
Por Douglas Souza*
Durante anos, a economia digital foi desenhada com foco quase exclusivo nos consumidores jovens. Plataformas, marcas e startups concentraram investimentos em entender os hábitos da geração Z e dos millennials, associando o futuro do consumo às novas gerações. Mas a transformação demográfica global começa a alterar essa lógica.
A China é hoje um dos principais sinais desse movimento. O país registrou em 2025 o menor índice de natalidade de sua história e já soma mais de 320 milhões de pessoas acima dos 60 anos. A projeção é que esse grupo ultrapasse 400 milhões na próxima década, impulsionando a chamada “silver economy”.
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Segundo estimativas do ecossistema do Chinese Center for Knowledge on International Development (CKGSB), esse mercado já movimenta cerca de 7 trilhões de yuan, o equivalente a aproximadamente R$ 5,2 trilhões, e pode alcançar 30 trilhões de yuan até 2035, cerca de R$ 22 trilhões, representando aproximadamente 10% do PIB chinês. O envelhecimento populacional deixa de ser apenas uma questão social para se consolidar como vetor estratégico de consumo e crescimento econômico.
Impacto do envelhecimento
O impacto já aparece em diferentes setores. Empresas de educação, tecnologia, turismo, saúde e entretenimento começam a adaptar produtos e experiências para consumidores maduros, um público que combina maior estabilidade financeira, recorrência de consumo e demanda crescente por conveniência, bem-estar e desenvolvimento pessoal.
A New Oriental, maior companhia de educação privada da China, ilustra essa mudança. Após anos focada em reforço escolar infantil, a empresa passou a investir em cursos voltados para aposentados, incluindo alfabetização digital, cultura e aprendizado contínuo. O caso evidencia uma mudança estrutural: a economia digital passa a depender cada vez mais da capacidade de engajar audiências maduras.
Esse cenário também pressiona o mercado publicitário e as plataformas digitais a revisarem métricas historicamente ligadas à velocidade e viralização. Consumidores acima dos 50 anos tendem a estabelecer relações mais duradouras com marcas, baseadas em confiança, utilidade e credibilidade.
A creator economy acompanha esse movimento. Influenciadores maduros ganham relevância em segmentos como finanças, saúde, viagens, longevidade e tecnologia, ampliando o espaço para narrativas menos aceleradas e mais conectadas à experiência prática.
Ao mesmo tempo, essa audiência se tornou significativamente mais digital. Smartphones, pagamentos online, aplicativos e plataformas de conteúdo já fazem parte da rotina de consumidores mais velhos, abrindo espaço para novos modelos ligados à educação contínua, telemedicina e serviços especializados.
Durante muito tempo, o futuro da internet foi associado quase exclusivamente à juventude. Mas o envelhecimento populacional indica que a próxima grande transformação da economia digital pode nascer justamente da capacidade de compreender e atender consumidores maduros.
*Douglas Souza é CEO do CNEX, plataforma brasileira de transformação executiva que combina método proprietário, chancelas globais selecionadas e inteligência setorial brasileira para acelerar a capacidade de execução das organizações e encurtar a distância entre tese estratégica e resultado de negócio.
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