
O acordo dos países da União Europeia (UE) com o Mercosul já abre mais mercado para o setor sucroenergético, principalmente às empresas do Nordeste. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco, Renato Cunha, o acordo vai estabelecer três cotas de importação pela União Europeia que são as seguintes: 180 mil toneladas de açúcar, 450 mil toneladas de álcool para fins industriais, plástico e químico; e 200 mil toneladas de etanol – destinado ao uso carburante. As duas primeiras terão tarifa zero para entrar na UE e sobre a última será aplicada uma tarifa reduzida.
Renato Cunha afirma que as cotas de açúcar e álcool serão exportadas pelo Nordeste dentro do que estabelece a lei federal 9.362/96 que rege os mercados preferenciais, dando prioridade à região. Ele também é presidente da Associação dos Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio).
As 180 mil toneladas de açúcar serão do tipo VHP e destinadas às refinarias dos países do bloco europeu. “A definição desta cota sai num momento em que há um redesenho da geopolítica e as empresas começaram a olhar pra outros mercados. A UE tem muito a ganhar com este acordo. Todos os países estão procurando planejar a sua segurança alimentar e os seus fornecedores”, afirma Renato Cunha, que participa de reuniões sobre este acordo desde 2015.
Os Estados Unidos são o maior destino das exportações da UE e os países do bloco europeu também foram impactados pelo tarifaço de Donald Trump que entrou em vigor no ano passado.

Pernambuco e a União Europeia
Pernambuco já vende açúcar para países da UE. De acordo com Renato, grande parte do açúcar vendido à UE faz parte de cotas com tarifas que podem chegar até 98 euros por toneladas. “Geralmente, a Europa precisa importar açúcar e quando está com um déficit maior do produto, reduz a tarifa”, explica.
Além da exportação do etanol e açúcar, o setor sucroenergético terá outra oportunidade com o acordo: a futura comercialização de produtos derivados da cana-de-açúcar, como o CO2 biogênico e outros produtos utilizados na fabricação dos combustíveis verdes do futuro, como o e-metanol, o SAF – combustível renovável de aviação – e até o hidrogênio verde.

Setor automotivo será impactado pelo acordo UE-Mercosul
O acordo UE-Mercosul prevê a retirada das tarifas de exportação e importação entre os dois blocos gradativamente ano a ano. “Os automóveis limpos que fazem a descarbonização também vão ser alcançados pela redução da tarifa entre os dois blocos”, comenta Renato. O Brasil negocia este acordo com a UE há 25 anos.
O gerente de Política Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco, Maurício Laranjeiras, acredita que o acordo pode aumentar as exportações “a um mercado enorme”, contemplando setores da economia do Estado, como fruticultura, automotivo, têxtil, o setor que produz proteína animal (carnes), metal-mecânica, alimentos e bebidas, além da indústria sucroenergética.
“A gente acredita que isso pode contribuir para atrair mais investimentos modernos ao Brasil, como por exemplo, sistemistas que queiram fornecer peças para o polo automotivo de Goiana, porque sem as tarifas poderão vender também para a União Europeia”, resume Maurício. A cidade de Goiana tem uma fábrica da montadora Stellantis que vai produzir carros com um maior grau de eletrificação e planeja aumentar a quantidade de fornecedores locais.
Maurício cita também outra facilidade: os produtores que embarcarem em navios pelos portos pernambucanos chegam a UE num prazo, em média, de sete dias. “É um mercado exigente. As normas são mais rígidas, mas quem se adaptar, têm muitas oportunidades”, afirma Maurício, incluindo, principalmente, os produtos que apresentam menor pegada de carbono.
No ano passado, as exportações de Pernambuco para a União Europeia movimentar US$ 264 milhões, enquanto as importações feitas pelo Estado totalizaram US$ 1,1 bilhão. Os principais produtos exportados por Pernambuco para o bloco europeu foram: mangas frescas, uvas frescas, querosene de aviação, limões e limas, suco de frutas, fibras de carbono, melões, abacates, chapas de politereftalo de etileno e óleo combustível.
Impacto do acordo UE-Mercosul em Alagoas
Para Alagoas, o acordo também é relevante, segundo a gerente do Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias de Alagoas, Dielze Mello. Em 2025, Alagoas exportou US$ 89,89 milhões para a União Europeia, registrando crescimento de 13,56% em relação ao ano anterior. A pauta exportadora é liderada pelo açúcar, seguido por tabaco, cabos de fibra óptica e derivados do coco.
Ela argumenta que a “redução ou eliminação de tarifas e facilitação de negócios entre estes países com a diminuição de exigências, mesmo a longo prazo, vai fortalecer e diversificar a pauta exportadora alagoana, abrindo espaço para novos produtos e novas empresas acessarem esse mercado, criando novas oportunidades para nossos produtos serem mais competitivos e aumentar a diversificação de produtos importados desses países em nosso estado”.
O acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul foi aprovado pelo Conselho Europeu nesta sexta-feira (09). A expectativa é que o documento – que formaliza o acordo – seja assinado no sábado (17/01). O acordo será submetido à aprovação do Parlamento Europeu, etapa necessária para sua entrada em vigor.
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