
O etanol começou a ser usado como combustível na Usina Serra Grande no município de São José da Laje, em Alagoas, no dia 8 de setembro de 1825. Era o Usga, uma mistura de etanol, éter e óleo de rícino. Na época, a ideia era substituir o petróleo. Um século depois, o etanol e seus subprodutos são apontados como um caminho para a descarbonização com rotas que podem resultar em produtos sustentáveis como o e-metanol – que vai abastecer navios -, o SAF, combustível de aviação sustentável e até do hidrogênio num mundo que passou a ter metas para descarbonizar as suas atividades.
A Usina Serra Grande foi fundada em 1894 pelo coronel Carlos Benigno Pereira de Lyra, que veio de Timbaúba (PE) e que também foi dono do Diario de Pernambuco. As pesquisas para fazer um combustível foram iniciadas na gestão dele e o produto foi lançado depois do seu filho, o engenheiro químico, Salvador Pereira de Lyra, assumir a gestão da empresa o que ocorreu em 1824.
“Trouxeram um químico da Alemanha e iniciaram as pesquisas que resultaram no etanol como combustível. Quem começou a fabricação do etanol em escala comercial foi Salvador Lyra”, conta o diretor do Grupo Serra Grande, Luiz Antonio de Andrade Bezerra. A família dele adquiriu a Serra Grande em 1961.

Luiz Antonio diz que, na época do lançamento, o Usga era transportado por ferrovias e chegava a ter quatro bombas de abastecimento além da usina: em Garanhuns, na Praça da Independência, no Recife, em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, e Maceió, em Alagoas. “Eram feitas adaptações simples para usar o Usga. Acrescentaram o óleo de rícino numa pequena quantidade, porque estava ressecando o carburador dos veículos”, comenta Luiz Antonio.
O empresário chegou a ler um bilhete de Salvador Lyra para um gerente da Serra Grande chamado Valdemar Pontes que dizia o seguinte: “Fomos vencidos. O valor do frete do álcool cobrado pela Great Western tornaram o nosso produto inviável”. E acrescenta: “Com isso, presumi que era uma campanha para sabotar o álcool brasileiro”.
Depois dessa experiência, o álcool desapareceu das bombas e só voltou a ser produzido para uso carburante, em larga escala, com o Proálcool, depois da década de 70, quando o preço do petróleo aumentou muito porque os produtores dos países da OPEP cortaram a produção em 1973. Em 1979, a produção caiu por causa da revolução islâmica e aí o preço aumentou de novo. Os dois episódios contribuíram para o Brasil procurar uma alternativa no abastecimento dos veículos, escrevendo outro capítulo do etanol no País.

Usina Serra Grande faz comemoração dos 100 anos do Usga
A Usina Serra Grande vai fazer uma celebração dos 100 anos do etanol na sua sede em São José da Laje na segunda-feira (8). Será lançado um livro comemorativo a data e um almoço para convidados.
“Os 100 anos da comemoração do álcool Usga fabricado de forma pioneira pela Usina Serra Grande de Alagoas merece todas as homenagens por se tratar e por demonstrar o empreendedorismo e a iniciativa, já com base tecnológica, em que houve uma experimentação e, inclusive, vendas em bombas de abastecimento. Usga significa Usina Serra Grande”, diz o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar-PE), Renato Cunha. E acrescenta: os combustíveis fósseis de petróleo sempre foram muito suscetíveis, sempre foram muito passíveis de oscilações de preço que impactaram, principalmente nas grandes crises mundiais, os preços dos combustíveis para o consumidor”.
Presidente do Conselho de Administração da Usina Petribú, Jorge Petribú, argumenta o primeiro combustível veicular sustentável do planeta desenvolvido há cem anos, na Usina Serra Grande, no estado de Alagoas, foi um marco “histórico que abriu caminho para novas possibilidades de energia limpa”.
“Um século vencendo desafios. É uma luta de um combustível verde e renovável, que acena para o futuro”, afirma o presidente do Grupo Olho D’Água, Gilberto Tavares de Melo, se referindo aos novos combustíveis sustentáveis que vão usar subprodutos ou o próprio etanol para serem produzidos.
O presidente do Grupo EQM e do Movimento Econômico, Eduardo de Queiroz Monteiro, afirma que a experiência da Serra Grande foi a primeiro a usar o etanol como combustível nas Américas. “É um produto de uma importância extraordinária e contemporânea”, comenta.
Até hoje, o grande mercado para o etanol no Brasil foi o veicular, com a adição de 27% na gasolina e os carros flex que consomem em média 27% de etanol no Brasil.

O etanol e a transição energética
“O etanol tem uma importância fundamental na transição energética. Estamos começando a descobrir que ele tem outras possibilidades e muito maiores do que a gente imaginava”, comenta Eduardo de Queiroz Monteiro. O combustível verde voltou ao centro do debate como parte das soluções para a transição energética, fazendo partes de rotas usadas para a fabricação do SAF, do e-metanol, dos bioplásticos e até do hidrogênio verde.
Gerado nas dornas de fermentação no processo de fabricação do etanol, o CO2 biogênico é uma das matérias-primas que vai ser comprada ao setor sucroenergético para fabricar o e-metanol pela empresa dinamarquesa European Energy que vai se instalar em Suape. As empresas do Grupo EQM vão fornecer o CO2 biogênico para a companhia. “Isso vai tornar mais sustentável o transporte marítimo”, comenta Eduardo. O e-metanol vai substituir o óleo bunker, que é fóssil.
O Grupo EQM tem a Usina Cucaú, em Pernambuco, a Usina Utinga, em Alagoas, e faz a gestão da Usina Estivas, no Rio Grande do Norte. As unidades do grupo estão se preparando para produzir o biometano, um gás sustentável. O uso do biometano nas máquinas pesadas das usinas – como tratores -podem torná-las carbono zero. Um dos subprodutos usados na fabricação do biometano é a vinhaça.
“Com a guerra da Rússia e Ucrânia, o preço do fertilizante subiu. Instalamos uma biofábrica para fazer fertilizantes usando a vinhaça que é usado em áreas planas. A indústria está buscando possibilidades”, cita Eduardo.
Também está começando a ser estudado a possibilidade de extrair o CO2 biogênico das chaminés das caldeiras usadas nas usinas, que teriam um volume maior de CO2 do que as dornas de fermentação.
Isso significa que o setor sucroenergético está ficando cada vez mais circular, que os subprodutos do setor serão mais valorizados e usados em cadeias que vão resultar em novos produtos. Depois de 100 anos, o etanol continua apontando soluções.
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