
Por Nathalia Amaral, do portal Piauí Negócios
O Piauí poderá se tornar sede da primeira planta piloto de energia solar concentrada (CSP) com armazenamento térmico do Brasil, uma tecnologia inédita no país capaz de gerar eletricidade mesmo durante a noite ou em períodos de baixa incidência solar. O estudo de viabilidade do projeto foi lançado no auditório do Centro de Formação Profissional Cândido Athayde (CFPCA), do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), em Teresina.
A iniciativa coloca o Piauí no centro de uma nova frente da transição energética nacional. Além de grande fornecedor de energia renovável, o estado passa a ser apresentado como polo de inovação e pesquisa aplicada no setor elétrico. O projeto é fruto de uma parceria entre a CGN Brasil Energia, subsidiária de um conglomerado estatal chinês, o Piauí Instituto de Tecnologia (PIT) e o Senai. A cerimônia, realizada no dia 28 de maio, contou com a presença do diretor-presidente do PIT, Rafael Jales; da diretora jurídica da CGN Brasil, Silvia Rocha; e do diretor regional do Senai, Roger Jacob.
Para Silvia Rocha, o projeto, que será desenvolvido na cidade de Brejo do Piauí, a 423 km de Teresina, representa a abertura de uma nova fronteira tecnológica para o Nordeste brasileiro. Na avaliação da executiva, o Piauí é o local mais adequado para o desenvolvimento do estudo.
“O estado se consolidou nos últimos anos como um dos grandes protagonistas da transformação energética brasileira, não apenas pela escala dos projetos já implantados aqui, mas também pela combinação entre qualidade dos recursos naturais, visão estratégica e ambiente favorável ao desenvolvimento de longo prazo. Este não é apenas um projeto realizado no Piauí; é um projeto que faz sentido justamente por ser desenvolvido aqui”, afirma.
A diretora jurídica destacou ainda que o projeto deverá trazer inúmeros benefícios para o estado, incluindo geração de empregos qualificados, desenvolvimento da cadeia produtiva local, formação técnica, atração de novos investimentos e interiorização do desenvolvimento.
“Quando observamos o cenário global, vemos um mundo buscando respostas simultaneamente para segurança energética, descarbonização, competitividade industrial e resiliência climática. Nenhum país, nenhuma empresa e nenhuma tecnologia resolverão isso de forma isolada. Por isso, iniciativas como esta têm tanto valor. Os resultados desse trabalho, qualquer que seja a direção apontada, ampliarão o repertório técnico disponível para que o país tome decisões mais assertivas sobre o seu sistema energético”, conclui.

Pesquisa em Brejo do Piauí terá duração de seis meses
O diretor-presidente do PIT, Rafael Jales, afirma que a pesquisa começou a ser desenvolvida em maio e terá duração de seis meses. A partir dos resultados, será possível determinar a viabilidade técnica e a possibilidade de implantação do projeto na cidade de Brejo do Piauí. A escolha da região deve-se ao fato de a CGN Brasil Energia já possuir plantas no local, no chamado Piauí Hub, além de a área contar com o território necessário e com a incidência solar adequada para essa tecnologia.
“Se esse projeto não der certo no Piauí, não vai dar certo em lugar nenhum, porque só aqui temos um território totalmente apto para sua realização. O Piauí já é referência em geração de energia renovável e, agora, queremos nos tornar referência também no contexto da usina solar concentrada e da pesquisa aplicada. Não queremos apenas gerar energia; queremos produzir conhecimento e tecnologia”, destaca.
No evento, também foi assinado um Acordo de Cooperação Técnica (ACT), que formaliza a participação do Senai, instituição que contribuirá com equipamentos — entre eles, uma estação total de clima — e com profissionais técnicos. O Senai já possui cursos voltados à cadeia produtiva do projeto, como manutenção de sistemas de rastreamento (trackers) e comissionamento de plantas solares, reforçando a intenção do consórcio de formar capital humano local.
Roger Jacob, diretor regional do Senai, afirmou que a instituição coloca todo o sistema industrial à disposição da CGN Brasil para apoiar os desafios tecnológicos do setor elétrico. “O Senai já possui estrutura nas áreas de instrumentação, manutenção industrial, operação de sistemas e redes inteligentes. Nós já desenvolvemos essa capacidade para a formação nesse segmento. Toda a parte elétrica, em si, já dominamos. Essa nova tecnologia é o que vamos aprender a partir desse fantástico projeto de pesquisa que será iniciado”, detalha o diretor.
O que é a tecnologia CSP e o projeto Nova Olinda
A energia solar concentrada (CSP) difere dos sistemas fotovoltaicos mais comuns por utilizar calhas parabólicas para concentrar a luz solar e gerar calor. No projeto Nova Olinda, esse calor será armazenado em sal fundido, solução que permite a conversão contínua da energia térmica em eletricidade mesmo durante a noite ou em períodos de baixa insolação. Essa capacidade de geração despachável é apontada pelos idealizadores como o principal diferencial da tecnologia para conferir maior estabilidade ao sistema elétrico.
Uma frente de pesquisa dedicada, liderada pelo professor Juan Diego, do PIT, trabalha na “tropicalização” da tecnologia: adaptar equipamentos e processos concebidos em outras latitudes às condições climáticas e ambientais do semiárido brasileiro, incluindo altas temperaturas, índices de radiação direta e a presença de poeira orgânica e partículas que podem afetar o desempenho das calhas parabólicas e dos sistemas de armazenamento térmico.
O complexo multienergias Nova Olinda, previsto para Brejo do Piauí, contempla uma usina CSP de aproximadamente 100 MW, integrada a uma usina solar fotovoltaica de até 450 MW, além de sistemas de armazenamento em baterias (BESS).
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