afirma.
Beleza é um gigante da economia brasileira

Os números reforçam a relevância do setor de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (HPPC). De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de produtos de beleza e cuidados pessoais do mundo, com participação de 5,8% no mercado global e movimentação estimada em US$ 37,4 bilhões. O país também ocupa a quarta posição mundial em lançamentos de produtos e responde por 43,4% de todo o mercado latino-americano.
Até julho de 2025, o setor reunia 3.630 empresas no país, das quais 413 localizadas no Nordeste.
Segundo a ABIHPEC, a atividade gera aproximadamente 7,1 milhões de oportunidades de trabalho, incluindo empregos na indústria, salões de beleza, franquias e venda direta. Apenas a indústria contabiliza 155,9 mil empregos diretos. O impacto econômico também é expressivo: cada R$ 1 bilhão adicional movimentado pelo setor pode gerar 25 mil empregos e R$ 591 milhões em arrecadação tributária.
No comércio exterior, a China lidera as importações brasileiras do setor. No primeiro trimestre de 2026, os produtos chineses responderam por US$ 65,9 milhões em compras externas, o equivalente a 24,1% do total importado pelo segmento. No mesmo período, as importações totais de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos somaram US$ 254,5 milhões, acima dos US$ 213,7 milhões registrados no mesmo intervalo de 2025.
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