
Por Mariana Araújo e Vanessa Siqueira
Mais do que ensinar matemática, escolas brasileiras têm encontrado na educação financeira uma ferramenta para preparar crianças e adolescentes para os desafios da vida adulta. Nos últimos anos, iniciativas como a Olimpíada do Tesouro Direto de Educação Financeira (Olitef), programas pedagógicos e projetos desenvolvidos por instituições financeiras vêm ampliando o acesso dos estudantes a conhecimentos sobre planejamento financeiro, investimentos e consumo consciente.
Criada pelo Tesouro Nacional e pela B3, com apoio do Ministério da Educação (MEC) e do Banco Central, a Olitef tornou-se um dos principais motores dessa transformação. A competição estimula escolas públicas e privadas a incorporarem a educação financeira ao cotidiano escolar, oferecendo materiais didáticos, videoaulas e atividades voltadas para alunos do ensino fundamental e médio.
Para o economista Danilo Miranda, vice-embaixador da ONG Planejar em Pernambuco, ensinar crianças a lidar com dinheiro é uma estratégia para enfrentar um problema que afeta milhões de brasileiros. “O objetivo é desenvolver consciência financeira. A criança precisa entender que o dinheiro exige escolhas, planejamento e paciência”, afirma. Segundo ele, quanto mais cedo esse aprendizado começa, maiores são as chances de formar adultos capazes de tomar decisões conscientes sobre consumo, crédito e investimentos.
Olimpíada de educação financeira nas escolas
Em Pernambuco, um dos exemplos é a Escola de Referência em Ensino Fundamental Eduardo Coelho, em Petrolina. O professor de Matemática Anderson Dias da Silva conta que a participação na primeira edição da Olitef, em 2024, mudou a forma como a educação financeira passou a ser trabalhada na unidade.
Até então, o assunto aparecia apenas de maneira pontual durante as aulas de Matemática. Com o material disponibilizado pela olimpíada, a escola estruturou um trabalho permanente, utilizando videoaulas, simulados e conteúdos específicos produzidos para a competição.
“O material disponibilizado pela Olitef mostrou um caminho que ainda não existia para nós. Antes, a educação financeira aparecia de forma indireta nas aulas de matemática. Depois da olimpíada, passamos a trabalhar o tema de maneira muito mais organizada”, afirma.
Segundo o professor, o interesse dos estudantes cresceu rapidamente porque o conteúdo dialoga diretamente com situações presentes no cotidiano. “Quando falamos de dinheiro, eles prestam atenção. Muitos chegam contando que explicaram aos pais como separar parte da renda para guardar ou investir e que começaram a discutir melhor os gastos da família”, relata.
O desempenho dos estudantes também trouxe resultados concretos. A escola conquistou medalhas de ouro, prata e bronze, além de menções honrosas, desempenho que garantiu um prêmio de R$ 100 mil em equipamentos para um laboratório de Ciências entregue neste ano. “A escola precisa ajudá-los a entender como utilizar o dinheiro de forma responsável antes que eles entrem nesse universo sozinhos”, destaca Anderson.
A edição de 2026 confirma o crescimento da iniciativa. Até o momento, cerca de 14 mil escolas brasileiras já se inscreveram. Em Pernambuco, são 725 escolas participantes distribuídas por 149 municípios, o equivalente a 80% das cidades do Estado. Em Alagoas, 396 escolas de 86 municípios já aderiram à olimpíada, representando 84% dos municípios alagoanos.
Como as inscrições seguem abertas até 1º de setembro, outras 2.292 escolas pernambucanas e 660 alagoanas ainda podem participar da competição.

Tema já faz parte da educação básica
Embora muitas famílias ainda enxerguem a educação financeira como novidade, o tema integra a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) desde 2018. O documento prevê que o assunto seja trabalhado de forma transversal em diferentes componentes curriculares, especialmente Matemática, mas também em projetos voltados ao consumo consciente, planejamento financeiro e cidadania.
Apesar desse reconhecimento, a implementação ainda ocorre de forma desigual entre as escolas. Para a professora Aline Barbosa, que leciona Matemática e Raciocínio Lógico na Escola Municipal de Tempo Integral Nadir Colaço, no Recife, muitos educadores não receberam formação específica para abordar o assunto, o que faz com que sua aplicação dependa, muitas vezes, da iniciativa individual dos professores.
A Secretaria de Educação de Pernambuco informou que a educação financeira integra o currículo estadual de forma transversal, alinhada à BNCC. Já a Prefeitura do Recife não encaminhou informações sobre a aplicação do tema na rede municipal até o fechamento da reportagem.

Turma da Mônica ajuda a ensinar sobre dinheiro
Fora das escolas, cooperativas financeiras também passaram a investir em espaços voltados à educação financeira infantil. Em Maceió, o Sicredi inaugurou neste ano a segunda estação da Turma da Mônica dedicada ao tema no Brasil. Durante visitas agendadas, grupos de até 20 crianças percorrem seis estações educativas que apresentam conceitos como planejamento financeiro, consumo consciente, poupança e sustentabilidade.
Segundo a gerente de Desenvolvimento e Cooperativismo do Sicredi, Karina Lira, a proposta é mostrar desde cedo que o dinheiro resulta do trabalho e exige planejamento. “Quando a criança passa por todas as estações, aprende a fazer boas escolhas financeiras, planejar o uso do dinheiro e compreender que os recursos também precisam ser utilizados de forma responsável”, explica.
Ao final do percurso, os participantes recebem gibis da Turma da Mônica para levar para casa e compartilhar o conteúdo com os pais. “A criança pode ser esse elemento de transformação, iniciando uma conversa que talvez nunca tenha acontecido dentro da família”, afirma.
Karina também destaca que a educação financeira deve ser construída em parceria com os responsáveis. “A criança não pode receber uma mesada sem orientação e metas estabelecidas. Trabalhamos os três Gs: gastar com prioridade, guardar pensando no futuro e praticar a generosidade”, cita.

Bancos investem no público infantil
O avanço da educação financeira também impulsionou instituições bancárias a desenvolver produtos voltados para crianças e adolescentes. O Banco Inter mantém desde 2020 as contas Kids e Jovens, destinadas a menores de 18 anos. Atualmente, são 3,2 milhões de clientes nesse segmento, com crescimento médio anual de 31,8%. Desse total, cerca de 2,1 milhões abriram suas contas ainda crianças e continuam utilizando os serviços mesmo após atingirem a maioridade.
Entre os produtos mais utilizados estão CDB, LCI e poupança, além de Pix, cartão de débito e controles parentais que permitem aos responsáveis acompanhar a movimentação financeira dos filhos.
Segundo o Inter, uma criança que invista R$ 25 por mês desde cedo pode acumular aproximadamente R$ 19 mil aos 18 anos em um CDB. Com aportes mensais de R$ 50, esse patrimônio pode chegar a R$ 38 mil. “Quanto mais cedo crianças e adolescentes conhecem o universo financeiro, mais fácil se torna desenvolver hábitos de poupar, planejar e investir”, afirma Priscila Salles, diretora-executiva de Clientes do banco.
No fim de 2025, a instituição também lançou o livro de colorir Orange Days, voltado ao aprendizado sobre poupança, investimento e consumo consciente por meio de atividades lúdicas realizadas entre pais e filhos.
Leia também a primeira matéria da série:
Da mesada aos investimentos: educação financeira ganha espaço nas escolas









