O aumento da Selic foi acertado?

O economista Jorge Jatobá analisa a decisão do BC sobre a Selic e o cenário nacional neste ano conturbado

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Com mais uma alta da taxa básica de Juros (Selic), agora em 11,75%, o mercado entrou em estado de alerta e começa a se perguntar quais os rumos da economia brasileira daqui para frente, que parecem estar cada vez mais incertos. A tática do Banco Central ao usar essa arma poderosa é nobre: controlar a inflação, que dessa vez não é causada pelo excesso de demanda, já que o país enfrenta desemprego elevado e salários mais baixos.

Na visão do economista e o sócio-diretor da Ceplan Consultoria, Jorge Jatobá, que também é colunista do Movimento Econômico, a inflação que corrói o salário dos brasileiros dia após dia é resultado de um choque de oferta. “Temos três fatores: o climático, que gerou crise hídrica, levando ao acionamento de termelétricas e aumento no valor da energia; a desorganização das cadeias produtivas provocada pela pandemia (e agora com a guerra na Ucrânia), que gerou falta de matéria-prima; e o preço dos combustíveis, decorrente da política da Petrobras, que é atrelada ao dólar”, explica.

Jorge Jatobá
Jorge Jatobá: “Só se resolve essa questão do choque de preço quando se tira a causa”/Foto: Arthur Cunha/ME

Para o economista, além de não controlar a inflação, o movimento do BC pode culminar em um problema ainda maior. “Quando se aumenta juros nessa situação só piora a economia, porque encarece os custos. O crédito fica mais caro para capital de giro e investimentos, gerando aumento nos bens de consumo. Isso só acentua o processo de recessão. Se o BC insistir nessa política, os juros vão subir mês a mês, chegando a 13% ou 14%, desestimulando o consumo e os investimentos, que são os motores da economia”, afirma Jatobá.

Copom
Reunião do Copom/Foto: Agência Brasil

Diante da situação interna e de fatores externos, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, as projeções não são otimistas. A expectativa é que 2022 seja um ano de baixo crescimento econômico e inflação em alta. “Só se resolve essa questão do choque de preço quando se tira a causa, e diante das três causas citadas apenas em uma o governo pode interferir, que é a política de preços da Petrobrás, que leva em consideração o valor do barril de petróleo no mundo. E se a guerra se estender ainda mais, poderemos ter maiores choques de matéria-prima e combustível, piorando a inflação”, alerta.

Com as eleições batendo à porta, o governo federal tem investido em medidas populistas para garantir mais quatro anos no poder. No entanto, a distribuição de dinheiro pode ter um preço alto para as contas públicas e comprometer o equilíbrio fiscal. “O Brasil tem situação fiscal difícil, já rompeu o teto de gastos, e em ano eleitoral ocorre mais oportunismo, com tendencia de se gastar ainda mais. São muitas as tentações pelo lado fiscal”, avalia Jatobá.

A Selic e os juros nos EUA

Um dia antes da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a Selic de 10,75% para 11,75%, o Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos), elevou seus juros em 0,25 ponto percentual, numa tentativa agressiva de controlar a inflação, que depois da pandemia é causada agora por um outro vilão: a guerra no leste europeu.

“Os juros no EUA estavam praticamente em zero, mas devem ter de três a quatro aumentos esse ano. Quando se eleva os juros lá, os títulos da dívida norte-americana ficam mais atrativos, atraindo o capital especulativo que estava vindo ao Brasil atrás de nossos juros altos. Ainda temos vantagens porque os juros aqui seguem elevados, mas seria melhor para nós se os juros subissem aqui e não subissem lá também”, analisa o economista, acrescentando: “Elevar juros não é o melhor remédio. O BC deveria aumentar os juros sim, mas olhando para o modelo dos norte-americanos, que elevam quando necessário, mas não na frequência praticada aqui”.

A escalada no preço dos combustíveis é, sem dúvida, um dos principais vetores do processo inflacionário no país. Para Jorge Jatobá, as surpresas na bomba não vão deixar de existir enquanto o país não diminuir a dependência internacional. “A Petrobras deveria olhar para outras petrolíferas internacionais, elas não aumentam preços na velocidade e extensão que nós aqui. A política de reduzir o ICMS não vai resolver nada. A solução é aumentar capacidade de refino do Brasil, mas a Petrobras parou de investir em refinarias e em vez disso, passou a vende-las para iniciativa privada”.

Outro efeito do desequilíbrio econômico brasileiro é a fuga de dólares do país, o que pode fazer com que a moeda norte-americana fique ainda mais cara. “A queda do dólar não veio para ficar. Teremos relocação de dólares do Brasil para os EUA devido ao aumento dos juros lá”, completa Jatobá.

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