
Dez anos depois de encerrar as atividades, a Usina de Biodiesel de Quixadá, no Sertão Central do Ceará, pode voltar a produzir. A Petrobras confirmou ao Movimento Econômico que a planta, mantida em regime de hibernação desde 2016, passou a ser submetida a reavaliações econômicas motivadas principalmente pelo aumento da disponibilidade de matérias-primas na região. A empresa informa que a unidade se encontra em fase preliminar de estudos técnicos para a retomada da operação.
Inaugurada em 2008 com capacidade inicial de 57 milhões de litros por ano, a usina chegou a 108 milhões de litros anuais antes de ser desligada. Em 2015, último ano completo de operação, produziu cerca de 87,5 milhões de litros, um volume que, aos preços de mercado registrados em março de 2026, de R$ 5,4881 por litro, representaria faturamento bruto da ordem de R$ 593 milhões por ano. No pico das obras, a planta gerou 1.048 empregos diretos, sendo 814 ocupados por trabalhadores cearenses, e integrou milhares de agricultores familiares ao suprimento de oleaginosas.
Em nota, a Petrobras informa que as estimativas de valor a ser investido, geração de empregos, capacidade de produção, entre outras, serão divulgadas oportunamente com o avanço da maturidade do projeto.
O que mudou no cenário energético
A decisão de colocar Quixadá de volta na agenda estratégica da Petrobras não é casual. Desde agosto de 2025, o Brasil opera com mistura obrigatória de 15% de biodiesel no diesel fóssil, o chamado B15 , exigência que elevou a demanda regulatória por biocombustível em todo o país. A Lei do Combustível do Futuro criou uma trajetória de expansão progressiva do uso de renováveis, e o governo federal segue testando avanços técnicos para misturas ainda mais altas.
Em análise para o ME, o gerente de Desenvolvimento Sustentável da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), Joaquim Rolim, diz que a usina precisa ser lida dentro de um movimento mais amplo de busca por energia limpa e menor dependência de combustíveis fósseis, pressionada pelas instabilidades da geopolítica mundial.
“Cada vez mais se busca produção de energia limpa e menor dependência de importação de combustíveis fósseis, devido às instabilidades existentes na geopolítica mundial. Tais combustíveis são utilizados tanto no setor de transporte como no de energia elétrica, além de outros usos possíveis”, afirma Rolim.

Impacto para o Sertão Central e a agricultura familiar
O gerente destaca que, durante sua vida útil, a usina produziu em média 57 milhões de litros anuais, bem abaixo dos 109 milhões de litros de capacidade instalada, e que o retorno à produção exigirá não apenas investimentos, mas modernizações tecnológicas e operacionais. O impacto mais imediato, na avaliação da entidade, será sentido na cadeia produtiva de insumos do Sertão Central, com abertura de oportunidades para a agricultura familiar.
“Para retornar à produção normal deve requerer modernizações tecnológicas e operacionais, além de necessidade de expansão da capacidade operacional. O impacto mais direto será para a cadeia produtiva de insumos no Sertão Central, incluindo oportunidades para a agricultura de pequena escala, como a agricultura familiar”, pontua Rolim.
Lauro Chaves, professor na UFC e assessor econômico na FIEC, destaca que um dos elementos com mais ênfase é o papel da Ferrovia Transnordestina nesse novo ciclo. A infraestrutura, em fase de implantação, pode conectar a usina a regiões produtoras de insumos em estados vizinhos, ampliando o raio de abastecimento e abrindo horizontes para toda a cadeia produtiva regional, inclusive para o escoamento via Porto do Pecém.
“Poderá ter um papel muito relevante, tendo em vista a integração a ser propiciada pela Ferrovia Transnordestina, através da interligação com regiões produtoras de insumos nos estados vizinhos, o que pode propiciar o desenvolvimento de toda a cadeia produtiva relacionada com a usina.”
A entidade enxerga ainda na reativação uma porta de entrada para produtos de nova geração dentro da economia de baixo carbono. O representante da FIEC cita o potencial de integração com SAF (combustível sustentável para aviação), e o hidrogênio verde, setores nos quais o Ceará já tem posicionamento estratégico.
Para isso, reforça, serão necessários investimentos tanto na ampliação da capacidade produtiva quanto na modernização da planta. “O biodiesel pode ser utilizado como matéria prima na produção de energia limpa e renovável, assim como novos desenvolvimentos em curso, por exemplo para a produção dos SAF, isso em conjunção com o hidrogênio verde.”

Janela regulatória e estratégia da Petrobras
Para Thiago Holanda, conselheiro do Corecon-CE (Conselho Regional de Economia do Ceará), a combinação de fatores regulatórios e de mercado criou uma janela de oportunidade que não existia quando a usina foi fechada. Ele aponta que o Plano Estratégico 2025–2029 da Petrobras recolocou os negócios de baixo carbono no centro da diversificação da companhia, com biocombustíveis entre as frentes estratégicas explicitamente citadas.
“Houve uma mudança objetiva de contexto: a planta deixou de ser vista apenas pelo prisma do desinvestimento e passou a ser reavaliada em um ambiente de maior demanda regulatória por biodiesel. A Lei do Combustível do Futuro criou uma trajetória de expansão e o governo continua testando misturas ainda maiores.”
O economista ressalta que Quixadá deve ser lida como um ativo coerente com a virada estratégica da Petrobras e não como uma decisão isolada. O plano da empresa prevê biorefino, aumento da oferta de produtos renováveis e estudos em HVO e outros bioprodutos, o que dá ao biodiesel uma função consolidada dentro do portfólio. “Quixadá pode ser lida como um ativo regional coerente com essa virada estratégica da Petrobras, especialmente por estar no Nordeste, onde há mercado consumidor, possibilidade de integração logística e espaço para cadeias agrícolas associadas.”
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