
Por Luiz Piauhylino Filho*
A retomada do trecho Salgueiro–Suape da Ferrovia Transnordestina representa um marco para a infraestrutura e a economia do Nordeste. No entanto, enquanto especialistas debatem ajustes técnicos cruciais, como a bitola e a adequação de traçados, uma visão mais ampla e inovadora pode transformar este corredor logístico em um vetor de desenvolvimento energético sustentável para o Brasil. A pergunta que se impõe é: estamos pensando grande o suficiente?
No planejamento atual da ferrovia, surge uma provocação essencial: está prevista a inclusão de dutos para o transporte de gás, hidrogênio verde e seus derivados — como amônia, metanol e combustível sustentável de aviação (SAF)? A ausência dessa previsão pode significar a perda de uma oportunidade histórica de integrar a infraestrutura logística a uma nova matriz energética.
Uma solução inovadora a 150 km de distância
A chave para essa transformação está a apenas 150 km de Salgueiro, ponto nevrálgico da Transnordestina. Na Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga, em Petrolândia (PE), reside um potencial latente e extraordinário: a implementação de um sistema de geração de energia reversível, combinado com a instalação de painéis solares flutuantes sobre o reservatório.
Esta solução de hibridização não só otimizaria a geração de energia da usina, mas também resolveria dois dos maiores desafios do sistema elétrico do Nordeste: a inércia, crucial para a estabilidade da rede diante da intermitência das fontes eólica e solar, e o armazenamento de energia em larga escala. A UHE Luiz Gonzaga se tornaria uma gigantesca bateria natural, armazenando energia solar excedente sob a forma de água bombeada para o reservatório, pronta para ser turbinada quando a demanda aumentar ou o sol se puser.
Transnordestina como protagonista
É aqui que a Transnordestina assume um papel protagonista. A energia limpa e firme gerada em Luiz Gonzaga pode ser o insumo principal para a produção de hidrogênio verde e, consequentemente, de seus derivados de alto valor agregado. Amônia verde, metanol verde e SAF, produzidos em escala industrial no sertão pernambucano, precisam de um meio eficiente para chegar aos mercados consumidores.
A ferrovia Salgueiro–Suape seria a espinha dorsal deste novo arranjo produtivo. Em vez de transportar apenas commodities tradicionais, os trilhos da Transnordestina poderiam escoar a energia do futuro, transportando os derivados de hidrogênio de forma segura e competitiva até o Complexo Industrial e Portuário de Suape. De lá, esses produtos poderiam abastecer a indústria nacional ou serem exportados para um mundo ávido por soluções energéticas limpas.
Ao corrigir as falhas técnicas do projeto ferroviário e abraçar esta visão de futuro, o Brasil pode fazer do trecho Salgueiro–Suape muito mais do que um simples ramal logístico. Pode criar um corredor de desenvolvimento sustentável, unindo o potencial hídrico, eólico e solar do Sertão à demanda global por energia limpa, e transformando a Transnordestina na verdadeira ferrovia da reindustrialização e da transição energética do país.
*Luiz Piauhylino Filho é advogado e investidor em projetos de energias renováveis











