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TikTok, R$ 200 bi e “não” de Lula: data center gera polêmica por água no Ceará

Anúncio oficial de data center da empresa cjhinesa em Pecém, feito nesta quarta-feira (3) mobiliza governo federal e reacende debate sobre uso da água no semiárido
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A Zona de Processamento de Exportação do Ceará (ZPE Ceará) faz parte do Complexo do Pecém (CIPP S/A), localizado na Região Metropolitana de Fortaleza e onde será instalado o data center do TikTok
A Zona de Processamento de Exportação do Ceará (ZPE Ceará) faz parte do Complexo do Pecém (CIPP S/A), localizado na Região Metropolitana de Fortaleza e onde será instalado o data center do TikTok. Foto: Divulgação

A confirmação do primeiro data center do TikTok na América Latina, feita nesta quarta-feira (3), causou impacto não apenas pelo volume de investimentos — estimado em mais de R$ 200 bilhões —, mas pela polêmica em torno do uso de recursos hídricos em uma região marcada por escassez. A repercussão chegou ao Palácio do Planalto e gerou manifestação direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O empreendimento havia sido licenciado com base na previsão de consumo diário de 19,7 mil litros de água, declarada pela empresa Casa dos Ventos. No entanto, segundo apuração do Intercept Brasil, a Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará (SRH) autorizou posteriormente o uso de até 144 mil litros por dia — um aumento de 7,3 vezes — com base em autodeclaração da própria empresa, sem laudo técnico prévio. A discrepância reacendeu críticas ao modelo de licenciamento ambiental adotado.

Instalado no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), o projeto será executado em parceria com a Omnia, operadora de data centers do grupo Pátria Investimentos, e com a Casa dos Ventos, empresa brasileira do setor de energia renovável. A operação está prevista para 2027.

Estrutura com energia renovável e reúso de água

Segundo comunicado do TikTok, o plano prevê R$ 108 bilhões em equipamentos até 2035, com novos aportes ao longo da década seguinte. A Omnia será responsável pela construção, a Casa dos Ventos pelo fornecimento de energia eólica, e o TikTok pela infraestrutura de processamento.

O data center será alimentado exclusivamente por energia 100% renovável, proveniente de parques eólicos dedicados, e operará com circuito fechado de reúso de água para resfriamento, medida destacada como resposta às preocupações ambientais.

A escolha do Pecém levou em conta conectividade internacional, acesso logístico, incentivos fiscais e viabilidade energética. A estimativa é de mais de 4 mil postos de trabalho na fase inicial, entre diretos e indiretos.

Licenciamento ambiental amplia uso da água

A autorização para o uso de 144 mil litros de água por dia em Caucaia, município com histórico de estiagem, gerou reações de especialistas, comunidades tradicionais e organizações da sociedade civil.

A Casa dos Ventos reconheceu, no relatório ambiental simplificado, que a bacia hidrográfica onde será instalado o empreendimento enfrenta insuficiência para atender à demanda populacional e econômica da Região Metropolitana de Fortaleza. Mesmo assim, o projeto foi classificado como de baixo impacto pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), o que dispensou a exigência de estudo de impacto ambiental (EIA/Rima).

Segundo o Intercept Brasil, o parecer técnico sobre a disponibilidade hídrica foi exigido apenas após a emissão da licença de instalação, e não como condição prévia — o que gerou críticas à condução do processo.

Lula nega uso da transposição para data center

Durante solenidade nesta quarta-feira (3) no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a água da Transposição do Rio São Francisco não será destinada ao data center do TikTok. Segundo ele, a obra federal visa garantir abastecimento humano, não o atendimento a empreendimentos privados.

Eu não iria fazer a transposição do São Francisco para fazer um data center. Estou fazendo para resolver um problema crônico de água para beber e consumo doméstico de milhões de cearenses que precisam”, declarou o presidente.

Lula também fez um apelo direto à diretora de Políticas Públicas do TikTok no Brasil, Mônica Guise: que o empreendimento utilize água reaproveitada, energia renovável e “não mexa na capacidade de consumo do povo cearense”.

O ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que o projeto será “ambientalmente correto”, com uso exclusivo de fontes limpas e sistema de reaproveitamento hídrico.

Obras complementares podem conectar transposição ao Pecém

Embora o governo federal tenha negado vínculo direto entre o projeto e a transposição, obras complementares como o Cinturão das Águas (CAC) e o Ramal do Salgado — com previsão de entrega entre 2026 e 2027 — devem ampliar o fornecimento hídrico à Região Metropolitana de Fortaleza, onde está localizado o Pecém.

Essa conexão futura entre infraestrutura hídrica pública e empreendimentos privados levanta questionamentos sobre os critérios de priorização de uso da água em regiões com alto risco de desertificação.

Projeto reforça polo digital, mas expõe falhas regulatórias

O projeto posiciona o Ceará como novo polo de infraestrutura digital e computação em nuvem, com potencial para atrair novos investimentos vinculados à inteligência artificial e à expansão da economia de dados no Brasil.

Ao mesmo tempo, o caso evidencia lacunas no licenciamento ambiental e na gestão de outorgas hídricas em áreas semiáridas. O Ministério Público Federal acompanha o caso e já solicitou perícia técnica sobre o licenciamento concedido, enquanto entidades locais cobram mais transparência e controle.

Leia mais: Com R$ 12 bi, Rnest dá fôlego ao sonho da Transnordestina em Suape

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