Construção naval será retomada na BA em 2024?

Construção naval tem na Bahia um de seus maiores estaleiros no Brasil, hoje subutilizado e com parte da área destinada a um terminal marítimo, por falta de encomendas de embarcações

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Construção naval tem no Recôncavo Baiano um de seus maiores estaleiros no Brasil
Uma das maiores plantas de construção naval do Brasil, Estaleiro Enseada chegou a gerar sete mil empregos/Foto: Estaleiro Enseada (Divulgação)

A construção naval na Bahia, paralisada desde a crise nacional do setor, na segunda metade da década passada, se articula para uma retomada, com as oportunidades bilionárias sinalizadas pela Petrobras e Transpetro este ano. Essa reativação passa fundamentalmente pelo retorno das operações fabris do estaleiro Enseada, no Recôncavo Baiano.

Construído na fase de modernização mais recente do setor no país, entre os anos 2000 e 2010, o complexo é uma das maiores plantas de fabricação de embarcações do Brasil, mas, diante da falta de encomendas, vem sendo utilizado como terminal portuário.

Esse panorama tende a se alterar com os investimentos anunciados pela Petrobras em desmatelamento de plataformas obsoletas e Transpetro, na produção de novas embarcações para o transporte de combustíveis e outras finalidades.

A companhia-mãe vai destinar R$ 9,8 bilhões, até 2027, a um programa para o descomissionamento de 26 unidades de produção offshore no final da vida útil. Já a Transpetro tem previsão de anunciar, em 2024, um pacote de encomendas de navios, estimado em R$ 12,5 bilhões. Somadas, essas iniciativas devem injetar R$ 22,3 bilhões nos estaleiros brasileiros.

Construção naval baiana vê outras oportunidades

O CEO do estaleiro Enseada, Ricardo Ricardi, diz ver “de forma positiva as iniciativas para retomada do setor de construção naval e offshore no Brasil” e mira outros negócios além dos já anunciados pela holding Petrobras.

“Estamos atentos à construção de navios e descomissionamento de plataformas, mas especialmente à construção de módulos para novas plataformas flutuantes de produção de petróleo, as chamadas FPSOs”, destaca.

Para o executivo, “a área de FPSOs é um setor estratégico, capaz de gerar rapidamente milhares de empregos qualificados, resultando em significativos benefícios socioeconômicos para o país”. “Por sermos um estaleiro offshore de última geração, viável com operações de grande escala, estamos priorizando negócios relacionadas a módulos desse tipo de plataforma”, explica.

Barcaças e reparos no radar da construção naval

Além da construção de módulos, o Estaleiro Enseada também prospecta contratos fora da Petrobras. Uma das áreas de interesse é o segmento de barcaças para o transporte de granéis líquidos e sólidos, no qual a demanda vem crescendo, impulsionada pela expansão do transporte de cargas marítimo e fluvial no país.

Outro nicho em que a empresa aposta as fichas é o de reparos de embarcações. Com isso, o Enseada segue exemplos como o do estaleiro Atlântico Sul Heavy Industry Solutions (PE), que ficou quase dois anos fechado e entrou na área de conserto de navios para retomar as operações em 2021.

Mesmo com encomendas de construção naval à vista no novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 3), o Atlântico Sul vai manter o negócio de reparos no mix, como estratégia de diversificação, fundamental nos chamados períodos de “vale”, quando os contratos de novos navios ficam escassos.

Estaleiro Enseada teve como encomendas iniciais, na construção naval, seis navios-sonda que estariam entre os primeiros produzidos no Brasil
Construção naval no Recôncavo Baiano: Estaleiro Enseada teve como encomendas iniciais seis navios-sonda para a Petrobras/Foto: Estaleiro Enseada (Divulgação)

Enseada quer geração de milhares de empregos

Diante de um cenário promissor, que traz alento após a suspensão dos programas naval e offshore da holding Petrobras na segunda metade dos anos 2010, Ricardo Ricardi espera que o Enseada volte a impactar positivamente o mercado de trabalho do Recôncavo. No auge das operações, a empresa chegou a ter sete mil pessoas trabalhando no complexo.

“As oportunidades comerciais em curso, se materializadas via conquista de novos contratos, poderão gerar centenas, ou até milhares, de novos empregos já em 2024“, afirma.

Na esfera governamental, o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Angelo Almeida, ressalta a formação de uma grande frente política, com o setor empresarial e entidades da sociedade, para que a retomada do Enseada deixe de ser projeto e se torne realidade.

“Temos um estaleiro com imponência, pronto para a construção e descomissionamento de plataformas. Estamos nos integrando para soerguer o Enseada e contribuir para a geração de empregos na região”, frisa.

Entre as ações realizadas pela frente está uma série de audiências públicas para discutir o ressurgimento do polo naval baiano. A última reunião, no dia 5 deste mês, teve a participação do presidente da Transpetro, Sérgio Bacci.

Construção naval: Bahia articula frente política para viabilizar reativação do setor
Angelo Almeida destaca articulação política e empresarial para ressurgimento da construção naval/Foto: João Ferreira (Ascom SDE)

Por dentro do gigante baiano da construção naval

Vale lembrar que os números referentes ao Estaleiro Enseada são superlativos não apenas no histórico de postos de trabalho e capacidade futura de absorver mão-de-obra. Com 1,6 milhão de metros quadrados, o Enseada recebeu investimentos de R$ 2,6 bilhões na implantação e teve como contrato inicial a produção de seis navios-sonda que seriam utilizados na perfuração de poços da Petrobras.

Essas embarcações – cuja fabricação teve como contratatante uma nova empresa, chamada Sete Brasil – estariam entre as primeiras do gênero fabricadas no país. As sondas garantiriam US$ 4,8 bilhões em encomendas para o estaleiro, algo próximo dos R$ 25 bilhões. Essa dinheirama acabou ficando apenas no papel.

O estaleiro começou a operar em 2014, provocou um boom econômico na região do Recôncavo, mas teve os contratos cancelados no auge da crise enfrentada pela Petrobras devido à Operação Lava-Jato. Com um nível de endividamento altíssimo, incluindo gastos em dólar na importação de equipamentos para as sondas, o Enseada pediu recuperação judicial em 2017.

Acionistas do empreendimento, Novonor (antiga Odebrecht) e OAS acabaram, nos anos recentes, destinando parte da estrutura impressionante do Enseada a um terminal voltado para a movimentação de minérios. Foi uma estratégia para não deixar a planta abandonada e garantir alguma receita em meio ao processo de RJ. Um final melancólico que os sócios, além de milhares de trabalhadores que atuaram no complexo, querem transformar, em breve, em página virada.

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