Setor de logística sofre impacto direto com a alta dos combustíveis

Distribuidoras driblam instabilidade com mudanças na forma de atuar, mas devem repassar custos dos reajustes dos combustíveis para clientes

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Por Samuel Santos

A oscilação no preço dos combustíveis no Brasil não tem sido uma dor de cabeça apenas para quem precisa abastecer o veículo direto na bomba, para realizar as tarefas cotidianas. Empresas da cadeia de logística também estão sentindo os impactos negativos do reajuste de 18% e 25% nos valores da gasolina e do diesel, respectivamente, repassados pela Petrobras às refinarias.

Este foi o segundo aumento anunciado pela estatal somente em 2022. Com o combustível mais caro para quem transporta produtos que abastecem diversos estabelecimentos, a tendência é que o frete comece a pesar no bolso do consumidor final.

Operação das distribuidoras é afetada diretamente por alta dos combustíveis/Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

“O impacto é direto nas nossas operações, nos nossos custos, já que 95% do faturamento vem da entrega de produtos, e não tem como a gente entregar sem gastar combustível”, pontua Anísio Henrique Pintor, um dos sócios da AP Bebidas, distribuidora que nasceu em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, e que atualmente conta com uma sede no Recife, inaugurada no final de 2021. A empresa é dona de uma carteira que conta com mais de 2,5 mil clientes e distribui seus mais de dois mil rótulos para todo o estado.

De acordo com Anísio, a volatilidade nos combustíveis obrigou a distribuidora a encontrar saídas e traçar novas estratégias para driblar a situação e manter o negócio sustentável, do ponto de vista econômico. “Hoje a gente junta um volume maior de mercadorias no veículo para baratear os custos. Se antes o carro saia com 65% da capacidade, toda semana, agora realizamos as entregas a cada 15 dias, com até 100% da capacidade, para usar menos combustível”, explica.

As mudanças implementadas pela AP Bebidas para se adequar ao novo momento também são percebidas no processo de relacionamento com os clientes. “Na venda, uma semana o vendedor faz o procedimento de forma presencial, indo ao estabelecimento, e na outra esse trabalho é feito de maneira remota, seja por WhatsApp, telefone ou e-mail. Isso tudo é para que não reajustar ainda mais o preço, além do que a inflação já nos obriga a aumentar”, completa Anísio Pintor.

O que impacta o setor

Fatores externos, como a guerra entre Rússia e Ucrânia no Leste Europeu, também têm impulsionado a escalada dos combustíveis em todo o planeta. Quando somada à política de preços da Petrobras, a situação tende a ficar ainda mais complicada. “De um lado temos as transportadoras que nos atendem, que estão aumentando sua tabela em média de 15% a 20%, e do outro temos os caminhoneiros, que têm a sua microempresa e só querem viajar se houver o repasse do aumento do preço do óleo diesel”, afirma Fernando Silvestre, presidente da Cadan Distribuição.

O empresário, que atua no ramo de destruição de alimentos no Nordeste há mais de 20 anos, também expressa preocupação com os rumos da economia, motivado pelo cenário de instabilidade. “Isso acontece num momento em que a população não tem muito dinheiro, até porque as commodities alimentares aumentaram muito com todo esse cenário. O poder de compra e a renda têm caído no Brasil. Produtos como trigo, derivados do trigo, óleo de soja, por exemplo, aumentaram bastante. Infelizmente, a gente não tem como baixar o custo de logística. O que temos feito é reduzir a margem de lucro”, explica Silvestre.

Para Werson Kaval, economista, professor de pós-graduação do Centro Universitário Tiradentes (Unit-PE), especialista em qualidade e produtividade, a instabilidade nas bombas de combustíveis é consequência de escolhas feitas no passado. “Apesar de ser autossuficiente na produção, o Brasil ainda depende do petróleo estrangeiro e aderiu a esse modelo de paridade internacional, ou seja, qualquer mudança no preço do barril de petróleo no mundo tem impacto por aqui. Afinal, quem divide lucros, divide prejuízos”, explica.

Ainda de acordo com o professor, o modelo logístico brasileiro não foi modernizado nos últimos anos, o que contribui para uma dependência sem fim do frete via transporte rodoviário.

“Além de pressionar a inflação, essa escalada de preços afeta diretamente toda a cadeia logística nacional, visto que 90% da distribuição do que é produzido dentro e fora do país se dá pela malha rodoviária. É um efeito cascata e que vai atingir todos os itens que são industrializados e comercializados no Brasil. Temos desde os custos com manutenção veículos, até o próprio deslocamento e, consequentemente, e de novo, essa conta vai cair no colo de quem está na ponta, ou seja, o consumidor final”, destaca Werson Kaval.


Leia também – Análise Ceplan: o cenário econômico para 2022

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