Tragédia anunciada: a crise climática no Rio Grande do Sul

Diante desse cenário, é fundamental que toda a sociedade reconheça a urgência na adoção de medidas eficazes para mitigar os impactos das mudanças climáticas
Rafaela Viana
Rafaela Viana

Rafaella Viana

A catástrofe que atinge o estado do Rio Grande do Sul desde o final de abril não pode ser chamada de desastre natural nem mesmo ser considerada uma ocorrência natural isolada. É uma tragédia anunciada e previsível por uma série de fatores complexos que vêm sendo discutidos por cientistas em todo o mundo, há décadas. As enchentes são o resultado de uma combinação das mudanças climáticas, das interferências humanas no meio ambiente e da ocupação desordenada nas cidades e no campo.

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Os padrões meteorológicos extremos registrados nos últimos anos evidenciam uma alarmante realidade: vários estados e cidades do Brasil, incluindo o Rio Grande do Sul, apresentam significativas tendências de maior frequência para fenômenos climáticos catastróficos que estão constantemente sendo foco de advertência e apelo dos especialistas sobre os impactos das atividades humanas no globo.

Esse evento climático sem precedentes foi precedido por uma série de indicadores preocupantes. A elevação dos níveis de precipitação na região Sul do Brasil, prevista pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), apontava para uma maior variabilidade na ocorrência de chuvas, com potenciais períodos de seca intercalados por precipitações pluviométricas extremas. Essas projeções sugerem uma tendência clara de aumento da frequência e intensidade das chuvas, o que agora se manifesta de forma devastadora.

Além disso, estudos conduzidos por renomados cientistas brasileiros, como Paulo Artaxo, Antônio Marengo e Carlos Nobre, têm destacado os efeitos da ação humana no clima regional. O desmatamento desenfreado e a exploração irregular da terra têm exacerbado os fenômenos atmosféricos, tornando as regiões vulneráveis a eventos climáticos intensos, como enchentes e deslizamentos de terra. A expansão urbana não controlada e a impermeabilização do solo contribuem para o agravamento da situação, reduzindo a capacidade do solo de absorver e drenar a água das chuvas.

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Dessa maneira, pode-se dizer que a interação desarmônica entre a topografia do terreno, o uso não planejado da terra e os fenômenos naturais desempenhou um papel importante na geração do desastre no Rio Grande do Sul, destacando uma tendência preocupante que pode se agravar naquele estado e em outras unidades da federação.

A convergência de ventos intensos, deslocamento da umidade amazônica, influência do El Niño e padrões de alta pressão atmosférica criaram o cenário propício para o surgimento de chuvas extremas e inundações em uma região especialmente vulnerável.

Os efeitos foram catastróficos e históricos, deixando até então mais de 100 mortos, dezenas de desaparecidos e desabrigados, e milhares de imóveis inundados. É mais um grande alerta para uma crise climática que pode tomar proporções ainda maiores e que exige ação imediata e coordenada por parte das autoridades públicas e da população em geral.

Diante desse cenário, é fundamental que toda a sociedade reconheça a urgência na adoção de medidas eficazes para mitigar os impactos das mudanças climáticas e que promovam a adaptação à nova realidade ambiental. Isso inclui a implementação de políticas de conservação da natureza, controle eficaz do desmatamento, o ordenamento territorial sustentável e o investimento em infraestrutura resiliente.

Além disso, é preciso que haja – com urgência – mudança fundamental na forma de planejamento das cidades, priorizando a sustentabilidade e a resiliência climática em todas as etapas do desenvolvimento do tecido urbano.

Rafaella Viana é representante do Governos pela Sustentabilidade (Iclei) em Pernambuco, consultora da Unesco, Conselheira de ESG do Brasil Export e CEO da 3R Soluções Ambientais Inteligentes.

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