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Pesquisa Brasil-EUA identifica fungo que compromete melão de exportação do RN

Estudo da Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa), em Mossoró, e da Connecticut Agricultural Experiment Station foi destaque da Plant Pathology e redefine estratégias para conter o Fusarium nas lavouras de melão potiguar
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  1. Pesquisa Brasil-EUA identifica 14 espécies de Fusarium comprometendo melão do Rio Grande do Norte.
  2. Substrato contaminado introduz patógeno nas mudas antes do plantio definitivo na lavoura.
  3. Brasil exporta 121 mil toneladas de melão em 2025, representando dez por cento global.
  4. Infecção fúngica atinge auge durante floração, com flores femininas como principais portas de entrada.
  5. Raízes abrigam maior diversidade de Fusarium, funcionando como ponto primário de contaminação da planta.
Variedade Goldex, tipo de melão cultivado no Rio Grande do Norte, exibem sintomas de podridão após a inoculação com 14 diferentes espécies do fungo do gênero Fusarium em estudo realizados por pesquisadores da Ufersa e do The Connecticut Agricultural Experiment Station. Foto: Divulgação
Variedade Goldex, tipo de melão cultivado no Rio Grande do Norte, exibem sintomas de podridão após a inoculação com 14 diferentes espécies do fungo do gênero Fusarium em estudo realizados por pesquisadores da Ufersa e do The Connecticut Agricultural Experiment Station. Foto: Divulgação

A exportação de melão, que alcançou 121 mil toneladas em 2025 e posiciona o Brasil como terceiro maior exportador mundial com cerca de 10% do volume global, enfrenta perdas financeiras na pós-colheita causadas por fungos do gênero Fusarium que infectam a planta desde o estágio de muda. Um estudo conduzido em Mossoró pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) e pelo The Connecticut Agricultural Experiment Station (CAES), dos Estados Unidos, identificou 14 espécies do fungo na região produtora, entre elas o F. pseudensiforme, patógeno agressivo ao meloeiro com registros de infecção pulmonar em pacientes imunossuprimidos.

Os estados do Ceará e do Rio Grande do Norte respondem por mais de 77% da produção nacional, segundo o IBGE. A pesquisa foi publicada na revista Plant Pathology em fevereiro de 2026, e uma fotografia produzida a partir dos experimentos foi selecionada para a capa da edição impressa de julho-agosto de 2026 do periódico.

O trabalho foi conduzido pela pesquisadora Maria Costa, sob orientação dos professores Márcia Ambrósio, do Departamento de Ciências Agronômicas e Florestais da Ufersa, e Washington da Silva, do Department of Plant Pathology and Ecology do CAES, com participação de outros sete pesquisadores.

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Contaminação começa no substrato

O estudo contrariou a hipótese de que a infecção nos frutos ocorria durante a colheita. A equipe realizou duas amostragens de campo em quatro momentos distintos do ciclo da planta, analisando tecidos que incluíram raízes, caules, folhas, flores e frutos pós-colheita. Os dados indicam que as raízes abrigam a maior diversidade de espécies de Fusarium e funcionam como ponto primário de entrada do patógeno. A partir de 45 dias de cultivo, todas as partes da planta já apresentavam presença fúngica.

A análise de sementes e substratos identificou que, enquanto as sementes permanecem livres de contaminação devido ao tratamento químico prévio, o substrato utilizado na produção das mudas carrega o fungo. O material introduz o patógeno na lavoura antes mesmo do plantio definitivo.

A pesquisa registrou, pela primeira vez em território brasileiro, a presença da espécie F. silvicola, fungo que provavelmente se propaga por meio de substratos importados e representa ameaça adicional à produção de melão na região.

Flores como porta de entrada

Segundo a pesquisa, a infecção atinge o auge durante a floração. As flores femininas são alvos frequentes devido à presença abundante de néctar, que atrai polinizadores mas também serve de alimento para os microrganismos. Nessas condições, o melão já carrega o fungo desde o primórdio do fruto, o que explica a manifestação tardia da podridão durante o transporte internacional para mercados europeus.

A diversidade dos patógenos inclui o grupo FSSC (Complexo de Espécies de Fusarium solani), que reúne as variantes mais agressivas encontradas no solo da região. O F. pseudensiforme atua como patógeno oportunista, que aproveita brechas no sistema de defesa da planta para colonizá-la.

Além dos danos aos frutos, essa espécie está associada a infecções pulmonares graves em pacientes imunocomprometidos, como pessoas submetidas a transplantes de órgãos.

Manejo integrado como estratégia

Para proteger a produção e a saúde pública, os pesquisadores propõem o manejo integrado das lavouras. A estratégia combina diversas técnicas de controle e inclui o uso de agentes de biocontrole como o Trichoderma e o Bacillus, microrganismos que combatem os fungos nocivos e reduzem a carga de patógenos no ambiente de cultivo.

A pesquisa orienta que os produtores adotem medidas preventivas desde o estágio de produção de mudas, com atenção especial à qualidade dos substratos utilizados. O objetivo é interromper a cadeia de contaminação antes que o fungo alcance as raízes da planta.

O grupo busca agora formas de proteger as flores no campo para reduzir os danos na pós-colheita e viabilizar que o melão chegue íntegro aos mercados de destino.

Livro sistematiza conhecimento sobre a cadeia do melão

O enfrentamento ao Fusarium ganha contexto em uma publicação lançada pela própria Ufersa. O livro “Cultivo do melão para exportação na Bacia Potiguar” (LF Editorial, 2026), organizado por pesquisadores da universidade, reúne em 14 capítulos conhecimentos técnicos e científicos que vão da fenologia e classificação botânica até pós-colheita, comercialização, relações internacionais e prospecção tecnológica.

O professor Nildo Dias, um dos organizadores, destaca que o clima semiárido da Bacia Potiguar, com altas temperaturas, elevada radiação solar e baixa umidade relativa, permite até três safras anuais em áreas irrigadas. A região, que abrange o Rio Grande do Norte e o Ceará, responde por mais de 70% da produção nacional e é o principal polo de melão destinado à exportação.

A obra traz ainda resumos gráficos de pesquisas recentes e capítulos sobre nutrição, fertirrigação, monitoramento hídrico-nutricional, manejo de pragas e doenças e valorização biotecnológica de resíduos do melão. O conteúdo é voltado a produtores, estudantes, pesquisadores e profissionais da cadeia produtiva.

*Com informações da Ufersa

Leia mais: Banco do Nordeste financia avanço das frutas brasileiras no mercado europeu

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