
O consumo das famílias segue pressionado em Alagoas, mas ainda não perdeu totalmente a capacidade de sustentar as vendas do comércio e do atacado. Em um cenário de orçamento apertado, crédito mais comprometido e reorganização das prioridades de compra, o setor de atacadistas prevê crescimento este ano, podendo superar os R$ 11 bilhões em faturamento registrado no ano passado, puxado pelo calendário atípico do ano, com férias escolares, Copa do Mundo e eleições que devem potencializar o consumo, sobretudo nos lares.
As tendências de consumo e perspectivas para o ano de 2026 foram debatidas em evento promovido pela Associação dos Atacadistas e Distribuidores de Alagoas, o Acadeal Conecta, na quinta-feira (16), em Maceió. O Sales Hunter Retail Vertical da NIQ, Roberval Fonsêca, apresentou em palestra que embora o ambiente macroeconômico traga alguns sinais de melhora, a realidade dos lares continua marcada por desconforto financeiro.
Roberval destacou que a insegurança financeira ainda protagoniza as preocupações dos brasileiros. Segundo os dados levados ao evento, 74% dos lares não se sentem confortáveis com a própria situação financeira e 54% vivem no limite, conseguindo manter os gastos, mas com pouca margem para novos compromissos.
“O consumidor está se ajustando ao aumento do custo de vida. Ele tem utilizado o cartão de crédito para fechar as contas do mês, o que torna esse meio de pagamento a principal razão do endividamento dos lares”, afirmou.
Na prática, o resultado é um consumo menos espontâneo e mais condicionado à necessidade. Segundo ele, o orçamento das famílias ficou mais engessado, e isso muda a forma como o dinheiro é distribuído entre itens essenciais, lazer e compras do dia a dia.
Os dados apresentados dialogam diretamente com pesquisa divulgada na última terça-feira (14) pela Federação do Comércio de Alagoas (Fecomércio) sobre o endividamento e inadimplência do consumidor. Em Maceió o percentual de famílias endividadas no mês de março chegou a 83,40%.
Desse total, 29,80% estavam inadimplentes. Na leitura da entidade, o cenário é de “estabilidade frágil”: as famílias ainda conseguem manter o consumo, mas já sentem com mais intensidade o peso das contas no orçamento.
Consumo na Copa, São João e eleições são janela para setor atacadista
Apesar do cenário de gastos controlados e endividamento, o especialista apontou que o segundo semestre do ano apresenta oportunidades para o setor atacadista com as festividades previstas.
Segundo a leitura da Nielsen apresentada no evento, datas e ocasiões de consumo devem ter papel importante para sustentar parte das vendas ao longo do ano.
Roberval citou especialmente a combinação entre festas juninas, férias escolares e Copa do Mundo como fatores capazes de estimular o consumo dentro de casa e em encontros entre amigos e familiares.
No caso do Nordeste, esse efeito tende a ser ainda mais relevante pela força regional do São João e pela presença histórica de bebidas e alimentos em celebrações domésticas.
“O mercado deve ser marcado por grandes eventos. A Copa, as festas juninas e as férias escolares tendem a aumentar o consumo. Vai ter mais gente em casa e mais momentos para comemorar”, afirmou.

Na avaliação dele, o setor não deve esperar um boom de consumo, mas sim janelas de respiro em meio a um ano ainda desafiador para o bolso das famílias. Para o atacado, isso significa ajustar estoque, leitura de categoria e estratégia comercial para capturar essas ocasiões com mais precisão.
As bebidas devem ganhar relevância neste contexto de consumo mais centrado no lar e em confraternizações. Segundo ele, a cesta tem forte representatividade em valor e em unidades, com destaque para cerveja, que segue puxando parte importante do giro dentro do autosserviço.
“Bebidas têm uma das maiores participações no valor vendido. Quando a gente olha a representatividade em unidades, a categoria também continua muito forte”, afirmou.
Apostas e canetas emagrecedoras disputam espaço no orçamento
Um dos pontos de alerta da análise apresentada no evento foi a identificação de novas pressões sobre o orçamento doméstico. Segundo Roberval, despesas com jogos de aposta e com medicamentos voltados ao emagrecimento já começam a disputar espaço com categorias tradicionais de consumo.
Na pesquisa citada por ele, 25% dos lares auditados informaram ter gastos com jogos de aposta. Desses, 10% afirmaram que esse tipo de despesa já substituiu algum outro gasto da rotina doméstica. No caso das chamadas canetas emagrecedoras, o consumo chegou a 4,6% do mercado analisado, e o impacto também aparece na reorganização dos gastos da casa. Para o setor, isso significa que o atacado já não disputa apenas a renda disponível com inflação e juros, mas também com novas despesas que passaram a fazer parte da rotina de parte dos consumidores.
“Quando a gente pergunta se algum gasto com jogos de aposta ou medicamento já substituiu despesa do lar, isso aparece. E quando falamos das canetas emagrecedoras, o efeito é claro: a pessoa deixa de consumir fora, reduz serviços e restaurantes e passa a reorganizar melhor o consumo dentro de casa”, completou.
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