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Usinas do Nordeste aceleram mecanização em canaviais para reduzir custos

Falta de mão de obra, diesel caro e busca por produtividade levam setor a investir em mecanização, dados e novas alternativas
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~8:28
  1. Usinas nordestinas aumentam mecanização na colheita para enfrentar escassez de mão de obra qualificada.
  2. Idade média dos trabalhadores rurais sobe, reduzindo rendimento do corte manual e pressionando automatização.
  3. Caeté atinge 75% de colheita mecanizada, elevando volume de 1 milhão para 1,715 milhão de toneladas.
  4. Mecanização reduz custos de frete ao transportar mais carga por caminhão na colheita.
  5. Usinas nordestinas avançam em diferentes estágios, com Coruripe chegando próximo de 90% de mecanização.
Mecanização da colheita na Usina Caeté, em São Miguel dos Campos, Alagoas
Usinas têm buscado ampliar a mecanização na colheita da cana-de-açúcar diante da escassez de mão de obra; na foto, colheita na Usina Caeté, em Alagoas. Foto: Acervo/Usina Caeté

A mecanização da colheita de cana-de-açúcar avança no Nordeste como resposta a uma combinação de falta de mão de obra, envelhecimento dos trabalhadores rurais, custos elevados, diesel mais caro e necessidade de ampliar produtividade. Durante o 41º Simpósio da Agroindústria da Cana-de-Açúcar de Alagoas, em Maceió, usinas de Alagoas e Pernambuco apresentaram experiências que mostram como máquinas, dados e planejamento passaram a ser decisivos para manter a competitividade do setor.

O tema apareceu como um dos principais desafios para a safra 2026/2027, prevista para iniciar no Nordeste em setembro. Embora a mecanização já esteja consolidada em parte das áreas canavieiras do Centro-Sul, a realidade nordestina impõe obstáculos próprios, como relevo acidentado, encostas, áreas menores, limitações de frota e dependência histórica do corte manual.

Na Usina Caeté Matriz, do Grupo Carlos Lyra, o envelhecimento da mão de obra rural tem sido um dos fatores que pressionam a expansão da colheita mecanizada. Segundo Paulo Victor Bezerra Cavalcanti, a idade média do trabalhador rural da unidade passou de 34 anos, em 2015, para 41 anos em 2026. Com isso, o rendimento do corte manual vem caindo, aumentando a necessidade de mecanizar as áreas possíveis.

“A média de idade vai subindo, o rendimento do corte por homem/dia vai caindo. Então vem a necessidade de mecanizar onde der”, afirmou.

Durante o painel, a Caeté apresentou dados da safra 2025/2026, que apontam que 75% da cana colhida foi de forma mecanizada e 24% de forma manual. O volume mecanizado passou de cerca de 1 milhão de toneladas entre 2019 e 2020 para 1,715 milhão de toneladas no último ciclo. Na cana de fornecedores, o avanço também foi expressivo, saindo de aproximadamente 60 mil toneladas mecanizadas para 359 mil toneladas.

“Quando eu corto mecanizado, transporto praticamente 20 toneladas a mais no caminhão. Isso me dá um custo de frete bem mais barato”, destacou Paulo Cavalcanti.

Os cases apresentados durante o Simpósio mostram que as usinas nordestinas estão em diferentes estágios de mecanização. A Caeté informou ter alcançado 75% da colheita mecanizada, enquanto a Usina Santa Clotilde saiu de 18% para 43%, já na usina Coruripe, a mecanização passou de cerca de 40% para um patamar próximo de 90%, mudando a lógica da operação. A Usina Trapiche, em Pernambuco, projeta sair de 136 mil para 180 mil toneladas mecanizadas e vê potencial de chegar a 30% de mecanização, mesmo em áreas de relevo mais complexo.

Mecanização da colheita na Usina Caeté, em São Miguel dos Campos, Alagoas
Usina Caeté Matriz, em São Miguel dos Campos, safra de 2025/2026 teve cerca de 75% do total colhido de forma mecanizada. Foto: Acervo/Usina Caeté

Santa Clotilde reduz custos com eficiência operacional

Na Usina Santa Clotilde, de Alagoas, a mecanização vem sendo tratada como parte de uma estratégia de eficiência operacional. Segundo Pedro Sarmento, a unidade saiu de 18% para 43% de colheita mecanizada, com alta de 147% no volume de cana colhida por máquinas. No mesmo período, a dependência da cana manual caiu de 700 mil para 500 mil toneladas.

“A gente não ganha dinheiro com açúcar nem com etanol, a gente ganha dinheiro com eficiência operacional. O preço está definido, o custo está na nossa mão”, afirmou.

A Santa Clotilde também mostrou que o avanço da mecanização precisa considerar a produtividade agrícola. Segundo Sarmento, a colheita mecanizada não pode ser avaliada apenas pelo volume total colhido, mas também pelo rendimento da área, onde há influência na entrega de cana à indústria e no consumo de combustível das máquinas. “Colheita mecanizada não pode olhar só a tonelada, tem que olhar a tonelada e o rendimento agrícola”, disse.

Coruripe usa dados para elevar produtividade

Na Usina Coruripe, o avanço da mecanização também veio acompanhado de maior rigor na gestão de dados, planejamento agrícola e manutenção. Segundo João Airton Malta Feitosa Filho, a produtividade média da colheita mecanizada chegou a 720 toneladas por máquina na última safra, superando a meta interna de 700 toneladas.

O crescimento da mecanização, no entanto, aumentou a complexidade da operação. Segundo ele, quando a usina tinha cerca de 40% de colheita mecanizada, era possível escolher as áreas mais favoráveis para as máquinas. Com o avanço para um patamar próximo de 90%, os talhões mais difíceis passaram a entrar no planejamento.

“Lá atrás, quando tínhamos 40% de colheita mecanizada, você escolhia onde queria colher. Agora não tem mais isso”, afirmou.

Um dos instrumentos usados pela Coruripe foi a análise de “colheitabilidade” em 100% dos blocos da usina. A ferramenta considera variáveis como horas produtivas, TCH estimado, velocidade, percentual de manobra, espaçamento e problemas específicos da área, como canais e redes elétricas. A partir disso, a usina define a meta diária de cada máquina e reorganiza as frentes de colheita.

“Não adianta dizer que a meta de uma colhedora é 720 toneladas. Depende do bloco que ela faz”, explicou.

Usina Trapiche, de Pernambuco, apresentou dados sobre mecanização
Usina Trapiche, de Pernambuco, apresentou sua experiência com a mecanização em canaviais em áreas de relevo mais difícil. Foto: Vanessa Siqueira

Relevo desafia avanço da mecanização no Nordeste

Em Pernambuco, a Usina Trapiche apresentou um dos principais desafios da mecanização no Nordeste de adaptar máquinas e operações a áreas de relevo mais difícil. Segundo Plínio Duarte, a unidade trabalha com encostas, pedras, declividade e limitações que tornam a mecanização mais complexa do que em regiões planas.

A Trapiche colheu 136 mil toneladas de cana mecanizada na safra passada e pretende chegar a 180 mil toneladas neste ciclo. A expectativa é avançar gradualmente, usando mapeamento de áreas, imagens de satélite, levantamento de declividade, adaptação de máquinas menores e reorganização de rotas.

“Apesar da declividade, acreditamos que podemos chegar a até 30% de colheita mecanizada, trabalhando encostas suaves, curvas de base largas e ajustando as áreas para esse potencial”, afirmou.

Diesel caro abre debate sobre máquinas a etanol

Se a mecanização avança como resposta à falta de mão de obra, o custo do diesel aparece como o próximo desafio da operação. Durante os painéis desta quinta-feira (9), o uso de máquinas movidas a etanol entrou em debate, já que os altos custos com o diesel têm impactado as finanças das indústrias. 

Representando a John Deere, Rogério Silva informou que a marca vem desenvolvendo projetos com etanol, incluindo protótipo de colheitadeira e dois tratores. Ele disse que a empresa busca oferecer alternativas de fonte de energia para o setor sucroenergético e atacar faixas de motorização consideradas estratégicas para as usinas.

A Case IH também afirmou que acompanha essa demanda, mas ponderou que o desenvolvimento de máquinas com novas fontes energéticas exige tempo, investimento e segurança operacional. A empresa citou que já possui tratores a gás disponíveis no mercado e que, no curto prazo, trabalha para reduzir o consumo de diesel das máquinas atuais, reconhecendo que o combustível é uma das principais dores do setor.

Colhedora Nova Case IH
Colheitadeira Autosotf 9000 é um dos lançamentos da Case IH, que busca entregar um maquinário cada vez mais eficiente diante dos desafios enfrentados pelo setor sucroalcooleiro no Nordeste. Foto: Divulgação

Máquinas miram menos perdas e mais eficiência

As fabricantes também apresentaram tecnologias voltadas à redução de perdas, de impurezas e de consumo. A John Deere destacou uma nova geração de colhedoras, com redesenho do sistema de limpeza primária, novas ferramentas de diagnóstico, ajuste remoto de parâmetros e câmera para avaliação em tempo real da qualidade do corte.

Segundo Rogério Silva, os testes indicam até 20% menos impureza vegetal e até 10% menos consumo de combustível em determinados modelos, com ganho de eficiência na entrega da matéria-prima à indústria.

“O que a gente traz é mais matéria-prima de qualidade entregue na indústria, diminuição de custo operacional e mais toneladas no final do dia”, afirmou.

Já João Testa, da Case IH, defendeu que pequenas regulagens podem representar ganhos relevantes na colheita, especialmente no tamanho do tolete e na rotação do extrator primário. Segundo ele, perdas pouco visíveis no campo podem comprometer o resultado econômico da operação.

“O custo para colher com perda ou sem perda é quase o mesmo. Quando se colhe com perda, além de levar menos cana, ainda se gasta mais combustível”, afirmou.

Para Testa, a telemetria e a automação tendem a ganhar espaço porque permitem reduzir erros operacionais e padronizar decisões no campo. A empresa também trabalha em tecnologias para diminuir consumo de combustível e aumentar a eficiência das colhedoras já em operação.

Leia mais: Custos altos e etanol de milho desafiam próxima safra de cana no Nordeste

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