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Com 15% dos estúdios nacionais, NE quer subir de nível no mercado de games

NE concentra 23,79% dos cursos de graduação em games do Brasil. Marco Legal abre acesso ao Fundo Setorial do Audiovisual e à Lei do Audiovisual
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Sebrae oferece capacitação online e gratuita para a profissionalização de estúdios e empreendedores do setor de jogos digitais.. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O Nordeste concentra 23,79% dos cursos de graduação em Jogos Digitais e Design de Jogos do Brasil, segunda maior participação regional do país, atrás apenas do Sudeste, com 43,72%, segundo relatório da Secretaria do Audiovisual (SAV) do Ministério da Cultura (MinC), divulgado nesta segunda-feira (16). A base de formação é superior à participação atual da região no ecossistema produtivo nacional, onde o Nordeste respondia por 15% das empresas desenvolvedoras em 2023, com 136 estúdios, de acordo com a Pesquisa da Indústria Brasileira de Games 2023 da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Games (Abragames).

O Marco Legal dos Games reconhece os jogos eletrônicos como obras audiovisuais interativas e abre ao setor o acesso ao Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e aos benefícios da Lei do Audiovisual, instrumentos até então restritos ao cinema e ao audiovisual tradicional.

O relatório Oportunidades de Desenvolvimento após o Marco Legal de Games, elaborado pelos consultores Pedro Santoro Zambon e Ana Heloiza Vita Pessotto no âmbito da SAV em parceria com a Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI), recupera o histórico das políticas públicas voltadas ao setor e mostra como, durante décadas, a indústria brasileira operou sem enquadramento institucional próprio, acessando instrumentos concebidos para cinema, software ou inovação tecnológica. A

A ausência de editais específicos em nível federal concentrou o fomento em São Paulo e Rio de Janeiro, que dispunham de linhas estaduais como o Programa de Ação Cultural (ProAC) e a Rio Filme. “O Marco Legal de Games institucionaliza o apoio ao setor de jogos eletrônicos como política de Estado, consolidando iniciativas de fomento e estratégias de desenvolvimento para essa área”, afirma Zambon, pesquisador da Universidade de Utrecht e fundador da Savegame.dev.

Trabalho remoto ampliou distribuição geográfica

O Nordeste encerrou 2023 com 136 empresas desenvolvedoras de jogos digitais, crescimento de 1 ponto percentual em relação a 2021, segundo a Abragames. O Sudeste lidera com 58% das empresas, seguido pelo Sul com 20%, Centro-Oeste com 6% e Norte com 2%. A distribuição geográfica do setor foi impulsionada pela digitalização da produção, pela expansão do trabalho remoto e pela maior oferta de cursos em diferentes estados, segundo o relatório do MinC.

A base de formação de talentos proporcionalmente maior que a participação produtiva atual da região indica potencial de crescimento na geração de empresas e empregos à medida que o novo marco regulatório for implementado. O levantamento sobre cursos de graduação na área, citado no relatório, é de autoria do professor Alan Carvalho, coordenador do Fórum de Ensino de Games, publicado no Simpósio Brasileiro de Games em 2021.

Propriedade intelectual e mercado consumidor

Para a diretora institucional da Abragames, Raquel Gontijo, o Marco Legal encerra um vazio jurídico que limitava a expansão do setor. “Até então, o jogo eletrônico brasileiro transitava numa espécie de limbo jurídico. Com o marco, o desenvolvimento e a produção de games passam a ser reconhecidos formalmente como atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica”, afirma.

Segundo Gontijo, sem propriedade intelectual própria, o Brasil permanece como prestador de serviço para a cadeia global. “Um estúdio com propriedade intelectual própria pode licenciar, exportar, franquear e estabelecer acordos de coprodução em posição de equivalência”, destaca.

O Brasil é um dos dez maiores mercados consumidores de games do mundo, com receita total de aproximadamente US$ 2,6 bilhões por ano, segundo a Abragames. A dimensão desse mercado interno encontra respaldo no comportamento do consumidor: 73% dos brasileiros consomem jogos eletrônicos e metade se identifica como gamer, de acordo com a Pesquisa Games Brasil 2024. O smartphone é a plataforma preferida para 48,8% dos jogadores. A participação nacional na produção, no entanto, ainda é modesta em relação ao tamanho do mercado interno.

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O Brasil é um dos 10 maiores mercados consumidores de games do mundo, com receita total de aproximadamente US$ 2,6 bilhões ao ano. Foto: Freepik

Mão de obra e renovação de profissionais

A mão de obra no setor cresceu no período recente, ainda que em ritmo moderado. Segundo dados da Newzoo divulgados em 2025, o número de profissionais no mercado de games no Brasil subiu 6,3% entre 2021 e 2023, passando de 12.441 para 13.225. O crescimento, porém, ocorreu em um contexto de retração generalizada no setor de tecnologia, o que limitou a entrada de novos profissionais no mercado.

“O setor de jogos no Brasil convive com falta de investimento e de oportunidades há muito tempo. No Nordeste, essa realidade não seria diferente. Esse marco que estamos vivendo agora é o primeiro passo para que mais empresas, jogos independentes e profissionais da área vejam margem de oportunidade para seguir existindo”, avalia a game producer Maria Fernanda Poletine, ex-aluna do curso de Jogos Digitais da Universidade Católica de Pernambuco, que atua no mercado desde 2022 e é mentora em gerenciamento de projetos na Game Jam das Minas, CTRL ALT Jam e Women Game Jam.

Para Poletine, a sustentabilidade do ecossistema depende também da abertura de espaço para quem está ingressando na área. “Nos próximos anos, é essencial que não só seja injetada verba na área, mas que também sejam dadas mais oportunidades a pessoas que estão começando. Vivemos uma recessão muito grande na tecnologia nos últimos anos e, para que existam mais profissionais qualificados e experientes, é preciso dar a oportunidade aos novos profissionais de começarem também, perpetuando o ciclo e fomentando cada vez mais a área”, complementa.

Grupo de Trabalho dos Games

O estudo aponta que o Marco Legal define “o quê”, mas ainda cabe debate sobre “como” os dispositivos serão implementados. Entre os pontos pendentes de regulamentação estão a classificação econômica própria para o setor, a adequação de incentivos tributários, a facilitação de importação de equipamentos e a criação de instrumentos de fomento específicos.

Esses temas serão debatidos no Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) dos Games, instituído pela Portaria MinC nº 260/2026. “A regulamentação do marco precisa ser ágil e tecnicamente competente. A qualidade desse processo vai determinar se o marco se traduz em benefício real para os estúdios ou se permanece como um avanço apenas formal”, avalia Gontijo.

Sebrae oferece capacitação gratuita para o setor

Para apoiar o desenvolvimento do ecossistema, o Sebrae disponibiliza trilhas gratuitas de capacitação para empreendedores e estúdios de jogos digitais, em formato presencial e online. A Trilha Starter cobre fundamentos da indústria, modelos de negócio, cadeia de valor e estruturação inicial de estúdios, com carga horária de 23 horas e prazo de 45 dias para conclusão.

A Trilha PRO, voltada a estúdios em estágio mais avançado, aprofunda gestão estratégica, validação de mercado, estruturação financeira, preparação para editais e relacionamento com publishers, com 29 horas e prazo de 60 dias. “Existe uma indústria nacional de games em constante amadurecimento. É possível gerar renda com esse segmento”, afirma Eúde Amor, analista de Competitividade do Sebrae Nacional.

*Com informações da Agência Gov e da Agência Sebrae

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