
O Ceará terá em 2027 o primeiro nanossatélite produzido no estado enviado ao espaço, a 550 quilômetros de altitude, carregando um computador de bordo capaz de se autocorrigir diante da radiação ionizante. O projeto saiu do Laboratório de Engenharia de Sistemas de Computação (LESC) da Universidade Federal do Ceará (UFC), foi aprovado pela Agência Espacial Brasileira (AEB) e contou com R$ 2 milhões em financiamentos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap). O lançamento ocorrerá junto a outros projetos nacionais e internacionais, em foguete definido pela AEB — possivelmente da SpaceX ou de outra operadora.
Batizado de Nascerr (Nanosatélite com Eletrônica Robusta à Radiação), o equipamento segue o padrão cubesat — dois cubos de 10 centímetros cada lado — e tem custo de lançamento estimado em US$ 150 mil. A escolha desse padrão reduz o custo de construção e simplifica a integração com foguetes, mas impõe um limite: enquanto satélites convencionais operam por mais de 20 anos, nanosatélites duram em média 18 meses, justamente porque a radiação ionizante degrada progressivamente seus sistemas eletrônicos.
É esse problema que o Nascerr se propõe a resolver. A radiação ionizante atinge o silício do nanossatélite e pode alterar dados binários: uma palavra codificada como 0100 passa a ser lida como 0010, induzindo o sistema a conclusões equivocadas e, nos casos mais graves, à perda total da missão.

Computador de bordo e testes em outros países
Para neutralizar esse risco, o projeto desenvolveu um computador de bordo chamado Roboc (Robust Onboard Computer), equipado com um algoritmo de controle dinâmico que ajusta o nível de proteção em tempo real: gasta menos recursos quando a radiação é baixa e intensifica a defesa quando a exposição aumenta. “Os sistemas de computador de satélites são sistemas críticos. Se eles sofrerem alterações, isso pode causar perda total da missão. Eles têm que ter essa capacidade autônoma de se corrigir no caso de falha”, afirmou o professor Jarbas Silveira, coordenador do projeto no Departamento de Engenharia de Teleinformática (DETI-UFC).
Para comprovar a eficiência do algoritmo antes do lançamento, a equipe conduziu testes em dois países. Em janeiro de 2026, simulou em Montpellier, na França, os efeitos da radiação acumulada ao longo do tempo. Em abril de 2026, levou o projeto ao Centro de Pesquisa em Terapia de Partículas (Partrec), em Groningen, nos Países Baixos, onde um acelerador de partículas reproduziu as condições reais do espaço. O algoritmo corrigiu até 3 erros contínuos em palavras de 16 bits, resultado descrito por Silveira como alto e inovador.

Missão do nanossatélite pela AEB
Com os testes concluídos, o projeto avança para a fase de certificação. O Nascerr entrou na carteira de qualificação da AEB em dezembro de 2025 e a equipe elabora agora o Preliminar Design Review (PDR), com toda a documentação técnica, previsto para avaliação pela agência em dezembro de 2026. Aprovado esse documento, o nanossatélite seguirá para testes finais no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, onde será submetido a verificações de resistência a vibrações, variações de temperatura e perturbações eletromagnéticas.
A missão tem duração prevista de um ano, período no qual os pesquisadores poderão enviar atualizações de código e testar novas versões do algoritmo diretamente em órbita, transformando o nanossatélite em um laboratório espacial ativo. “A gente quer ter resultados que atraiam a comunidade, que chamem a atenção internacional. Queremos fabricar esse computador de bordo nacionalmente e vendê-lo para o Brasil e para o exterior”, projetou Silveira.
*Com informações da Agência UFC
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