
O descomissionamento das 26 plataformas de petróleo e gás da Bacia Sergipe-Alagoas movimenta US$ 2,5 bilhões até 2035, segundo a Petrobras — dos quais US$ 1,7 bilhão estão previstos no Plano Estratégico 2025–2029 da companhia para a fase em curso. O processo, iniciado em 2021 após a decisão de encerrar a produção em águas rasas, demanda 430 profissionais de diversas áreas diariamente e posiciona Sergipe como a segunda bacia com maior volume de recursos destinados ao descomissionamento no país, atrás apenas da Bacia de Campos.
Estudo da FGV Energia, contratado pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de Sergipe (Agrese) e pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia (Sedetec) e apresentado na quarta-feira (25) em workshop com o governador Fábio Mitidieri, concluiu que o estado reúne os requisitos de infraestrutura e localização necessários para concentrar as operações e capturar a cadeia de fornecedores gerada pelo processo.
Das 26 plataformas, apenas uma ainda mantém estrutura para abrigar equipes por vários dias. As demais são operadas com protocolos internacionais de segurança e participação de múltiplas empresas. A frente mais recente envolve a plataforma autoelevatória PA-38, com pernas de quase 150 metros de altura — equivalente a um prédio de 42 andares —, atualmente em operação no campo de Guaricema, a 9 km da costa sergipana, para desativação e tamponamento de poços.
A campanha inicial tem duração prevista de sete meses, após a qual a unidade será deslocada para outros poços do programa. “A Petrobras avança em seus processos de descomissionamento na Bacia de Sergipe, uma etapa natural para ativos com mais de 25 anos de produção em uma indústria madura como a de óleo e gás no Brasil”, afirmou Carlos Castilho, gerente geral de Projetos de Descomissionamento da Petrobras.

Sergipe foi pioneiro no offshore nacional
Em 1969, a Petrobras deslocou para a costa sul de Aracaju a P-1 — primeira plataforma móvel de perfuração construída no Brasil —, onde realizou a primeira perfuração bem-sucedida no campo de Guaricema, marcando o início da produção de petróleo na plataforma continental do país. Nas décadas seguintes, a estatal expandiu as operações em águas rasas no litoral sergipano, instalando 27 plataformas nos campos de Guaricema, Caioba, Camorim, Dourado e Robalo.
O pico de produção ocorreu em 1977, com mais de 52 mil barris por dia. Em abril de 2020, a Petrobras paralisou a produção em águas rasas, desativou sua sede em Aracaju e fechou o terminal de processamento Tecarmo, encerrando esse ciclo. “Temos que ter uma integração muito grande de todas as tarefas e isso requer um ajuste fino de logística, para garantir que as pessoas estejam nos lugares certos, na hora certa e com o material necessário”, explicou Harlen Dantas, gerente de descomissionamento da Petrobras.
SEAP ancora nova fronteira com produção prevista para 2030
O encerramento do ciclo de águas rasas é paralelo à abertura de uma nova fronteira. O Projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP), com investimento de US$ 5 bilhões, prevê capacidade de 240 mil barris de petróleo por dia e 18 milhões de m³/dia de gás em plena operação, com início de produção em 2030.
O projeto é dividido em dois módulos: o SEAP 1 abrange os campos de Agulhinha, Agulhinha Oeste, Cavala e Palombeta; o SEAP 2 envolve Budião, Budião Noroeste e Budião Sudeste — todos na Bacia Sergipe-Alagoas. A licitação das duas plataformas FPSO foi concluída no modelo BOT (construção, operação e transferência), com a holandesa SBM Offshore validada tecnicamente em novembro passado, após superar as propostas da indiana Shapoorji e da japonesa Modec.
O SEAP foi mantido no Plano Estratégico 2026–2030 da Petrobras após a resolução do impasse sobre royalties com o Governo Federal. Em paralelo, o Hub de Gás de Sergipe avança com previsão de estocagem subterrânea, planta de liquefação e refinaria; e o gasoduto que conecta a UTE Porto de Sergipe I à rede da TAG foi concluído em 2024, com capacidade de 14 milhões de m³/dia.
“O estudo nos mostra que o descomissionamento, por meio do Sergipe Águas Profundas, tem o potencial de transformar Sergipe num novo hot spot de gás natural, com capacidade significativa de produção e impacto na oferta energética nacional”, afirmou Pietro Mendes, diretor da ANP.
Mitidieri posiciona desativação como eixo de reindustrialização
O governador Fábio Mitidieri definiu o processo como vetor de reindustrialização estadual, com foco em qualificação de mão de obra, interiorização do desenvolvimento e atração de novos investidores. “O investidor que decidir instalar sua empresa em Sergipe encontrará um governo parceiro. Com sua projeção de duração de aproximadamente dez anos, o descomissionamento terá um papel fundamental nos próximos anos”, afirmou.
O senador Laércio Oliveira, relator da Nova Lei do Gás, classificou o momento como “o início de um período de desenvolvimento em Sergipe”. No mesmo evento, Mitidieri antecipou movimento paralelo na agenda energética do estado: “Estamos nos trâmites de nos tornarmos o sócio majoritário da Sergas” — referência à conclusão do processo de reestatização da distribuidora de gás sergipana, com a aquisição da participação da Mitsui anunciada na véspera.
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