
O Nordeste apresenta o segundo maior índice de consumidores que desistiram de compras internacionais por causa do imposto de importação. Segundo a pesquisa “Retratos do Brasil“, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e divulgada nesta segunda-feira (27), 42% dos consumidores nordestinos abandonaram a compra após tomar conhecimento da taxa, percentual acima da média nacional (38%) e atrás apenas da região Sul (44%). Quando o motivo é o ICMS, o Nordeste lidera: 41% dos entrevistados da região deixaram de comprar ao serem informados sobre o tributo estadual, a maior taxa entre todas as regiões do país.
O levantamento, conduzido pelo Instituto Nexus entre os dias 10 e 15 de outubro de 2025, entrevistou 2.008 pessoas nas 27 unidades da federação. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Esse comportamento de recuo é mais intenso entre os consumidores jovens e com maior escolaridade, segundo o relatório. Entre os entrevistados com ensino superior, 51% afirmaram que deixaram de comprar produtos importados ao saber do valor do imposto. Entre os consumidores de 16 a 24 anos e de 25 a 40 anos, o percentual chega a 46% em ambos os grupos.
O Nordeste também registra índices acima da média em relação a outros fatores que influenciam a desistência nas compras internacionais. O custo do frete levou 48% dos consumidores da região a abandonar a aquisição de produtos estrangeiros — o segundo maior índice entre as regiões, atrás apenas do Sul (52%). Já o prazo de entrega motivou 41% das desistências no Nordeste, contra 34% na média nacional.
Percentual de consumidores que deixaram de comprar após conhecer os custos com imposto de importação, ICMS, frete ou prazo de entrega.
Fonte: Pesquisa “Retratos do Brasil” – CNI/Nexus Inteligência (out. 2025)
CNI defende imposto como mecanismo de justiça tributária
O superintendente de Economia da CNI, Marcio Guerra, afirmou que a tributação sobre as compras internacionais representa um avanço em direção à correção de distorções no mercado:
“A implementação do Imposto de Importação é o início de um processo que busca trazer mais justiça e competitividade para a indústria nacional. No entanto, o imposto ainda está em um patamar muito aquém do necessário para chegarmos a esse equilíbrio, pois a carga tributária de outros países é muito menor que a nossa.”
A declaração foi feita no contexto da entrada em vigor da alíquota de 20% sobre remessas internacionais de até 50 dólares. A medida, sancionada no âmbito do Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), entrou em vigor em agosto. O tributo federal soma-se ao ICMS de 17% e ao imposto de importação de 60% aplicável a compras acima desse valor.
A CNI sustenta que a taxação busca equilibrar a concorrência com o varejo nacional, que precisa arcar com custos trabalhistas, tributários e logísticos superiores aos de grandes plataformas internacionais. A entidade afirma que as medidas são necessárias para mitigar assimetrias que prejudicam a indústria instalada no país.
Consumidores redirecionam parte da demanda ao mercado nacional
Entre os consumidores nordestinos que desistiram da compra internacional devido ao imposto, a maioria procurou alternativas no mercado nacional, sendo que 32% optaram por um produto similar com entrega nacional, 14% buscaram opções em lojas físicas e 11% tentaram encontrar o item em outros sites internacionais. Ainda assim, 41% dos entrevistados da região afirmaram ter desistido completamente da compra após se depararem com os custos adicionais.
Esse padrão de comportamento revela que há uma migração parcial da demanda para o mercado interno, embora parte significativa do consumo seja simplesmente abandonada. O custo total da importação — somado à percepção de demora na entrega — está remodelando o hábito de consumo digital dos brasileiros, especialmente nas regiões de menor renda.
Segundo a CNI, os dados apontam que, mesmo com a tributação, o mercado ainda sofre com distorções provocadas por regimes preferenciais de comércio e pela facilidade logística de grandes marketplaces estrangeiros. A entidade considera necessário ampliar o controle e a aplicação plena das normas para garantir maior equilíbrio concorrencial.
Compras internacionais atendem sobretudo ao consumo pessoal
A pesquisa identificou que a maior parte das compras feitas em sites internacionais tem finalidade de uso próprio. Em média, 75% dos consumidores declararam ter adquirido produtos para consumo pessoal, sem objetivo de revenda. No Nordeste, esse percentual ficou em 70%.
Esse dado ganha relevância ao considerar o perfil socioeconômico da região, onde há maior concentração de consumidores com renda de até dois salários mínimos e menor acesso a produtos no varejo físico. O comércio eletrônico representa, nesses casos, uma alternativa de acesso a itens com maior variedade e menor custo.
A aplicação de tributos como o imposto de importação, o ICMS e as taxas logísticas impacta diretamente esse público, que tem menor margem para absorver variações de preço. O aumento na carga tributária tende a restringir o acesso desses consumidores ao mercado digital internacional.
Indústria do NE enfrenta concorrência com importados de baixo custo
A elevação da carga tributária sobre compras internacionais tem potencial de repercussão direta na indústria de confecção do Nordeste, que é uma das mais representativas do país. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o Nordeste concentra 18% da produção nacional do setor e mais de 20% das micro e pequenas empresas da cadeia têxtil e de vestuário. O polo de confecção do Agreste pernambucano, formado pelos municípios de Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, é considerado um dos maiores centros comerciais do segmento na América Latina.
Esses polos regionais operam com alta dependência do mercado interno e enfrentam crescente competição com produtos importados de baixo custo, em especial de países asiáticos. Itens como roupas, calçados e acessórios vendidos em marketplaces internacionais frequentemente chegam ao consumidor brasileiro por valores inferiores ao custo de produção local, especialmente quando as plataformas se beneficiavam de isenções tributárias em remessas de até 50 dólares — cenário alterado com a aplicação da nova alíquota.
A aplicação do imposto de importação tende a funcionar como fator de reequilíbrio competitivo, na avaliação de entidades industriais. Ao aumentar o custo final dos produtos estrangeiros, a tributação pode favorecer uma retomada da demanda por itens fabricados localmente. A CNI sustenta que a cobrança de impostos sobre essas compras é necessária para proteger a produção nacional e preservar empregos formais, sobretudo nas regiões mais dependentes do setor têxtil e de baixo poder aquisitivo, como é o caso do Nordeste.
*Com informações da Agência de Notícias da Indústria
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