
Por Pedro de Menezes Carvalho *
É impossível dormir neste 22 de julho de 2025 sem sentir o peso simbólico da morte de Ozzy Osbourne. Especialmente para quem, como eu, teve a oportunidade de assisti-lo algumas vezes e aprendeu os primeiros acordes da guitarra ouvindo o Black Sabbath. Ele é um ícone musical, um personagem mitológico, um artista que marcou gerações. Mas, além da lenda do rock e dos riffs pesados que moldaram o heavy metal, há algo menos óbvio — porém tão poderoso quanto — na trajetória de Ozzy: um verdadeiro manual de empreendedorismo na prática, construído entre microfones, contratos, palcos e decisões de negócio corajosas.
Ozzy não foi apenas vocalista do Black Sabbath. Ele foi marca, foi produto, foi empresa. E sob a liderança de Sharon Osbourne — sua empresária, esposa e parceira estratégica — construiu um legado que hoje serve de estudo para qualquer empreendedor sério.
A primeira lição de Ozzy é brutalmente simples: faça o que você ama e o que você domina. Ele não tentou agradar o mercado; nem tentou ser “radio friendly”. Ele fez o que acreditava e seguiu o som que era autêntico para ele. Esse nível de verdade cria conexão emocional, o ativo mais poderoso que um negócio pode ter.
Mas amar o que faz não basta, é preciso formar um time de elite. Ozzy sempre esteve cercado dos melhores guitarristas: Randy Rhoads, Zakk Wylde, Tony Iommi — todos foram peças fundamentais. Isso mostra uma noção rara de curadoria e liderança. Um bom empreendedor sabe que talento atrai talento e que ninguém constrói algo relevante sozinho.
Ele também entendeu algo que muitas empresas ainda falham em captar: interfira no mercado. Crie experiências que o seu público queira vestir, literalmente. Quantas camisetas do Black Sabbath estão espalhadas pelo mundo? Eu mesmo tenho umas cinco. Isso é mais que ser um fã — é fidelização de marca, é um canal de receita que nasce da emoção.
Ozzy também inovou no conteúdo. O sucesso do Black Sabbath começou com os trítonos — o chamado “som do diabo” — um acorde dissonante que a Igreja Católica evitava por séculos. Eles pegaram isso e transformaram em identidade sonora. Não se tratava apenas de música; era ruptura estética, era posicionamento de mercado.
Ao lado de Sharon, ele criou o Ozzfest, um festival próprio, itinerante; a ideia surgiu porque o Lollapalooza o rejeitou. Esse movimento mostra outra lição dura: quando o mercado fecha as portas, não chore; construa sua própria plataforma, crie seu próprio palco.
A carreira de Ozzy também nos lembra o valor dos ativos intangíveis. Sua imagem — com morcegos, cruzes, caveiras e a alcunha de “Príncipe das Trevas” — foi cuidadosamente moldada. Isso não tem nada a ver com sua personalidade real, que era bem mais leve, mas tudo a ver com a lógica de branding. A imagem vende. A imagem posiciona. A imagem protege. Não se trata de ser, mas de parecer e parecer de forma consistente.
Esse tipo de blindagem em torno de uma marca é o que Warren Buffett chama de moat, ou “fosso”. É a vantagem competitiva que protege uma empresa da concorrência. Ozzy tinha um dos moats mais intransponíveis da música: uma voz inimitável, uma base de fãs fervorosa, um universo visual e simbólico exclusivo e um catálogo protegido com unhas e dentes por Sharon. Eles não abriram mão dos direitos de publicação, mesmo quando isso era o caminho fácil. Resultado: até hoje (e para sempre), trilhas sonoras, séries e comerciais vão continuar gerando receita.
Ozzy criou uma marca que atravessou gerações, geografias e até fronteiras culturais — influenciou o Ocidente e também o Japão. Isso é escalabilidade de imagem, algo que poucas empresas conseguem atingir.
E, talvez o mais poderoso de tudo: ele acreditou em si mesmo, mesmo quando ninguém mais acreditava. Foi demitido do Sabbath, ridicularizado, descartado. E voltou. Com mais força. Com mais controle. Com mais estratégia.
A morte de Ozzy Osbourne marca o fim de uma era na música, mas também acende uma reflexão relevante para quem empreende: quais são os seus diferenciais intransponíveis? Quem está no seu time? Que imagem você está construindo? Você tem controle sobre os ativos que está gerando? Está criando algo que alguém, um dia, vai querer usar na camiseta?
Porque, no fim, empreender é isso: transformar talento em estratégia, posicionamento em valor e caos em legado. Ozzy fez isso tudo com barulho, irreverência, suor e, sim, com rock n’ roll. Que sua trajetória sirva de inspiração para todo empreendedor que quer deixar uma marca que resista ao tempo.
* Pedro de Menezes Carvalho é advogado e professor universitário com mestrado em Direito pela UFPE. Especialista em Contratos pela Harvard University e em Negociação pela University of Michigan. Advogado na área de Regulação, Negócios, Energia e Financeira. Experiência destacada na docência na UNICAP, IBMEC e PUCMinas.
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