
Uma linha de transmissão de 2.500 quilômetros, ligando Angicos, no Rio Grande do Norte, a Itaporanga, em São Paulo, constitui o principal empreendimento do relatório elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética sobre obras de transmissão ainda não autorizadas ou licitadas no âmbito do Programa de Expansão da Transmissão e do Plano de Expansão de Longo Prazo. Vinculada ao Ministério de Minas e Energia, a EPE projeta investimento superior a R$ 20 bilhões no reforço da interligação Nordeste–Sudeste, estruturado pela linha em corrente contínua de aproximadamente 600 kV.
Publicado em 19 de dezembro, o documento compõe a base técnica do Plano de Outorgas de Transmissão de Energia Elétrica, que organiza as obras a serem outorgadas pela Agência Nacional de Energia Elétrica nos próximos anos. O relatório da EPE totaliza 17.200 km de linhas e 76.500 MVA em subestações no portfólio geral, com distribuição regional de 48% no Sudeste/Centro-Oeste, 34% no Sul, 10% no Norte e 8% no Nordeste. O corredor HVDC Angicos–Itaporanga permanece como vetor dominante da expansão e condiciona a organização das intervenções futuras no sistema elétrico.
O reforço em corrente contínua instala o eixo físico central do planejamento, com conversoras de 3.000 MW nas duas extremidades e extensão que articula o deslocamento de excedentes da geração renovável do Nordeste, ampliando as margens de atendimento do Sudeste segundo os estudos concluídos em novembro de 2025, entre eles o EPE-DEE-RE-071/2025. A solução integra o conjunto de obras que podem ingressar em leilões subsequentes, conforme a metodologia adotada no PET–PELP.
A interligação Nordeste–Sudeste reorganiza o equilíbrio estrutural do Sistema Interligado Nacional ao conectar o excedente de geração renovável do Nordeste ao maior centro de carga do país. A solução em corrente contínua permite a transferência de blocos de até 3.000 MW por conversora em percurso de 2.500 km, viabilizando o escoamento contínuo da produção eólica e solar e ampliando as margens de atendimento do Sudeste, cuja operação já se mantém condicionada ao reforço das conexões de longa distância.
A configuração do corredor integra o regime de expansão industrial previsto nos estudos estruturantes, que incluem polos de hidrogênio verde, zonas de data centers e cargas eletrointensivas concentradas em regiões com crescimento acelerado da demanda. A interligação estabelece a base física para atendimento desses polos e condiciona a distribuição dos fluxos, compondo a infraestrutura necessária para absorção de cargas futuras e para a estabilidade operativa do sistema no horizonte pós-2030.
Estudos estruturantes: hidrogênio verde e data centers
O relatório inclui estudos sobre polos industriais e cargas eletrointensivas, abrangendo áreas potenciais para produção de hidrogênio verde e implantação de data centers em regiões do Nordeste, Sudeste e Sul. As análises contemplam variações de demanda, requisitos de conexão, margens de confiabilidade e reforços estruturais em tensões de 230 kV, 500 kV e 750 kV, compondo o quadro que orientará os ciclos subsequentes do planejamento.
O estudo de hidrogênio verde examina cenários de instalação de plantas em larga escala, identifica condicionantes elétricos para atendimento industrial e associa o deslocamento da demanda à disponibilidade regional de geração renovável. A expansão potencial desses polos integra a avaliação da necessidade de reforços no escoamento e na alimentação das cargas associadas.
A avaliação de data centers mapeia concentrações de carga computacional em áreas metropolitanas, define parâmetros de confiabilidade, estima incrementos na ponta do sistema e estrutura requisitos de conexão em alta tensão. O estudo associa a expansão dos clusters ao redesenho de subestações e corredores que sustentarão a demanda computacional crescente.
Obras propostas de energia elétrica para o Nordeste
O submercado Nordeste reúne R$ 3,2 bilhões em empreendimentos, equivalentes a 8% do total previsto no plano, com distribuição entre Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.
A Bahia contabiliza R$ 663.476.110, com implantação da SE 500/230 kV Olindina e das linhas Olindina–Itabaianinha (73,4 km), Ibicoara–Brumado II (96 km), Poções III–Itabuna III (137 km) e Rio das Éguas–Iaciara (125,8 km).
No Ceará, os empreendimentos somam R$ 704.811.680, incluindo a LT 230 kV Banabuiú–Milagres (225,9 km) e compensadores síncronos de –180/+300 Mvar nas SEs Morada Nova e Quixadá. O Rio Grande do Norte reúne R$ 147.566.820 com instalação de compensador síncrono na SE 500 kV Ceará-Mirim. Sergipe agrega R$ 2.445.493.010, com a SE 230/69 kV Nossa Senhora da Glória II, equipada com dois transformadores de 150 MVA, além da LT 230 kV Olindina–Itabaianinha.
A EPE identifica seis estudos estruturantes com emissão prevista para 2025 e impacto direto no submercado, incluindo prospecção de cargas eletrointensivas, controle de tensão em Salvador e atendimento à Região Oeste da Bahia. A incorporação dos resultados nos próximos ciclos expande o conjunto de obras que poderão ser integradas ao planejamento regional.
Projetos de expansão elétrica no Brasil
O plano organiza reforços complementares em corrente alternada para sustentar a operação do corredor HVDC. A estrutura reúne três circuitos de 500 kV entre Itaberá (SP) e Itaporanga (SP), a linha 500 kV Araraquara 2 (SP)–Itaporanga 2 (SP), o trecho 500 kV São Gonçalo do Pará (MG)–Itabujá 3 (MG) e, na região Sul, a linha 525 kV Abdon Batista 2 (SC)–Curitiba Oeste (PR), seguida da conexão Curitiba Oeste (PR)–Joinville Sul (SC), compondo a malha de sustentação do intercâmbio entre os submercados.
O relatório PET–PELP consolida R$ 73,6 bilhões em obras de transmissão com solução técnica definida, excluindo empreendimentos em fase preliminar de estudos e distinguindo-se do Plano Decenal de Expansão, que projeta R$ 120 bilhões até 2035 ao incluir obras licitadas, autorizadas ou em implantação. A diferença instala camadas distintas de prontidão administrativa e define margens temporais específicas para a entrada dos empreendimentos no ciclo de outorgas.
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