
O Brasil ultrapassará a marca histórica de 3 milhões de unidades emplacadas em 2026, segundo as novas projeções divulgadas nesta terça-feira (7) pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). O patamar de consumo doméstico não é alcançado desde 2014 e representa uma expansão total de 11,7% em relação a 2025. Contudo, a indústria nacional acompanha a retomada com o sinal de alerta ligado, observando o avanço acelerado dos competidores chineses no retrovisor do mercado interno.
O descompasso entre o apetite do consumidor e a capacidade das montadoras locais ficou registrado no balanço do primeiro semestre, com a produção de 1,372 milhão de autoveículos. Embora o volume seja 8,8% superior ao do mesmo período do ano passado, o ritmo das linhas de montagem no país não acompanha as vendas devido ao crescimento das importações e à retração das exportações. A expectativa de crescimento anual para o nicho de automóveis e comerciais leves foi ajustada para 12,6%.
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As vendas de automóveis avançaram 23,7% no semestre, o que representa 208 mil unidades a mais nas ruas comparado ao ano anterior. Desse incremento, 73 mil unidades decorrem do programa federal Carro Sustentável, focado em modelos de entrada, enquanto 130 mil veículos vieram do mercado de eletrificados, que alcançou a participação recorde de 20,9% nas vendas de leves em junho. Do total de elétricos e híbridos comercializados, 70 mil foram produzidos no território nacional e 60 mil vieram do exterior.
Esta forte entrada de produtos estrangeiros reverteu o histórico superavitário do setor e fez o país registrar déficit na balança comercial automotiva após doze anos. De janeiro a junho, ingressaram no país 63 mil autoveículos a mais do que o total exportado pelas marcas locais, somando 280,6 mil unidades importadas. A China foi a origem de metade desse volume. Em doze meses, o envio de unidades chinesas ao mercado brasileiro dobrou, saltando de 70 mil para 140 mil unidades e pressionando diretamente a cadeia produtiva nacional.
Críticas aos incentivos e posicionamento institucional
O cenário gerou duras críticas da diretoria da entidade em relação à política fiscal de comércio exterior. O presidente da Anfavea, Igor Calvet, alertou sobre a perda de espaço para a concorrência externa de veículos produzidos fora do país e cobrou um posicionamento sobre os incentivos dados aos modelos elétricos e híbridos importados que chegam ao mercado doméstico. O executivo apontou que as facilidades fiscais são desnecessárias diante do vigor demonstrado pelos veículos eletrificados no mercado, mas ressaltou que, apesar do problema comercial, o nível de empregos nas fábricas locais registrou ligeira elevação.
“Por um lado, ficamos satisfeitos com o vigor do mercado nacional e com essa alta na produção, que vem se refletindo em ligeira elevação do nível de empregos. Por outro lado, lamentamos muito que parte dessa recuperação venha sendo capturada por importações incentivadas por alíquotas abaixo da média mundial ou pela produção de eletrificados em SKD isenta de Imposto de Importação, algo que vem se provando desnecessário e fora de propósito, dado o bom desempenho dos veículos eletrificados no mercado”, afirmou Igor Calvet.
Tombo na Argentina e lentidão nos pesados
Na contramão do comércio doméstico, as exportações brasileiras acumularam queda de 21,2% no primeiro semestre, somando 216,6 mil unidades embarcadas. Apenas para a Argentina, a redução foi de quase 60 mil veículos, reflexo da retração econômica do país vizinho e da perda de espaço dos modelos brasileiros para concorrentes chineses e mexicanos. Por conta desse cenário, a projeção da Anfavea para as exportações em 2026 foi revista de uma alta de 1,5% prevista em janeiro para uma queda de 12,8% no fechamento do ano.
O segmento de veículos pesados também apresenta recuperação lenta e restringe o potencial de fabricação nacional. No acumulado do semestre, as vendas de caminhões recuaram 10,5% e as de ônibus registraram queda de 11,6%. Os dados negativos ocorrem mesmo com os estímulos da segunda fase do programa Move Brasil. Embora junho tenha apresentado os melhores resultados do ano para ambos os segmentos, o desempenho não é suficiente para reverter a tendência de baixa.
Projeções consolidadas para dezembro
Com o atraso nos pesados, os segmentos de caminhões e ônibus devem encerrar o ano de 2026 com uma retração consolidada de 6%. A estimativa ajustada para a produção total das montadoras do país é de 2,8 milhões de autoveículos produzidos até dezembro. O número representa o melhor resultado anual desde 2019, mas escancara a lacuna deixada pelo avanço dos produtos estrangeiros no abastecimento da demanda interna.
Segundo o balanço divulgado, a revisão de metas mostra que a produção deve crescer 5,8% sobre 2025, corrigindo o índice de 3,7% estimado no começo do ano. O volume total indica que as indústrias nacionais vão operar abaixo do potencial proporcionado pelo consumo interno, afetadas diretamente pelas mudanças comerciais geográficas na América Latina e pelo avanço das marcas asiáticas.
*Com informações da Anfavea
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