
O crescimento da frota de carros elétricos no Nordeste começa a pressionar condomínios e gestores públicos a enfrentarem um desafio ainda pouco regulamentado: a instalação segura de estações de recarga em edifícios residenciais. Com a maioria das construções mais antigas projetadas antes da popularização dos elétricos, surgem dúvidas técnicas, jurídicas e de segurança que agora entram no radar de instituições e empresas do setor.
Em estados como Sergipe e Alagoas, o debate já mobiliza conselhos de engenharia e órgãos de fiscalização. No início de junho, o Ministério Público de Alagoas solicitou ao Corpo de Bombeiros esclarecimentos sobre os riscos da recarga de carros elétricos em garagens, citando a nota técnica do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Sergipe (CREA-SE) que alerta para a possibilidade de incêndios de difícil controle em baterias de íons de lítio.
A nota sergipana recomenda que o carregamento seja feito em áreas abertas, com distância mínima de três metros entre veículos ou com enclausuramento adequado, para evitar propagação de fogo em caso de sinistro.
“É preciso que acendamos o alerta e já nos antecipemos para trabalhar a prevenção. No Brasil, ainda não há uma legislação federal que discipline isso, mas a venda de carros elétricos é crescente e, comumente, os proprietários têm utilizado esse formato para recarregar seus carros, apenas usando as tomadas dos prédios. Confirmadamente, o eletrólito pode superaquecer as baterias, e elas podem explodir. Acionamos os bombeiros para colhermos informações e fazer a adoção das providências, pois é importante encontrarmos a forma correta para enfrentar o problema em Maceió e, consequentemente, evitar quaisquer tragédias”, destaca o promotor de Justiça de Alagoas Jorge Dória.
Em Alagoas, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA-AL) vem debatendo a elaboração de normativas específicas em parceria com o Corpo de Bombeiros. A engenheira eletricista Michelle Palladino, conselheira do CREA-AL, explicou ao Movimento Econômico que cada caso exige análise técnica específica e alerta para a sobrecarga elétrica em prédios antigos.

“É fundamental ter um engenheiro eletricista responsável para fazer os cálculos e projetar a instalação com os devidos equipamentos de proteção. A sobrecarga é um risco real em sistemas antigos que não foram preparados para esse tipo de demanda”, ressalta Palladino.
Dados da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (Abave) apontam que somente entre janeiro e junho deste ano o Nordeste registrou 14.724 vendas de carros elétricos leves, um aumento considerável quando comparado ao mesmo período do ano passado, que registrou a venda de 11.238 unidades nos estados nordestinos.
Os estados da Bahia, Pernambuco e Ceará concentram as maiores vendas de veículos em 2025. A Bahia vendeu desde janeiro 3.651 veículos elétricos, Pernambuco registrou a venda de 2.961 unidades e o Ceará 2.175. Alagoas aparece na quarta colocação com 1.451 unidades elétricas vendidas este ano no estado.
Condomínios se adaptam aos carros elétricos, mas com insegurança jurídica
O cenário também desafia a gestão dos condomínios. Segundo o advogado Carlos Rangel, especialista em direito condominial, o tema ainda é novo no país, mas síndicos já devem estar atentos. “O Código Civil prevê que o interesse individual não pode se sobrepor à coletividade. Se algo der errado, o condomínio pode ser responsabilizado solidariamente, mesmo que o problema decorra de uma instalação feita por um morador”, afirma.

A falta de regulamentação federal exige cautela, sobretudo em edificações mais antigas. “Nos prédios novos, há mais espaço para antecipar soluções. Já nos antigos, é preciso pensar em alternativas técnicas e legais que garantam segurança e equidade entre os condôminos”, completa Rangel.
Empresas especializadas trazem soluções para o Nordeste
Mesmo com os desafios, o Nordeste já apresenta avanços na infraestrutura de recarga residencial. A EzVolt, uma das principais empresas do setor, atua em oito estados da região e contabiliza mais de 580 carregadores instalados em condomínios em todo o país. O modelo da empresa envolve diagnóstico técnico, instalação segura e sistema de cobrança digital individualizado para os moradores.
“Hoje atuamos tanto em condomínios residenciais, comerciais, quanto em parceria com grandes empresas e marcas dos setores automotivo e logístico. O consumidor brasileiro está cada vez mais engajado com a mobilidade elétrica e com soluções sustentáveis para o transporte urbano”, afirmou a empresa em nota enviada ao Movimento Econômico.
A popularização dos veículos elétricos na região tem impulsionado a demanda por estações de carregamento. Segundo a EzVolt, apesar da necessidade de pontos de recarga práticos e eficientes em ambientes residenciais e comerciais, um dos principais desafios enfrentados é justamente a infraestrutura predial adequada. A empresa tem buscado também atuar de forma consultiva quando identifica limitações na infraestrutura predial, orientando o condomínio sobre a necessidade de adequação às normas técnicas antes de qualquer instalação.

A empresa alerta que muitos edifícios apresentam sistemas desatualizados ou modificações realizadas por profissionais que não seguiram as normas técnicas vigentes no Brasil. Nesses casos, o processo de instalação dos carregadores exige um cuidado redobrado. É preciso que primeiro se adeque a estrutura elétrica do prédio para, só então, avançar com a implantação dos pontos de recarga.
Outro ponto muito debatido é a questão do consumo de energia, já que por se tratar de uma demanda individual, há debates sobre esse consumo extra ser pago por todos os moradores.
A Equatorial Alagoas informou que o consumo dos veículos elétricos é medido normalmente no estado, de forma individual em cada unidade residencial. A distribuidora também reforçou que a instalação dos terminais de recarga precisa seguir os padrões de ligação elétrica.
A EzVolt disse que conta com um software próprio e uma plataforma exclusiva de gestão para recarga de veículos elétricos. Tudo acontece pelo aplicativo. O morador realiza a recarga e o pagamento é feito diretamente no cartão de crédito, de forma prática e sem burocracia. Dessa forma, o condomínio não precisa arcar com nenhum custo operacional.
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