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Tecnologia é ferramenta, não garantia, diz Leandro Karnal no REC’n’Play

Palestra do professor, historiador e influencer Leandro Karnal foi uma das mais "disputadas" do primeiro dia da edição 2025 do REC'n'Play, que terá mais de 700 eventos gratuitos
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professor, historiador e influencer Leandro Karnal no REC'n'Play 2025
Leandro Karnal alertou para a necessidade de seguir produzindo conhecimento para não perder o domínio sobre as novas tecnologias. Foto: Itawan Silva/Porto Digital

O professor, historiador e escritor Leandro Karnal destacou nesta quarta-feira (15) os desafios da educação e das relações humanas em um mundo hiperconectado. A palestra “O futuro feito por gente” foi a mais disputada no primeiro dia da sétima edição do festival de inovação e tecnologia REC’n’Play, que celebra os 25 anos do Porto Digital, em Recife (PE).

“Hoje eu posso acessar tudo que está em todas as bibliotecas do mundo, todas as obras de arte, todas as músicas de qualquer cidade. Mas o que está acontecendo é que, apesar disso, não temos mais gênios literários e artísticos do que há 50 anos?”, questionou.

A pergunta é retórica e já vem com a resposta.

“[A tecnologia] é uma ferramenta, não é uma garantia. Não é uma catapulta. Eu preciso sentar e ler. Eu tenho acesso aos livros da Faculdade de Direito de Recife, mas continuo como um aluno do século XIX: tendo que sentar e ler”.

Empatia e evolução coletiva

Para uma plateia com mais de 230 pessoas no auditório É do Povo, no Cais do Sertão, Karnal destacou o protagonismo do ser humano ao defender que o futuro não será definido pelas máquinas, mas pela forma como a humanidade usa a tecnologia para ampliar a empatia, a colaboração e a evolução coletiva.

Em meio às inovações, à ascensão da inteligência artificial e às automações, o professor lembrou que, por trás de cada algoritmo, estão pessoas com angústias, desejos e capacidade de criar. “A criatividade é a grande habilidade do futuro e as escolas precisam estar preparadas para isso. Hoje, as escolas se baseiam numa formação muito normativa, focada na disciplina e na ordem. Então, é necessário um processo de transformação para que possamos ampliar nosso repertório”, destacou.

Como professor, lembrou que os educadores precisam desenvolver habilidades para solucionar problemas inéditos. “Pela primeira vez na história, meus alunos sabem mais do que eu. Você, professor, já pediu ajuda a um adolescente para arrumar um aparelho celular”, disse Karnal.

Karnal: ética digital e analógica

Sobre as possíveis ameaças causadas pelo advento da inteligência artificial nos mais diversos tipos de relações, o professor fez questão de pontuar que a sociedade deve lembrar que a IA, assim como os computadores, celulares e internet são apenas ferramentas.

O historiador alertou sobre a necessidade de seguir produzindo conhecimento para não perder o domínio sobre as novas tecnologias: “O futuro não será dominado pela IA [Inteligência Artificial]. Será dominado pelos que dominam a IA. Ou seja, eu serei dominado por pessoas que se adiantaram a este processo. E, nesse sentido, devemos compreender que o conhecimento não é neutro. Ele continua reproduzindo as próprias pessoas que o elaboram. Ou seja, eu não tenho medo de IA. Eu tenho medo das pessoas”, declarou.

Karnal ainda pontuou que, nesse contexto, se faz necessário estabelecer um exercício de ética digital, aliada a uma ética analógica. O professor reforçou que: “A ética não é um dom, é um cultivo. Então, sempre se pergunte: O que posto é verdadeiro, o que posto é obrigatório, o que posto é necessário? Dessa forma, conseguimos estabelecer uma relação do bem comum, em diálogo com o mundo individual.”

Como encerramento da palestra, Karnal ressaltou a importância de se manter otimista e atento, diante de um cenário de intensa transformação tecnológica. “Sejam otimistas, mas com prudência. Como admirador das práticas filosóficas, recomendo que desconfiem do máximo de coisas que puderem, inclusive de tudo o que eu disse hoje”, enfatizou.

Evento

O REC’n’Play começou nesta quarta-feira (15). O público chegou já nas primeiras horas da manhã para as atividades do festival, que acontece no Bairro do Recife, centro da capital pernambucana, conhecido como Recife Antigo.

A fila para entrar no auditório do Cais do Sertão começou cedo. “Às 7h30 da manhã já começou a formar fila para uma palestra às 10h da manhã. Então, às 9h já não tinha mais como colocar as pessoas para dentro”, conta Raul Cavalcante, do Núcleo de Gestão do Porto Digital, organizadora do evento.

A advogada Raquel Mariche que chegou às 9h foi uma das últimas a conseguir uma vaga. “Normalmente eu trabalho e nem sempre consigo vir [para o REC’n’Play], mas esse ano me programei para poder assistir o Karnal.”

Programação

A palestra foi um dos mais de 700 eventos previstos na programação do REC’n’Play. A previsão dos organizadores é que as atividades, todas gratuitas, continuem sendo disputadas.

“A gente está na expectativa que esse ano ultrapasse os 90 mil [inscritos] do ano passado”, calcula Raul Cavalcante.

O REC’n’Play acontece na região do Porto Digital, no Recife Antigo, com atividades espalhadas em 83 espaços em 30 prédios, além de sete palcos e outros 37 estandes de rua, batizadas no evento como ativações. O festival é realizado pela Ampla Comunicação, Porto Digital e Sebrae Pernambuco.

*Com informações da Agência Brasil e do Porto Digital

Leia mais: REC’n’Play 2025: a inovação toma conta do Recife Antigo com mais de 700 atividades

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