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Patente da UFC transforma resíduo do caju em alternativa segura na odontologia

Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará patentearam rota que transforma o líquido da casca da castanha de caju em compostos odontológicos, eliminando o uso do bisfenol A, substância tóxica
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  1. Patente da UFC permite substituir bisfenol A em materiais odontológicos usando cardanol do caju
  2. Cardanol extraído da casca de castanha de caju apresenta propriedades de rigidez, flexibilidade e hidrofobicidade
  3. Tecnologia forma plataforma molecular adaptável para síntese de monômeros metacrílicos em resinas e adesivos
  4. Cardanol interage com colágeno dentinário criando ligações cruzadas que aumentam resistência estrutural dental
  5. Substância inibe degradação de colágeno por água e metaloproteinases, prolongando durabilidade de restaurações
O Líquido da Casca da Castanha de caju técnico (LCC) é extraído durante o processo de obtenção da amêndoa e pode ser utilizado em compostos para aplicação odontológica. Foto: Viktor Braga/UFC
O Líquido da Casca da Castanha de caju técnico (LCC) é extraído durante o processo de obtenção da amêndoa e pode ser utilizado em compostos para aplicação odontológica. Foto: Viktor Braga/UFC

Uma nova rota tecnológica desenvolvida na Universidade Federal do Ceará (UFC) transformou moléculas do líquido da casca da castanha de caju em compostos para aplicação odontológica, com carta patente concedida pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). A tecnologia permite substituir derivados do bisfenol A (BPA), substância com potencial tóxico ainda presente na fabricação de resinas, adesivos e dessensibilizantes dentinários.

O composto central da patente é o cardanol, substância predominante no Líquido da Casca da Castanha de caju técnico (LCC), extraído após processamento industrial em altas temperaturas. Segundo o professor Diego Lomonaco, do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da UFC, a patente não cobre um produto único, mas uma plataforma molecular adaptável a diferentes materiais de uso dentário.

Essa versatilidade se deve às propriedades físico-químicas do cardanol, que reúne rigidez, flexibilidade e hidrofobicidade em uma mesma molécula. Essas características o tornam adequado para a síntese dos chamados monômeros metacrílicos, moléculas que funcionam como base de plásticos, resinas e adesivos utilizados na odontologia.

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Colágeno e durabilidade

Além de não causar pigmentação dos dentes, o cardanol interage quimicamente com o colágeno, proteína localizada na dentina, a camada logo abaixo do esmalte que atua como sustentação estrutural do dente. Essa interação forma ligações cruzadas com as fibras do colágeno, o que favorece a resistência da estrutura dental e a adesão de restaurações.

Os monômeros derivados do cardanol também inibem as metaloproteinases de matriz, enzimas naturalmente presentes na dentina que degradam o colágeno ao longo do tempo e comprometem a aderência dos procedimentos restauradores.

A hidrofobicidade do cardanol tem aplicação direta nesse processo. A substância reduz a absorção de água pelo tecido e pelos materiais aplicados, o que diminui a degradação da rede de colágeno e aumenta a vida útil das restaurações. Segundo Lomonaco, a tecnologia combina estabilização do colágeno, inibição enzimática e resistência à degradação por água.

Substância da casca da castanha de caju pode ser usada para produzir como materiais resinas, adesivos e dessensibilizantes dentários. Foto: Ribamar Neto/UFC
Substância da casca da castanha de caju pode ser usada para produzir como materiais resinas, adesivos e dessensibilizantes dentários. Foto: Ribamar Neto/UFC

Substituição do bisfenol A

O Bis-GMA, derivado do bisfenol A, é a molécula mais utilizada em materiais odontológicos por suas propriedades mecânicas. O bisfenol A, contudo, é classificado como desregulador do sistema hormonal. Mesmo em baixas doses, a substância está associada a riscos de câncer de mama, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, desordens reprodutivas e neuroendócrinas.

Após restaurações de resina composta, ocorre liberação dessa molécula na cavidade oral dos pacientes. Segundo os pesquisadores da UFC, esse tipo de exposição começou a ser estudado apenas recentemente e seus efeitos na saúde permanecem incertos. O uso do cardanol elimina essa exposição. Segundo Lomonaco, a literatura científica registra ausência de toxicidade e mutagenicidade para o LCC técnico e seus derivados.

De acordo com o professor Diego Lomonaco, que coordenou a pesquisa, o invento não se trata de um produto único, mas de uma plataforma molecular adaptável. Foto: Ribamar Neto/UFC
De acordo com o professor Diego Lomonaco, que coordenou a pesquisa, o invento não se trata de um produto único, mas de uma plataforma molecular adaptável. Foto: Ribamar Neto/UFC

Caminho para o mercado

A validação para uso clínico exigirá ensaios pré-clínicos e clínicos formais, ainda não realizados. A patente está em fase de prospecção para transferência de tecnologia e licenciamento, com interesse em desenvolver protótipos para testes pré-clínicos.

Segundo Lomonaco, o caminho mais direto é o licenciamento para empresas do setor odontológico com capacidade de desenvolvimento de produto e registro sanitário. O LCC é um resíduo industrial hoje amplamente descartado, e a matéria-prima é brasileira, abundante e renovável. Os pesquisadores buscam apoio, por meio de instrumentos de fomento à inovação, para a fase de escalonamento e validação clínica.

Parceria interdisciplinar

A aplicação do LCC em materiais dentários resultou de parceria entre o Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da UFC e pesquisadores da área de odontologia. O professor Victor Feitosa, atualmente na Universidade de Iowa (EUA), e a professora Madiana Magalhães, da Faculdade Paulo Picanço, contribuíram com expertise clínica e laboratorial.

A patente tem a UFC como titular. Os inventores listados são Diego Lomonaco, Victor Pinheiro Feitosa, Madiana Magalhães, Rita de Cássia Sousa Pereira, Lucas Renan Rocha da Silva e Selma Elaine Mazzetto.

*Com informações da Agência UFC

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