
O módulo do Censo 2022 sobre Trabalho e Rendimento, divulgado nesta quinta-feira (9) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirma a persistência das desigualdades regionais na remuneração do trabalho no Brasil. Entre os 26 estados e o Distrito Federal, 18 Unidades da Federação apresentaram rendimento nominal médio mensal do trabalho inferior à média nacional de R$ 2.851. Os menores rendimentos foram observados no Maranhão (R$ 1.855), Piauí (R$ 1.905) e Bahia (R$ 1.944), todos pertencentes à Região Nordeste.
Esse recorte evidencia o desequilíbrio na distribuição da renda do trabalho entre as regiões brasileiras. Enquanto os estados nordestinos concentram os menores valores médios, o Distrito Federal lidera com R$ 4.715, seguido por São Paulo (R$ 3.460) e Santa Catarina (R$ 3.391), todos com montantes superiores à média nacional. A diferença entre o maior e o menor rendimento entre as Unidades da Federação supera R$ 2.800, o que equivale a mais de 1,5 vez o salário mínimo vigente em 2022 (R$ 1.212).
A região Centro-Oeste supera em 16,7% a média nacional e registra o maior rendimento do país, de R$ 3.292. Na sequência estão as regiões Sudeste (R$ 3.154) e Sul (R$ 3.190). Por últimos, as regiões Norte (R$ 2.238) e Nordeste (R$ 2.015), que estão abaixo da média nacional (R$ 2.851).
O levantamento por estados também reforça a concentração de atividades econômicas de maior remuneração nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Já o Nordeste segue como a região com menor rendimento médio, o que reflete o perfil produtivo dos estados e o nível de formalização do mercado de trabalho.
Municípios do Nordeste concentram os menores salários do Brasil
Além dos dados por estado, o levantamento aponta que os dez municípios com os menores rendimentos médios mensais do trabalho estão localizados no Nordeste. Cachoeira Grande, no Maranhão, registrou o menor valor do país (R$ 759), seguido por Caraúbas do Piauí (R$ 788) e Mulungu do Morro, na Bahia (R$ 805). Em 520 municípios brasileiros — o equivalente a 9,3% do total — o rendimento do trabalho ficou abaixo de um salário mínimo.
Apenas 19 municípios em todo o país superaram a marca de quatro salários mínimos (R$ 4.848), concentrados nas regiões Sul e Sudeste. Os três maiores rendimentos foram registrados em Nova Lima (MG – R$ 6.929), São Caetano do Sul (SP – R$ 6.167) e Santana de Parnaíba (SP – R$ 6.081). Essa disparidade evidencia a fragmentação territorial do mercado de trabalho e o peso das atividades econômicas locais sobre os rendimentos dos trabalhadores.
No Nordeste, a baixa média salarial é reforçada pela predominância de ocupações informais, agricultura de subsistência e baixa escolarização da população ocupada. Esses fatores estruturais limitam a geração de renda e a mobilidade econômica nos municípios da região.
Trabalho representa menos de 25% da renda em municípios nordestinos
A situação é agravada pela baixa participação do rendimento do trabalho na composição da renda total das famílias em várias localidades nordestinas. Em Vera Mendes (PI), por exemplo, apenas 23% da renda domiciliar provinha de atividades laborais. O mesmo padrão foi identificado em Jurema (PI) e Venha-Ver (RN), ambos com participação de 24,8%.
De acordo com os dados do IBGE, os dez municípios com as menores proporções de rendimento do trabalho na renda domiciliar estão todos no Nordeste. Essa configuração indica uma alta dependência de outras fontes de renda, como aposentadorias, pensões e programas de transferência de renda.
Em contraste, os maiores percentuais de participação do trabalho na renda foram registrados no Centro-Oeste, como em Querência (MT – 93,7%) e Sapezal (MT – 93,5%), evidenciando uma realidade oposta àquela observada em boa parte do interior nordestino.
Nordeste também tem os menores rendimentos per capita, diz IBGE
Os dados do IBGE indicam que o rendimento domiciliar per capita médio no Brasil em 2022 foi de R$ 1.638, mas os valores nos estados do Nordeste ficaram abaixo desse patamar. O Maranhão teve o menor desempenho entre os estados, com média de R$ 900.
Nos municípios com os piores indicadores per capita, todos situados no Norte e no Nordeste, os valores variaram entre R$ 289 e R$ 389. Entre os piores colocados estão Manari (PE), Belágua (MA) e novamente Cachoeira Grande (MA). Esses rendimentos representam menos de 25% da média nacional, o que impacta diretamente os níveis de consumo e acesso a serviços básicos.
Esse indicador reflete não apenas o rendimento do trabalho, mas também a composição demográfica das famílias e o acesso a transferências públicas. Em regiões com famílias numerosas e baixa inserção formal no mercado de trabalho, a renda per capita tende a ser significativamente menor.
Diferenças salariais por sexo e raça se mantêm em todos os níveis
Além das desigualdades entre regiões e municípios, o Censo registrou diferenças nos rendimentos por sexo e cor ou raça. Em todos os níveis de escolaridade, os homens apresentaram rendimentos superiores aos das mulheres. No nível superior completo, a diferença foi de 60%: R$ 7.347 para homens e R$ 4.591 para mulheres.
Entre as categorias de cor ou raça, os maiores rendimentos médios foram verificados entre pessoas amarelas (R$ 5.942) e brancas (R$ 3.659), e os menores entre indígenas (R$ 1.683), pretas (R$ 2.061) e pardas (R$ 2.186). Mesmo quando o grau de instrução é equivalente, as diferenças salariais permanecem, segundo os dados do Censo.
Essas desigualdades se refletem também nos indicadores agregados das regiões: o Nordeste, que concentra maior proporção de população parda e preta, também apresenta os piores indicadores salariais e de ocupação, reforçando o ciclo de exclusão econômica.
Fernando de Noronha tem a maior taxa de ocupação do país
Entre os indicadores produzidos pelo IBGE, destaca-se o nível de ocupação, que mede a proporção de pessoas ocupadas na população com 14 anos ou mais de idade. O maior nível de ocupação do país foi registrado em Fernando de Noronha (PE), com 82,9% da população em idade ativa ocupada. Em seguida aparecem Vila Maria (RS – 78,4%) e Serra Nova Dourada (MT – 78,2%).
Esses resultados contrastam com a média nacional de 53,5% e superam os índices observados nas cinco Grandes Regiões: Nordeste (45,6%), Norte (48,4%), Sudeste (56,0%), Centro-Oeste (59,7%) e Sul (60,3%). No Nordeste, o desempenho geral foi o mais baixo entre as regiões.
A realidade de Fernando de Noronha é considerada atípica, devido ao perfil turístico da economia local, alta formalização e pequena população residente. Mesmo assim, sua posição no topo do ranking reforça o contraste com a maior parte dos municípios nordestinos.
Ocupação é maior entre adultos e homens em todas as faixas etárias
O maior nível de ocupação por grupo etário foi registrado na faixa de 35 a 39 anos (72,8%), seguido pelas faixas de 30 a 34 anos (71,6%) e 40 a 44 anos (72,4%). Os menores índices foram verificados entre os jovens de 14 a 17 anos (11,1%) e os idosos com 65 anos ou mais (14,9%).
Em todas as faixas etárias, o nível de ocupação dos homens foi superior ao das mulheres. Entre os adultos de 35 a 39 anos, 82,6% dos homens estavam ocupados, ante 63,6% das mulheres. Essa diferença persiste ao longo das faixas etárias, indicando desigualdade de inserção no mercado de trabalho por gênero.
No recorte por raça ou cor, o nível de ocupação dos homens variou de 64,6% (pretos) a 61,3% (pardos), enquanto entre as mulheres os percentuais oscilaram entre 47,4% (brancas) e 42,1% (pardas). Entre os indígenas, os índices foram os mais baixos: 48,1% entre os homens e 30,8% entre as mulheres.
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