
A produção de fertilizantes nitrogenados nas unidades da Petrobras em Sergipe e na Bahia será retomada até janeiro de 2026, segundo confirmou o diretor-executivo de Processos Industriais e Produtos da Petrobras, William França, à Agência Reuters. As duas plantas industriais estavam paralisadas desde 2023, após o encerramento dos contratos de arrendamento com a iniciativa privada. A expectativa da companhia é que a unidade sergipana seja a primeira a entrar em operação.
A retomada está inserida na estratégia da Petrobras de ampliar a produção nacional de fertilizantes, reduzindo a dependência externa e fortalecendo a segurança do agronegócio. Juntas, as duas unidades poderão atender até 20% da demanda nacional por fertilizantes nitrogenados a partir de 2026, segundo projeções da estatal.
A Fafen de Sergipe, implantada pela Petrobras em 1980, foi um dos principais polos industriais do setor químico no Nordeste, com produção de ureia, amônia e sulfato de amônio. Em 2020, a unidade foi arrendada à Unigel, que suspendeu as operações em março de 2024, alegando inviabilidade econômica.
Após o encerramento do arrendamento, a Petrobras conduziu uma nova licitação para os serviços de operação e manutenção das fábricas de Sergipe e Bahia, encerrada em julho de 2025. A empresa Engeman Manutenção de Equipamentos venceu a disputa com proposta de R$ 976 milhões.
O contrato foi assinado em 12 de setembro de 2025, com apoio institucional do Governo de Sergipe, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia (Sedetec) e do governador Fábio Mitidieri. A Petrobras manterá a gestão comercial das unidades, enquanto a Engeman será responsável pela operação técnica.
Histórico e retomada da unidade na Bahia
A Fafen da Bahia, localizada no município de Camaçari, foi inaugurada em 1971 e consolidou-se como referência na produção de ureia perolada, amônia e ARLA‑32, utilizado na redução de emissões de veículos a diesel. A unidade compõe o polo industrial de Camaçari e tem papel estratégico na oferta de insumos para a agricultura e a indústria química da região.
Assim como a planta de Sergipe, a unidade baiana foi arrendada à Unigel em 2020, e também teve as atividades suspensas em 2023. Com o encerramento do contrato, a planta entrou no mesmo processo de licitação conduzido pela Petrobras para retomada da operação, vencido pela Engeman.
A operação será retomada por meio de contrato de prestação de serviços, no qual a Engeman será responsável pela operação e manutenção e a Petrobras pela gestão comercial e logística, incluindo os Terminais Marítimos de Amônia e Ureia no Porto de Aratu, localizados em Candeias (BA). O retorno à atividade está previsto para ocorrer até o final de 2025.
Produção e geração de empregos nas unidades
A unidade de Sergipe contará com capacidade instalada de 1,8 mil toneladas por dia de ureia, além da produção de amônia. A operação será retomada sob modelo de prestação de serviços, com previsão de início ainda no primeiro trimestre de 2025. De acordo com estimativas do governo estadual, a reativação poderá gerar até 1.400 empregos diretos e indiretos.
A unidade da Bahia terá capacidade de produzir 1,3 mil toneladas de ureia por dia, além de amônia e ARLA‑32. A Petrobras prevê um investimento de R$ 38 milhões para reativação da planta, com expectativa de 750 empregos diretos. Ambas as unidades operaram com insumos nacionais e estrutura logística integrada à cadeia do agronegócio.
Com as duas plantas em operação, a Petrobras espera fortalecer a capacidade interna de fornecimento de fertilizantes nitrogenados, reduzindo custos de importação e dependência de mercados externos.
Redução da dependência externa e cenário regional
O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, segundo o Ministério da Agricultura. Os nitrogenados produzidos pelas Fafens são insumos essenciais para lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar e fruticultura irrigada.
No Nordeste, o consumo foi de 3,2 milhões de toneladas em 2024, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). A Bahia respondeu por 38% do volume regional, e os nitrogenados representaram aproximadamente um terço da demanda.
A retomada das unidades da Petrobras é considerada estratégica para reduzir a vulnerabilidade externa, estabilizar preços internos e fortalecer a competitividade da cadeia agroindustrial.
Metas nacionais e projeções da Embrapa
De acordo com estudo da Embrapa, a meta de longo prazo do Brasil é reduzir a dependência externa para cerca de 50% da demanda total de fertilizantes até 2050. Hoje, esse índice gira entre 85% e 90%.
A projeção indica que, até meados do século, o país precisará de cerca de 77 milhões de toneladas por ano para atender à produção agrícola, o que representa um crescimento de aproximadamente 70% na demanda atual.
Nesse contexto, a reativação das Fafens no Nordeste reforça a estratégia nacional de reindustrialização do setor químico, contribuindo para ampliar a oferta interna e diminuir a exposição brasileira a choques internacionais de preços e oferta.
Papel geopolítico e impacto regional
A reabertura das fábricas de fertilizantes da Petrobras no Nordeste representa um movimento de reindustrialização com reflexos logísticos e econômicos para os estados da região.
A proximidade das unidades com os polos de produção agrícola do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), somada à infraestrutura portuária, pode favorecer a reconfiguração da cadeia logística e a ampliação do fornecimento regional.
Para Pernambuco, que concentra estrutura de armazenagem e operações portuárias, o aumento da produção de insumos no entorno pode gerar impacto positivo na movimentação de cargas, além de estimular novos investimentos logísticos e industriais.
Leia mais: Com R$ 12 bi, Rnest dá fôlego ao sonho da Transnordestina em Suape











