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As dificuldades para uma eventual reversão das tarifas impostas pelos EUA

As cadeias produtivas entre Brasil e Estados Unidos apresentam elevado grau de complementaridade em diversos setores
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  1. Paradigma comercial mudou de eficiência econômica para questões geopolíticas, segurança nacional e política industrial.
  2. Brasil possui argumentos econômicos sólidos com complementaridade produtiva, mas decisões transcendem lógica puramente econômica.
  3. Investigação americana inclui temas estratégicos como tecnologia, minerais críticos e segurança de cadeias de suprimentos.
  4. Tarifas funcionam como instrumentos de política externa e segurança econômica, não apenas proteção à indústria doméstica.
  5. Polarização política interna leva governos a usar tarifas para objetivos eleitorais, reduzindo margem para negociações comerciais.

Por Wilson Mendonça*

Durante grande parte das últimas três décadas, prevaleceu a percepção de que a política comercial deveria ser orientada prioritariamente por ganhos de eficiência econômica. Barreiras tarifárias eram gradualmente reduzidas, cadeias globais de produção se expandiam e a Organização Mundial do Comércio exercia um papel relevante como mecanismo de coordenação das regras multilaterais.

Esse paradigma vem sendo progressivamente substituído por outro, no qual comércio, política industrial, segurança nacional e geopolítica tornaram-se dimensões praticamente indissociáveis. É justamente essa transformação que ajuda a compreender por que uma eventual reversão das tarifas tornou-se mais complexa.

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Sob uma perspectiva estritamente econômica, o Brasil dispõe de argumentos consistentes. As cadeias produtivas entre Brasil e Estados Unidos apresentam elevado grau de complementaridade em diversos setores, e inúmeras empresas norte-americanas dependem de insumos brasileiros para manter sua competitividade. Em circunstâncias convencionais, esses elementos tenderiam a favorecer uma negociação.

O problema é que a decisão deixou de responder exclusivamente à lógica econômica. A investigação conduzida pelo USTR ultrapassa questões tradicionais de acesso a mercados ou equilíbrio comercial. Ela incorpora temas como comércio digital, propriedade intelectual, sistemas de pagamento, minerais críticos, política ambiental e segurança das cadeias de suprimentos. Ou seja, o objeto da discussão não é apenas o fluxo comercial entre dois países, mas o posicionamento estratégico dos Estados Unidos em uma economia internacional cada vez mais marcada pela competição tecnológica e geopolítica.

Nesse ambiente, tarifas assumem uma função distinta daquela observada no passado. Elas deixam de representar apenas mecanismos de proteção à indústria doméstica e passam a atuar como instrumentos de política externa, política industrial e segurança econômica. A lógica deixa de ser exclusivamente arrecadatória ou comercial e passa a refletir objetivos estratégicos mais amplos. Essa transformação explica por que argumentos técnicos, embora permaneçam relevantes, frequentemente deixam de ser suficientes para produzir mudanças imediatas nas decisões comerciais.

Outro elemento importante é o contexto político. Em momentos de elevada polarização doméstica, instrumentos comerciais também passam a produzir efeitos políticos internos. Governos utilizam tarifas para demonstrar firmeza na defesa da produção nacional, proteger setores industriais considerados estratégicos e responder às expectativas de segmentos específicos do eleitorado.

Nesse cenário, decisões comerciais passam a atender simultaneamente a objetivos econômicos, geopolíticos e eleitorais. Isso reduz significativamente a margem para negociações convencionais. É importante observar que esse movimento não se restringe aos Estados Unidos.

A União Europeia amplia mecanismos de defesa comercial associados a requisitos ambientais e emissões de carbono. A China fortalece políticas industriais voltadas para setores estratégicos e tecnologias críticas. Diversas economias passaram a utilizar subsídios, restrições tecnológicas, controles sobre investimentos estrangeiros e incentivos à relocalização produtiva.

Não se trata propriamente de um retorno ao protecionismo clássico. O que se observa é o avanço de um protecionismo estratégico, no qual barreiras comerciais deixam de ter como único objetivo proteger empresas nacionais e passam a organizar cadeias produtivas consideradas essenciais para a segurança econômica dos países.

Essa mudança representa uma inflexão importante na própria globalização. Durante décadas predominou o modelo conhecido como just in time, baseado na máxima eficiência logística e na redução de custos. Após as sucessivas crises recentes — pandemia, tensões entre Estados Unidos e China, guerra na Ucrânia e conflitos no Oriente Médio — ganhou espaço uma lógica distinta: a da resiliência das cadeias produtivas.

A prioridade deixou de ser apenas produzir ao menor custo possível. Tornou-se igualmente importante produzir em países considerados politicamente confiáveis, reduzir dependências estratégicas e garantir segurança no abastecimento de bens críticos. Conceitos como friendshoring, nearshoring e de-risking passaram a integrar o vocabulário da política comercial internacional justamente porque traduzem essa reorganização das cadeias globais.

Nesse contexto, o caso brasileiro possui implicações que vão além das tarifas atualmente discutidas. Ele evidencia que empresas exportadoras precisarão incorporar variáveis geopolíticas ao processo decisório de maneira muito mais intensa do que ocorreu nas últimas décadas. Preço, produtividade e eficiência logística continuam fundamentais, mas deixam de ser suficientes. Diversificação de mercados, inteligência regulatória, monitoramento político e capacidade de adaptação institucional passam a integrar a própria estratégia competitiva das empresas.

Para o Brasil, isso também representa um desafio de política pública. A diplomacia comercial continuará desempenhando papel essencial, mas precisará ser complementada por uma estratégia consistente de inserção internacional, diversificação de parceiros, fortalecimento da competitividade doméstica e ampliação da participação brasileira em cadeias globais de maior valor agregado.

Mais do que um episódio isolado, as tarifas americanas sinalizam uma transformação estrutural da economia internacional. O comércio global não está retrocedendo. Ele está sendo reorganizado. A globalização baseada exclusivamente na eficiência econômica cede espaço a uma globalização condicionada por segurança, tecnologia, política industrial e geopolítica.

É justamente essa mudança que torna processos de negociação mais demorados, menos previsíveis e substancialmente mais complexos do que aqueles observados no período de maior consolidação do sistema multilateral de comércio.

Em última análise, a principal lição desse episódio é que o comércio internacional deixou de ser apenas uma questão de vantagens comparativas. Ele passou a refletir, de forma cada vez mais explícita, a distribuição de poder na economia mundial.

*Wilson Mendonça é professor de Relações Internacionais na SKEMA Business School.

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