
CURITIBA – Atenção, operadores e gestores do turismo no Nordeste. O Paraná está decidido a disputar espaço entre os principais destinos turísticos do país, querendo atrair quem geralmente programa as suas férias para a região. Em 2025, o estado sulista prevê receber cerca de 5,3 mil agentes de viagens em 10 convenções distribuídas ao longo do ano, como parte de uma estratégia coordenada pelo Viaje Paraná, órgão estadual de promoção comercial do setor. A movimentação inclui eventos promovidos por operadoras de alcance nacional para projetar o estado como centro estratégico do turismo brasileiro.
A 17ª Convenção da Schultz, realizada em Curitiba até esta segunda-feira (31), reúne 450 agentes de viagens de 145 cidades do país, uma tropa de elite escolhida entre os seus maiores vendedores de “sonhos”. É assim que o fundador Aroldo Schultz define os pacotes de viagens da sua operadora, uma das suas oito empresas, todas voltadas para o segmento, especializadas, por exemplo, em seguros de viagens, apoio à emissão de vistos e roteiros exclusivos para Portugal.
O encontro, realizado a cada ano em um destino brasileiro – Maceió foi o anfitrião do ano passado – teve na escolha da capital paranaense uma forma de retribuição pelo filho do estado que começou a sua jornada há 39 anos.
Aroldo Schultz: confiança, estratégia e valorização do agente
Durante a convenção, Aroldo Schultz reforçou a confiança no potencial do Paraná como novo polo turístico do país. “O turismo precisa de produto pronto, não apenas de atrativos soltos. Nossa proposta é criar experiências completas, com preço, data e logística definida. Isso é o que vende”, afirmou.
Para ele, o papel do agente de viagens permanece central no setor, mesmo diante da transformação digital. “São eles os realizadores de sonhos. Quando dá problema com voo, hotel, bagagem, é para eles que o cliente liga. É o agente quem conhece o passageiro, olha no olho, e não quer perder aquele cliente.” Somente o universo que se relaciona comercialmente com a Schutz no Brasil envolve 22 mil profissionais distribuídos por cerca de 7,5 mil agências.
O presidente da Schultz também destacou que a estratégia de promoção turística deve estar alinhada a uma oferta estruturada. “Não adianta só divulgar ingredientes. Tem que entregar um cardápio completo.” Segundo ele, o Paraná tem hoje o que mostrar e reúne condições para competir com os maiores destinos turísticos do Brasil, desde que mantenha o investimento em eventos e feiras. “Eventos movimentam hotéis, restaurantes, economia local. E o Paraná está pronto para isso.”
O principal gargalo paranaense está na estrutura hoteleira para eventos de médio porte. “Temos centros para 20 mil pessoas, mas falta espaço para 800 a 1.000 lugares, com boa infraestrutura”, reconheceu Schultz. Ainda assim, ele acredita que o mercado pressionará por novos investimentos.
Além do foco estratégico, Schultz destacou o potencial cultural e criativo de Curitiba para atrair novos perfis de viajantes. “Temos o Zombiewalk no domingo e o Carnawalk na segunda. É um carnaval diferente. Aqui, até a galinha vai fantasiada de zumbi”, brincou. A referência aos eventos alternativos da capital serve, segundo ele, como exemplo da diversidade de experiências urbanas que o Paraná pode oferecer. “Se vocês venderem bastante esse ano, no próximo eu compro um camarote e vamos todos de zumbi direto para o Bar do Alemão.”

Os desafios do Nordeste para crescer no turismo
Ao comentar o cenário nacional, Schultz fez uma avaliação sobre os desafios do Nordeste. Ele afirmou que a região é um dos lugares mais belos do mundo para se visitar, com clima, gastronomia e hospitalidade de destaque. “O Nordeste é um pedacinho do Brasil abençoado por Deus, maravilhoso. Em paisagem, clima e pessoas, é referência”, disse. Mas ressaltou que ainda há entraves na gestão pública e no planejamento das ações turísticas, sobretudo no interior. “Falta transformar atrativos em produtos comerciais estruturados. Apresentar elementos soltos não resolve. É preciso criar pacotes viáveis, com datas, preços, acesso definido.”
Schultz defendeu que o turismo nordestino amplie o foco para além das capitais, promovendo também o Sertão. “Estive em Piranhas, em Alagoas, e em outras regiões sertanejas. Vi prosperidade, infraestrutura e potencial. O Sertão é bonito, tem serra, tem canyon, tem arqueologia. Não vi fome, vi desenvolvimento. O que falta é visibilidade. No Sul, às vezes se cria a ideia de que o Sertão é sinônimo de miséria, e não é verdade”, disse.
A decisão da Schultz de realizar sua convenção em Curitiba neste ano pode marcar uma mudança na lógica de alternância geográfica dos grandes eventos de turismo no Brasil. Segundo Aroldo Schultz, o rodízio entre Nordeste e Sul, tradicionalmente adotado pela operadora, pode não ser mantido em 2026.
“O Sul do Brasil sofreu muito este ano. Então, talvez, não é certo, mas talvez a gente abra uma exceção e o ano que vem repita o Sul, não será Curitiba, obviamente”, afirmou Schultz durante o encerramento do primeiro dia do evento, realizadoi em um dos cartões-postais de Curitiba, o Museu Oscar Niemeyer.

*Fontes: IBGE, Embratur, Fórum Nacional de Segurança Pública
Segurança é apontada como diferencial do Paraná
Entre os fatores que sustentam o avanço do turismo no estado, a segurança pública foi destacada como um dos principais atrativos. Segundo dados do Fórum Nacional de Segurança Pública, o Paraná apresenta índices de violência consideravelmente abaixo da média nacional.
“Hoje, o turista pode andar de celular na mão em Curitiba, pode circular nos parques à noite, pode visitar regiões históricas sem receio. Isso é um diferencial que pesa cada vez mais na decisão de viagem”, afirmou José Luiz Veloso, presidente do Instituto Municipal de Turismo.
O desempenho econômico do Paraná sustenta a estratégia. Segundo o IBGE, o estado cresceu 7,2% em 2023, enquanto a média nacional foi de 3,5%. No turismo, o número de visitantes estrangeiros aumentou 13%, passando de 791 mil para 894 mil, com impacto de R$ 6 bilhões na economia estadual, segundo a Embratur.

Eventos como motor do turismo estadual
Segundo o secretário estadual de Turismo, Leonaldo Paranhos, o plano é claro: atrair todos os principais eventos do setor para o estado e, a partir deles, consolidar uma cadeia turística integrada. “Queremos que o Paraná se torne o estado das grandes convenções. Isso atrai visitantes, gera renda, fomenta a economia e posiciona nossos destinos”, afirmou.
Além da convenção da Schultz, Curitiba sediou na semana anterior uma capacitação da CVC com 100 agentes, reforçando o compromisso institucional com esse formato. O calendário estadual de 2025 deve intensificar esse movimento, com a realização de convenções mensais em diversas regiões.
Irapuan Cortes Santos, presidente do Viaje Paraná, vê o esforço como parte de uma transformação mais ampla. “Estamos reposicionando o estado com base na confiança. Os agentes são nossos interlocutores. São eles que levam o Paraná para dentro das agências do Brasil inteiro”, afirmou.
Curitiba se consolida como novo polo turístico urbano
Com mais de 50 parques, uma rede hoteleira em crescimento, mobilidade urbana estruturada e preços acessíveis, Curitiba vem ganhando protagonismo nacional. A cidade foi eleita uma das mais inteligentes do mundo e hoje registra ocupação hoteleira acima de 90% aos fins de semana.
“Curitiba já não é mais só destino de negócios. É destino turístico completo, com agenda cultural vibrante e atrativos para todos os públicos”, afirma José Luiz Veloso.
Interiorização, conectividade e sustentabilidade
Além da capital, o Paraná promove a interiorização do turismo. Roteiros como o litoral (Ilha do Mel), Campos Gerais (turismo de aventura) e Serra do Mar (Antonina e Morretes) são integrados à malha rodoviária e ferroviária. Destaque para o trem turístico entre Curitiba e Morretes, considerado um dos dez mais belos do mundo.
Entre os destinos em ascensão, estão Prudentópolis, com mais de 200 cachoeiras; Carambeí, com turismo rural e herança holandesa; e Angra Doce, ainda pouco explorada, mas com potencial estratégico na divisa com São Paulo.
O estado também investe em segmentação de público, com roteiros para 60+, turismo religioso e comunidade LGBTQIA+, reforçando a imagem de destino acolhedor e diverso.
Foz do Iguaçu, com as Cataratas — que ultrapassaram o Cristo Redentor como principal atração nacional —, ganhará reforço com a primeira filial do Centro Pompidou, da França, previsto para 2026.
O Movimento Econômico participa da 17ª Convenção da Schultz Operadora de Turismo como um dos veículos de comunicação convidados a conhecer, em primeira mão, as tendências e lançamentos do setor.
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