
A 2.500 metros de profundidade e a 80 km da costa de Sergipe, o fundo do mar da Bacia de Sergipe-Alagoas é palco de uma disputa bilionária que atraiu as três maiores fabricantes de equipamentos submarinos do mundo. A norueguesa-norte-americana OneSubsea, a norte-americana Baker Hughes e a franco-norte-americana TechnipFMC concorrem por um contrato que pode chegar a quase R$ 3 bilhões para fornecer 32 árvores de Natal molhadas (ANMs) ao projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP), da Petrobras, um empreendimento de mais de R$ 60 bilhões que prevê duas plataformas e 32 poços na principal nova fronteira de produção de óleo e gás do país fora do pré-sal.
As ofertas foram divulgadas pela Petronect na terceira semana de julho de 2026, segundo o Petronotícias, e a OneSubsea apresentou o menor valor: R$ 2,89 bilhões no lote consolidado. As árvores de Natal molhadas são equipamentos pesando 80 toneladas instalados sobre a cabeça de cada poço no fundo do mar, responsáveis por controlar válvulas de pressão, vazão e temperatura e fazer a conexão entre o poço e o sistema submarino de produção. Sem elas, as plataformas não têm como acessar os poços nem iniciar a extração de óleo e gás. O edital (licitação nº 7004565113) foi publicado no Diário Oficial da União em 13 de fevereiro de 2026. A Petrobras não divulgou o vencedor até o fechamento desta edição.
O protagonismo do SEAP também deve marcar a programação da quinta edição do Sergipe Oil & Gas (SOG26), que será realizada entre 29 e 31 de julho, em Aracaju. Com expectativa de receber 5 mil participantes e patrocínio master da Petrobras, o congresso reunirá operadoras, fornecedores, investidores, representantes do poder público e especialistas para discutir os novos investimentos em exploração e produção de petróleo e gás, tendo o projeto de águas profundas como principal destaque da programação.
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Em abril, ao anunciar a aprovação do FID do módulo SEAP I, a estatal confirmou que a licitação para o fornecimento de ANMs e equipamentos submarinos já estava em andamento. Em maio, durante a assinatura dos contratos das plataformas em Sergipe, a companhia reafirmou que as licitações para as demais infraestruturas do projeto teriam início até o final de 2026.
O escopo do contrato vai além das ANMs: segundo o aviso do DOU, inclui um manifold, 13 unidades de distribuição eletro-hidráulica (UDEHs), 5 PLEMs, 3 ESDVs, 3 UTAs, ferramentas e sobressalentes, serviços de engenharia e qualificação, assistência técnica para instalação, preservação e intervenção, manutenção preventiva e contratos de comodato para área de preservação e cessão de ferramentas à contratada. É o conjunto que conectará cada um dos 32 poços às plataformas P-87 e P-81.
A licitação é processada pela Petronect, sociedade com participação da Petrobras, da SAP e da Accenture, com sede no Rio de Janeiro, que opera o portal eletrônico de compras da estatal. A definição do vencedor cabe à Petrobras.

A mecânica da concorrência
A licitação está dividida em três lotes. Os lotes 1 e 2 preveem 16 ANMs cada e não são excludentes, o que permite à mesma empresa vencer ambos. O lote 3 consolida toda a demanda em 32 unidades, e a Petrobras comparará a soma das melhores ofertas individuais com a proposta do lote consolidado para definir o formato mais vantajoso.
A OneSubsea ficou à frente nos três lotes, segundo a Petronect: R$ 1,58 bilhão no lote 1 (contra R$ 1,81 bilhão da Baker Hughes e R$ 1,87 bilhão da TechnipFMC) e R$ 1,76 bilhão no lote 2 (contra R$ 2,05 bilhões e R$ 2,10 bilhões, respectivamente). A soma das duas ofertas da OneSubsea nos lotes separados totaliza R$ 3,34 bilhões, valor R$ 450 milhões acima de sua própria proposta para o lote 3, o que embute ganho de escala na oferta unificada.

De anos de atraso a sete meses de decisões
A concorrência pelas ANMs é a segunda grande contratação do SEAP a avançar em 2026, depois das plataformas. O projeto acumulou anos de adiamentos antes de entrar em uma sequência ininterrupta de marcos entre dezembro de 2025 e maio de 2026: a Petrobras aprovou a decisão final de investimento (FID) do módulo SEAP II em dezembro, e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) aprovou o plano de desenvolvimento e prorrogou as concessões de 2048 para 2055 (SEAP I) e 2057 (SEAP II) em janeiro.
Em abril, o conselho de administração da Petrobras aprovou o FID do SEAP I e, em 29 de maio, a estatal assinou com a SBM Offshore os contratos para construção e operação das duas plataformas no modelo BOT (Build, Operate and Transfer), com manutenção pela SBM por seis anos e meio. “A escolha da modalidade de contratação BOT contribuiu para viabilizar o início da produção em menos tempo”, afirmou Renata Baruzzi, diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação da Petrobras.
O SEAP I abrange os campos de Agulhinha, Agulhinha Oeste e Palombeta, nas concessões BM-SEAL-10 (100% Petrobras) e BM-SEAL-11 (60% Petrobras, 40% IBV Brasil Petróleo). O SEAP II reúne os campos de Budião, Budião Noroeste e Palombeta, nas concessões BM-SEAL-4 (75% Petrobras, 25% ONGC Campos), BM-SEAL-4A e BM-SEAL-10 (100% Petrobras em ambas). As jazidas contêm óleo leve, com grau API entre 38 e 41.
O peso do SEAP para Sergipe e o Nordeste
Os investimentos totais nos dois módulos superam R$ 60 bilhões, segundo a Petrobras, com produção estimada em mais de 1 bilhão de barris de óleo equivalente. O valor faz parte de um pacote de mais de R$ 70 bilhões anunciado pela estatal para Sergipe em 29 de maio de 2026, que inclui ainda R$ 12,5 bilhões no descomissionamento de 26 plataformas em águas rasas e a retomada da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Sergipe (Fafen-SE). O desenvolvimento do SEAP, incluindo a construção do gasoduto, deve gerar mais de 25 mil postos de trabalho diretos e indiretos, de um total de 28 mil previstos para o conjunto dos investimentos no estado.
“O SEAP transforma Sergipe no maior estado produtor do Nordeste. Vamos pôr o gás em terra aqui”, disse a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, durante a cerimônia de assinatura dos contratos. A expectativa da companhia é que a participação do Nordeste na oferta nacional de gás natural quase dobre com o projeto, saindo dos atuais 16% para cerca de 31% até 2035.
A P-87 (SEAP II) tem entrega prevista para 2030, com capacidade de 120 mil barris de óleo por dia e processamento de 12 milhões de m³ de gás natural por dia. A P-81 (SEAP I) tem entrega para 2031, com capacidade equivalente de 120 mil barris por dia e 10 milhões de m³ de gás por dia. A exportação de gás está programada para 2031, por um gasoduto de aproximadamente 134 km de extensão, sendo 111 km em trecho marítimo e 23 km em terra, até a costa sergipana.
*Com informações da Petrobras
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