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Fim da escala 6×1: estudos divergem sobre impactos no PIB e na inflação

​Redução da jornada de trabalho mobiliza economistas e confederações em debate que divide projeções técnicas e visões políticas sobre o futuro do emprego
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Indústria celulose
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula uma perda de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro (-0,7%) caso a jornada caia das atuais 44 para 40 horas semanais. Foto: Amanda Oliveira/GovBA

As propostas de redução da jornada de trabalho no Brasil, em tramitação no Congresso Nacional, colocaram pesquisadores e entidades em lados opostos. O ponto central da discussão é o fim da escala 6×1, seis dias de trabalho para um de descanso. De um lado, confederações patronais preveem prejuízos bilionários ao Produto Interno Bruto (PIB); de outro, acadêmicos e técnicos do governo sugerem que os impactos serão absorvidos pela economia com ganhos sociais.

​Para a economista da Unicamp Marilane Teixeira, a discrepância entre os estudos não é puramente técnica, mas política. Segundo ela, “parte significativa da literatura econômica que discute o assunto parte de modelos que assumem, como regra, que qualquer redução na quantidade de horas trabalhadas levará, inevitavelmente, à redução da produção e da renda, ignorando, assim, os ajustes dinâmicos que historicamente ocorrem no mercado de trabalho”.

​O impacto nas contas das empresas

As entidades que representam o empresariado apresentam números preocupantes. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula uma perda de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro (-0,7%) caso a jornada caia das atuais 44 para 40 horas semanais.

O presidente da entidade, Ricardo Alban, alerta que o setor industrial sofreria ainda mais. “Nossa indústria vai perder participação no mercado doméstico e internacional, a partir da redução nas exportações e da alta nas importações”, avalia.

​No setor de serviços, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima que os custos sobre a folha salarial subiriam 21%. A entidade argumenta que, sem a possibilidade de reduzir os salários nominais, o impacto sobre a rentabilidade comercial será severo. A projeção da CNC aponta que o repasse de preços ao consumidor final poderia chegar a 13%.

​Visão alternativa: custos marginais

​Contestando esses dados, uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apresenta um cenário mais brando. O pesquisador Felipe Pateo, um dos autores do estudo, afirma que o aumento no custo operacional das empresas seria de apenas 1% na média geral.

Segundo ele, matematicamente é improvável que o custo do trabalho suba mais que 10%, pois esse é o teto correspondente às horas que o empregador deixaria de ter do funcionário.

​O estudo do Ipea indica que a maioria dos setores tem capacidade para absorver esse aumento. “Os resultados indicam que a maioria dos setores produtivos apresenta capacidade de absorver aumentos nos custos do trabalho, ainda que alguns segmentos demandem atenção específica”, diz o texto. O maior desafio seria para microempresas com até nove empregados, que podem precisar de subsídios estatais para a transição.

​O fantasma da inflação

A possibilidade de alta nos preços é o principal argumento das entidades patronais. Marcelo Azevedo, economista da CNI, explica que o efeito se acumula ao longo da cadeia produtiva. “Tem aumento de custo porque o valor do salário-hora aumentou, então vai ter aumento de custo. Todos os produtos vão ter aumento. Isso é um efeito que vai se acumulando porque cada setor tem o mesmo problema.”

​Marilane Teixeira, da Unicamp, rebate essa visão comparando a medida aos reajustes do salário mínimo. Ela argumenta que, se a elevação do custo do trabalho gerasse inflação exponencial, o país viveria em crise constante a cada aumento do piso salarial. Além disso, ela aponta que a concorrência impede repasses automáticos. “Se a empresa compete, ele não vai reajustar preço porque corre o risco de perder cliente para o concorrente”, afirma.

Produtividade e bem-estar

​Outro ponto de discórdia é a produtividade do trabalhador brasileiro, que está estagnada há décadas. A CNI considera improvável que o descanso extra gere um ganho de eficiência capaz de compensar as horas a menos.

“A gente, infelizmente, e por diversas razões que não são simples de contornar, está com uma produtividade estagnada há muito tempo. Acho difícil apostar numa melhora significativa de produtividade”, afirma Marcelo Azevedo.

​Já os defensores da medida acreditam no efeito inverso. Marilane Teixeira sugere que pessoas mais descansadas produzem melhor e que a jornada extensa não resolveu o problema da produtividade até agora.

Para Felipe Pateo, do Ipea, o tempo livre pode até aquecer a economia. “A hora liberada do trabalhador pode gerar também maior produção, maior consumo. Pode fazer com que as outras atividades, no tempo livre, tenham uma dinâmica positiva na economia.”

​Lições da história: 1988 e o futuro

O debate remete à Assembleia Constituinte de 1988, quando a jornada caiu de 48 para 44 horas. Na época, estudos posteriores não identificaram demissões em massa ou queda na produção. Contudo, a CNI argumenta que a comparação é inválida, pois a economia atual é globalizada e digitalizada, enfrentando desafios que não existiam há 40 anos.

​Para Marilane Teixeira, o que está em jogo é o chamado conflito distributivo, uma disputa para definir quem fica com os ganhos de produtividade da sociedade. “É um conflito que chamamos de conflito distributivo. É uma disputa para definir para onde canalizar os lucros, a renda do trabalho, o salário e o consumo. O que está em disputa são os ganhos da produtividade”, conclui a economista.

Com informações da Agência Brasil.

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