
A exportação de melão, que alcançou 121 mil toneladas em 2025 e posiciona o Brasil como terceiro maior exportador mundial com cerca de 10% do volume global, enfrenta perdas financeiras na pós-colheita causadas por fungos do gênero Fusarium que infectam a planta desde o estágio de muda. Um estudo conduzido em Mossoró pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) e pelo The Connecticut Agricultural Experiment Station (CAES), dos Estados Unidos, identificou 14 espécies do fungo na região produtora, entre elas o F. pseudensiforme, patógeno agressivo ao meloeiro com registros de infecção pulmonar em pacientes imunossuprimidos.
Os estados do Ceará e do Rio Grande do Norte respondem por mais de 77% da produção nacional, segundo o IBGE. A pesquisa foi publicada na revista Plant Pathology em fevereiro de 2026, e uma fotografia produzida a partir dos experimentos foi selecionada para a capa da edição impressa de julho-agosto de 2026 do periódico.
O trabalho foi conduzido pela pesquisadora Maria Costa, sob orientação dos professores Márcia Ambrósio, do Departamento de Ciências Agronômicas e Florestais da Ufersa, e Washington da Silva, do Department of Plant Pathology and Ecology do CAES, com participação de outros sete pesquisadores.
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Contaminação começa no substrato
O estudo contrariou a hipótese de que a infecção nos frutos ocorria durante a colheita. A equipe realizou duas amostragens de campo em quatro momentos distintos do ciclo da planta, analisando tecidos que incluíram raízes, caules, folhas, flores e frutos pós-colheita. Os dados indicam que as raízes abrigam a maior diversidade de espécies de Fusarium e funcionam como ponto primário de entrada do patógeno. A partir de 45 dias de cultivo, todas as partes da planta já apresentavam presença fúngica.
A análise de sementes e substratos identificou que, enquanto as sementes permanecem livres de contaminação devido ao tratamento químico prévio, o substrato utilizado na produção das mudas carrega o fungo. O material introduz o patógeno na lavoura antes mesmo do plantio definitivo.
A pesquisa registrou, pela primeira vez em território brasileiro, a presença da espécie F. silvicola, fungo que provavelmente se propaga por meio de substratos importados e representa ameaça adicional à produção de melão na região.
Flores como porta de entrada
Segundo a pesquisa, a infecção atinge o auge durante a floração. As flores femininas são alvos frequentes devido à presença abundante de néctar, que atrai polinizadores mas também serve de alimento para os microrganismos. Nessas condições, o melão já carrega o fungo desde o primórdio do fruto, o que explica a manifestação tardia da podridão durante o transporte internacional para mercados europeus.
A diversidade dos patógenos inclui o grupo FSSC (Complexo de Espécies de Fusarium solani), que reúne as variantes mais agressivas encontradas no solo da região. O F. pseudensiforme atua como patógeno oportunista, que aproveita brechas no sistema de defesa da planta para colonizá-la.
Além dos danos aos frutos, essa espécie está associada a infecções pulmonares graves em pacientes imunocomprometidos, como pessoas submetidas a transplantes de órgãos.
Manejo integrado como estratégia
Para proteger a produção e a saúde pública, os pesquisadores propõem o manejo integrado das lavouras. A estratégia combina diversas técnicas de controle e inclui o uso de agentes de biocontrole como o Trichoderma e o Bacillus, microrganismos que combatem os fungos nocivos e reduzem a carga de patógenos no ambiente de cultivo.
A pesquisa orienta que os produtores adotem medidas preventivas desde o estágio de produção de mudas, com atenção especial à qualidade dos substratos utilizados. O objetivo é interromper a cadeia de contaminação antes que o fungo alcance as raízes da planta.
O grupo busca agora formas de proteger as flores no campo para reduzir os danos na pós-colheita e viabilizar que o melão chegue íntegro aos mercados de destino.
Livro sistematiza conhecimento sobre a cadeia do melão
O enfrentamento ao Fusarium ganha contexto em uma publicação lançada pela própria Ufersa. O livro “Cultivo do melão para exportação na Bacia Potiguar” (LF Editorial, 2026), organizado por pesquisadores da universidade, reúne em 14 capítulos conhecimentos técnicos e científicos que vão da fenologia e classificação botânica até pós-colheita, comercialização, relações internacionais e prospecção tecnológica.
O professor Nildo Dias, um dos organizadores, destaca que o clima semiárido da Bacia Potiguar, com altas temperaturas, elevada radiação solar e baixa umidade relativa, permite até três safras anuais em áreas irrigadas. A região, que abrange o Rio Grande do Norte e o Ceará, responde por mais de 70% da produção nacional e é o principal polo de melão destinado à exportação.
A obra traz ainda resumos gráficos de pesquisas recentes e capítulos sobre nutrição, fertirrigação, monitoramento hídrico-nutricional, manejo de pragas e doenças e valorização biotecnológica de resíduos do melão. O conteúdo é voltado a produtores, estudantes, pesquisadores e profissionais da cadeia produtiva.
*Com informações da Ufersa
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