
Uma ação promocional criada para engajar consumidores na contagem regressiva para a Copa do Mundo de 2026 acabou gerando um problema inesperado para o varejo. Redes de supermercados em Pernambuco e em diversas regiões do país têm registrado furtos dos rótulos promocionais das garrafas da Coca-Cola, que trazem figurinhas do álbum oficial da Fifa anexadas às embalagens.
O problema ganhou repercussão nacional após consumidores e funcionários de supermercados compartilharem nas redes sociais imagens de prateleiras repletas de garrafas sem os rótulos. No último final de semana, a reportagem do Movimento Econômico constatou a situação em uma unidade de uma rede varejista localizada no bairro da Iputinga, na Zona Oeste do Recife, onde dezenas de produtos estavam expostos sem a identificação original.
A prática, aparentemente simples, provoca consequências para toda a cadeia comercial. Sem o rótulo, os produtos tornam-se impróprios para comercialização. Além de conter o código de barras, a embalagem reúne informações obrigatórias como identificação do fabricante, composição nutricional, lote de fabricação, validade e rastreabilidade. Dessa forma, as garrafas danificadas precisam ser retiradas das gôndolas e separadas para posterior compensação junto à indústria.
Segundo a superintendente da Associação Pernambucana de Supermercados (Apes), Silvana Buarque, o setor foi surpreendido pela situação. “É uma campanha da Coca-Cola como patrocinadora da Copa e acredito que ninguém esperava esse comportamento. Com a proximidade do Mundial, as pessoas, em vez de comprar o produto, estão retirando o rótulo para pegar a figurinha”, afirmou.
A entidade consultou redes associadas para medir a dimensão do problema em Pernambuco. De acordo com Silvana, os registros variam entre ocorrências pontuais e casos mais abrangentes.
“Tivemos relatos de situações isoladas em algumas lojas, mas uma rede nos informou que o problema aconteceu nas oito unidades do grupo. Isso mostra que não é um caso pontual e que está exigindo atenção dos varejistas”, disse.
Mudança na exposição dos produtos da Copa
Diante do aumento das ocorrências, supermercados começaram a adotar medidas para reduzir as perdas. Entre as estratégias estão a transferência dos refrigerantes para áreas mais visíveis das lojas, próximas a caixas, corredores de grande circulação ou locais monitorados por câmeras.
Algumas empresas também passaram a solicitar aos promotores responsáveis pelo abastecimento das marcas que reforcem os rótulos promocionais com fitas adesivas, dificultando sua retirada.
“Alguns lojistas estão pedindo aos promotores que reforcem o próprio rótulo. As redes estão procurando expor esses produtos em locais mais visíveis justamente para reduzir esse tipo de ocorrência”, explicou Silvana.
Apesar dos transtornos operacionais, a representante da Apes afirma que não há registro de falta do produto nas prateleiras. O impacto maior tem sido o trabalho adicional para identificar os itens avariados, retirá-los do ponto de venda e realizar os procedimentos necessários para reposição.
“A dificuldade é que ninguém estava esperando uma situação como essa. Isso acaba levando mais tempo para fazer os ajustes, mas não há desabastecimento”, acrescentou.
Quem paga a conta
Embora os supermercados sejam os primeiros afetados pela retirada dos rótulos, o prejuízo financeiro não fica com o varejo. Como a ação promocional foi criada pela fabricante e os rótulos são parte integrante da embalagem original, a responsabilidade pela reposição dos produtos é da indústria.
“A Coca-Cola é quem faz o ressarcimento. O distribuidor não tem rótulo para colocar e o supermercado também não. O rótulo faz parte da identidade do produto. Sem ele, a mercadoria não pode ser vendida”, explicou Silvana Buarque.
Segundo ela, os estabelecimentos estão separando os produtos danificados para posterior recolhimento e compensação comercial. Como o rótulo reúne todas as informações obrigatórias para comercialização e rastreamento do produto, a simples substituição pelo varejista não é permitida.
Além do custo financeiro da reposição, a situação gera impactos logísticos, demanda controle adicional dos estoques e aumenta o trabalho operacional nas lojas.
Fenômeno nacional
O caso não está restrito a Pernambuco. Relatos semelhantes têm surgido em diferentes estados brasileiros, impulsionados pela popularidade das figurinhas da Copa do Mundo e pela tradição de colecionismo associada ao torneio. A ampla circulação de vídeos e fotografias nas redes sociais ajudou a transformar o tema em um fenômeno nacional e chamou a atenção de entidades do setor supermercadista.
Para Silvana Buarque, o episódio revela um comportamento inesperado dos consumidores e acaba produzindo efeitos para toda a cadeia de abastecimento.
“É uma situação que ninguém imaginava enfrentar. Quando uma promoção é criada, a expectativa é aumentar as vendas e gerar engajamento. O que estamos vendo é um efeito colateral que acabou trazendo transtornos para o varejo e para a própria indústria”, afirmou.
O que diz a Coca-Cola
Em nota, a Coca-Cola Brasil informou que suas promoções são desenvolvidas para proporcionar experiências positivas aos consumidores e parceiros e ressaltou que a retirada dos rótulos sem a compra do produto contraria as regras da ação promocional.
“A retirada de rótulos promocionais sem a aquisição de um dos produtos participantes está em desacordo com o regulamento da promoção. Nesses casos, os pontos de venda têm autonomia para adotar as medidas que considerarem adequadas, de acordo com suas políticas internas”, informou a companhia.
A empresa também disponibilizou seus canais de relacionamento para esclarecimento de dúvidas dos consumidores por telefone (0800-021-21-21) ou e-mail ([email protected]).
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