
O mercado automotivo brasileiro cresce e muda de perfil ao mesmo tempo. Os números divulgados nesta quinta-feira (2) pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) sobre os emplacamentos do primeiro semestre confirmam as duas tendências. De um lado, a motocicleta se consolida como ferramenta de trabalho para milhões de entregadores e autônomos. De outro, os eletrificados passam de nicho para faixa de volume, com 201.173 unidades vendidas de janeiro a maio de 2026, o dobro do registrado no mesmo intervalo de 2025. Com três operações, Bahia, Pernambuco e Ceará concentram linhas de produção de veículos eletrificados no Nordeste, da montagem de kits importados (PACE) à fabricação com nacionalização crescente (BYD) e à hibridização flex (Stellantis).
No total, o semestre fechou com 2.715.403 veículos emplacados, alta de 16,01%. Automóveis e comerciais leves responderam pelo maior volume no semestre, com 1.359.107 unidades e alta de 20,11%. Motos somaram 1.174.459 (+14,10%). Caminhões e ônibus foram os únicos segmentos em queda, com 61.020 unidades e retração de 9,09%.
O presidente da Fenabrave, Arcelio Junior, vinculou o desempenho do semestre à convergência entre demanda, renovação de frota e incentivos públicos. “Há demanda e renovação de consumo, apesar da sensibilidade às taxas de juros. Programas como o Carro Sustentável, lançamentos e promoções das marcas também têm influenciado, positivamente, no mercado”, afirmou.

Elétricos e híbridos dobram de volume
De janeiro a maio, automóveis e comerciais leves com motorização elétrica ou híbrida somaram 190.457 unidades, alta de 105,5%. Os elétricos puros alcançaram 69.347 unidades (+181,50%). Os híbridos chegaram a 121.110 (+77,96%) e dobraram na comparação entre maio de 2025 e maio de 2026 (+100,20%). Motocicletas elétricas registraram 10.254 unidades (+113,3%), ônibus eletrificados somaram 311 (+12,27%) e caminhões, 151 (+0,7%).
Parte desses veículos já sai de fábricas nordestinas. Em Camaçari, a BYD inaugurou em outubro de 2025 a maior planta de veículos elétricos da América Latina, ocupando 4,65 milhões de metros quadrados da antiga fábrica da Ford. O complexo opera em dois turnos desde março de 2026, ultrapassou 10 mil unidades produzidas nos primeiros 45 dias e mantém três modelos na linha: Dolphin Mini, King e Song Pro. A capacidade instalada é de 150 mil veículos por ano na primeira fase, com meta de 600 mil quando o projeto estiver completo. O investimento totaliza R$ 5,5 bilhões, o quadro já supera 3.200 trabalhadores e mais 3 mil contratações foram anunciadas em março. A partir de agosto de 2026, mais de 30% dos componentes devem ser fabricados no Brasil, habilitando exportações para a América Latina e a Europa.
“Os híbridos têm se mostrado uma alternativa importante dentro da transição energética. Eles atendem consumidores que buscam eficiência e valorizam autonomia, praticidade e adaptação mais simples ao uso cotidiano”, afirmou Arcelio Junior. Sobre os elétricos puros, o dirigente avaliou que “o mercado segue em expansão, e agora vive uma fase de consolidação no Brasil. A evolução depende não apenas da oferta de veículos, mas também de infraestrutura, informação ao consumidor e previsibilidade regulatória”.
Goiana e Horizonte ampliam a oferta
Em Goiana (PE), o Polo Automotivo da Stellantis completou dez anos em 2025 com 2 milhões de veículos produzidos. A planta opera com capacidade de 280 mil unidades por ano, em três turnos, fabricando modelos da Jeep, Fiat e Ram, com 14.700 empregos diretos e indiretos e impacto estimado de 60 mil postos no estado. A Stellantis destinou R$ 13 bilhões em investimentos entre 2025 e 2030 para seis novos modelos, incluindo o primeiro veículo com tecnologia Bio-Hybrid, previsto para 2026, que combina motorização eletrificada com motores bicombustível etanol-gasolina. Em novembro de 2025, a empresa confirmou que a chinesa Leapmotor será a quarta marca produzida na planta pernambucana, com o primeiro elétrico puro a sair da linha de Goiana.
Em Horizonte (CE), a PACE (Planta Automotiva do Ceará), operada pela Comexport nas instalações da antiga fábrica da Troller, funciona como a primeira planta multimarcas do país. A GM já monta os modelos elétricos Chevrolet Spark e Chevrolet Captiva EV. Em 25 de junho de 2026, a MG Motor, controlada pelo grupo chinês SAIC, oficializou a montagem de dois modelos 100% elétricos, o hatch MG4 Urban e o SUV MGS5, com início previsto para outubro. O investimento é de R$ 400 milhões (R$ 60 milhões para adequação da linha e R$ 340 milhões em pesquisa e desenvolvimento), com projeção de 50 mil veículos em quatro anos e 600 empregos. A MG Motor também confirmou o desenvolvimento futuro de modelos com motorização flex para o mercado brasileiro.
Automóveis e comerciais leves lideram
Somados, automóveis e comerciais leves totalizaram 1.359.107 unidades no semestre, alta de 20,11%. Em maio, foram 264.043 emplacamentos nessa faixa, 23,15% acima de maio de 2025. Os modelos incluídos no programa Carro Sustentável registraram vendas 31,4% superiores ao período anterior à sua implementação, considerando o intervalo de 11 de julho de 2025 a 31 de maio de 2026 na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Junho fechou com 488.420 unidades no mercado total, recuo de 0,82% sobre maio, que havia alcançado 492.426 emplacamentos, o segundo maior resultado mensal desde 2011. Na comparação com junho de 2025, o avanço foi de 18,96%.
Para o dirigente da Fenabrave, a redução da taxa básica de juros pelo Banco Central é condição para a continuidade do crescimento. “Qualquer movimento de redução dos juros ajuda a melhorar as condições de compra, influenciando, diretamente, na decisão do consumidor e das empresas”, declarou Arcelio Junior.
Motos caminham para recorde
As motocicletas acumularam 1.174.459 unidades no semestre, avanço de 14,10%. Maio registrou 197.685 emplacamentos, recuo de 6,16% sobre abril, que havia sido o mês de maior volume do ano. “O mês de abril teve um crescimento expressivo e em maio houve uma acomodação de demanda, que segue aquecida no acumulado, demonstrando que esse segmento deverá apresentar novo recorde histórico em 2026”, avaliou Arcelio Junior.
O dirigente vinculou o resultado ao uso profissional do veículo e à busca por alternativas de mobilidade acessível. “A motocicleta segue atendendo a necessidades muito claras do consumidor brasileiro: mobilidade, economia e geração de renda. Ou seja, o segmento cresce sobre fundamentos sólidos e tem, no consórcio, um forte aliado como mecanismo de crédito”, afirmou.
A Fenabrave previa revisar suas projeções anuais no início de julho, com indicações sobre as tendências para os dois trimestres finais de 2026.
Pesados aguardam o Move Brasil 2
Caminhões e ônibus seguem como os únicos segmentos em retração. No semestre, somaram 61.020 unidades, queda de 9,09%. No acumulado até maio, caminhões recuavam 13,64% (38.611 unidades) e ônibus, 11,45% (10.410). Implementos rodoviários acompanharam o ritmo, com 26.463 unidades até maio, queda de 12,68%.
A Fenabrave atribuiu a retração ao compasso de espera pela segunda fase do programa Move Brasil. A primeira etapa operou entre dezembro de 2025 e abril de 2026, com R$ 10 bilhões em incentivos. A segunda, com aporte de R$ 21,2 bilhões, entrou em operação em 29 de maio e abrange caminhões, ônibus, micro-ônibus e implementos agrícolas, com taxas reduzidas, carência e prazos estendidos. “Caminhões dependem de decisões empresariais de longo prazo. Mesmo com necessidade de renovação de frota, o comprador avalia financiamento, previsibilidade de receita e custo operacional antes de investir e, por isso, a 2ª fase do Move Brasil estava sendo bastante aguardada”, afirmou Arcelio Junior.
O Move Brasil, Táxi e Aplicativos, o mais recente dos programas federais, oferece incentivos de até R$ 30 bilhões, com taxas de juros reduzidas e carência de seis meses para automóveis e comerciais leves de até R$ 150 mil, voltados a taxistas e motoristas de aplicativos. A Fenabrave estimou que a medida pode acrescentar mais de 250 mil veículos ao mercado ao longo de 2026.
Sobre ônibus, o dirigente ponderou que a recuperação depende de variáveis que vão além do crédito. “É um mercado de ciclos específicos. A demanda existe, mas depende de projetos, licitações, planejamento de mobilidade e capacidade de investimento dos operadores, o que será beneficiado pelo Move Brasil 2”, afirmou.
*Com informações da Fenabrave
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