
Com mais de R$ 49 bilhões liberados, aproximadamente nove milhões de operações contratadas e presença em todos os estados do Nordeste, o Agroamigo, programa de microfinança rural do Banco do Nordeste (BNB), completa 20 anos consolidado como um dos maiores programas de microcrédito rural do mundo. Criado em 2005, em um contexto de seca, pobreza e exclusão financeira no campo, o programa ampliou a renda, fortaleceu a agricultura familiar e ajudou milhões de famílias a permanecerem no território. Os números revelam escala e impacto, mas também evidenciam os limites do crédito quando não articulado a políticas estruturantes de infraestrutura, assistência técnica e acesso a mercados.
Quando o Agroamigo foi criado, o meio rural nordestino enfrentava uma combinação histórica de dificuldades: baixa renda, escassez de água, informalidade produtiva e dificuldade quase absoluta de acesso ao sistema financeiro tradicional. Mesmo agricultores familiares enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) enfrentavam barreiras para obter crédito, seja pela falta de garantias reais, seja pela ausência de produtos financeiros adaptados à realidade do semiárido.
O Banco do Nordeste estruturou o Agroamigo a partir de uma lógica distinta. O programa passou a operar com a metodologia do microcrédito produtivo orientado, na qual o agente de crédito vai até a propriedade, conhece a realidade produtiva, constrói uma relação de confiança e acompanha a aplicação dos recursos. O crédito deixa de ser apenas uma operação financeira e passa a ser parte de um processo de orientação, planejamento e permanência no campo.
O Agroamigo atende agricultores familiares enquadrados no Pronaf, exceto os grupos A e A/C, por meio de duas modalidades. O Agroamigo Crescer é voltado a agricultores do Pronaf B, enquanto o Agroamigo Mais atende produtores com renda bruta anual de até R$ 360 mil, enquadrados no Pronaf V. Os recursos podem financiar atividades agrícolas, pecuárias e não agropecuárias no meio rural, como agroindústria caseira, pesca artesanal, turismo rural, serviços e artesanato.
Escala, capilaridade e peso econômico
Em duas décadas, o programa ganhou escala e se espalhou por todo o território atendido pelo BNB. No acumulado histórico, o Agroamigo já desembolsou mais de R$ 49,4 bilhões, em cerca de 8,79 milhões de operações, atendendo milhões de agricultores familiares. Apenas nos últimos cinco anos, foram mais de R$ 33 bilhões, com mais de três milhões de operações contratadas.
No Ceará, por exemplo, em 2025, o Banco do Nordeste liberou mais de R$ 3,3 bilhões em microcréditos, com o meio rural como um dos pilares dessa política. A predominância da pecuária ajuda a explicar esse volume. Mais de 80% das contratações do Agroamigo estão ligadas a atividades pecuárias, que exigem capital recorrente para alimentação, manejo e reposição de rebanhos. Somente no setor pecuário, são mais de 182 mil operações ativas, com destaque para a bovinocultura, seguida pela suinocultura e ovinocultura.
Do Sertão de Pernambuco à autonomia produtiva
Em Custódia, no Sertão pernambucano, a agricultora Josefa Barros encontrou no Agroamigo o caminho para viabilizar um sonho antigo. “Antes de conhecer o Agroamigo, a minha vida era repleta de sonhos que eu não sabia como realizar. Porque eu não tinha o principal, que era o dinheiro para investir”, afirma.
Dona Josefa já possuía um pequeno laticínio e máquinas adquiridas por meio de um projeto, mas não conseguia utilizá-las plenamente. “A conta de energia vinha muito alta. O que eu ganhava com a venda dos produtos só dava quase para pagar a energia”, relata. A virada ocorreu quando acessou o financiamento para energia solar. “Depois desse financiamento, consegui diminuir a mão de obra. Tudo que eu fazia de maneira manual, hoje faço nas máquinas.”
Segundo ela, o lucro do negócio aumentou 80% após o investimento. Mais do que o recurso financeiro, o acompanhamento fez a diferença. “As visitas do agente do banco só chegam para somar. Ele ensina de uma forma que a gente da agricultura entende. Quando você tem um agente que se preocupa com você, é bom demais.”

O crédito também ampliou a produção da família. O esposo de Josefa contratou financiamento para a compra de cabras. “Antes tirávamos pouco leite. Depois da compra das cabras, passamos a tirar 500 litros. Tenho recibos para comprovar. Eu sou a prova viva de que esse trabalho transforma vidas”, destaca.
Fruticultura irrigada e convivência com a seca no Ceará
No Cariri cearense, a agricultora Priscila Ferreira de Lima, de Nova Olinda, construiu um sistema produtivo diversificado a partir de um espaço mínimo. “De início tínhamos apenas um quintal de aproximadamente 1.500 metros quadrados, mas ali mesmo a gente já produzia pitaya, atemoia, cacau, banana, manga, uva, abacate, limão, caju, acerola”, conta. A produção incluía ainda piscicultura em um pequeno barreiro.

A renda inicial estimulou a expansão. “Fomos pegando gosto pela coisa e pensamos em abranger mais”, diz. Com apoio da Ematerce, Priscila conheceu o Agroamigo. O primeiro financiamento, de R$ 5 mil, foi usado para cavar um barreiro, garantindo água para a produção. Ao longo dos anos, ela e o esposo realizaram sete operações, com valores crescentes. “O último já foi de R$ 19 mil, para plantação de pitaya.”
Atualmente, a família vive exclusivamente da produção rural em uma área de aproximadamente 15 mil metros quadrados, com fruticultura irrigada, hortas, piscicultura, criação de suínos e produção de pintos. “Foi com a ajuda do Agroamigo, com seus bons parcelamentos e bônus, que chegamos onde estamos hoje. Quem vem de baixo precisa de ajuda para iniciar”, afirma.

Em Arapiraca, no Agreste de Alagoas, a agricultora Sebastiana Leandro Melo representa outra face do impacto do microcrédito rural: a permanência de famílias inteiras no campo por meio da agricultura agroecológica. “Nasci em uma família de agricultores e cresci trabalhando na roça. Até hoje não conheço outra profissão”, relata.
Há mais de 20 anos, ela trabalha com produção de verduras agroecológicas ao lado do esposo e dos filhos. “Criei meus filhos com esse trabalho nas feiras, não como feirante, mas como agricultora”, afirma. A produção inclui brócolis, alho-poró, tomate-cereja, macaxeira e outras hortaliças.
A busca pelo Agroamigo veio em um momento de aperto financeiro. “Procurei o Agroamigo por necessidade. Me vi sem condições de estar trabalhando, comendo e investindo na roça ao mesmo tempo”, conta. O crédito permitiu investimentos estruturantes. “Foi uma luz no caminho. Com o crédito compramos irrigação, ampliamos a produção e adquirimos uma bomba para poço artesiano.”
Os efeitos foram imediatos. “Com o investimento em irrigação e cacimba, aumentamos a produção e a renda familiar. Antes estávamos em uma ou duas feiras por semana, hoje estamos em quatro feiras”, afirma. O próximo passo já está planejado. “Pretendo, no futuro, investir em um transporte. Hoje pago frete para ir para Maceió.”
Microcrédito garante renda o ano inteiro
No povoado Açu Velho, em Lagarto, no interior de Sergipe, o Agroamigo impulsionou uma trajetória menos tradicional, mas cada vez mais presente no meio rural nordestino: a diversificação produtiva com foco em nichos de mercado, venda direta e uso intensivo de pequenas áreas.
É nesse contexto que se insere a história de Ana Larissa André de Santos e do marido, Tiago do Nascimento Dias, produtores rurais e proprietários da Floricultura Santo Antônio, empreendimento familiar especializado na produção de plantas suculentas e ornamentais. O negócio funciona em um sítio de 1,7 hectare.
O primeiro financiamento do Agroamigo, contratado entre 2019 e 2020, foi direcionado à criação de ovinos. Com as dificuldades climáticas e de mercado, veio a decisão de mudar de rota. Um novo crédito permitiu um salto estrutural: a construção de um viveiro com cobertura de policarbonato, sistema de irrigação por aspersão e espaço adequado para atendimento ao público. “Esse segundo crédito foi o divisor de águas”, afirma Tiago.

A floricultura começou a operar de forma estruturada em 2023 e passou a garantir renda ao longo dos 12 meses do ano, rompendo com a sazonalidade típica da agricultura tradicional. A operação é totalmente familiar. Não há funcionários. Larissa cuida da produção, da personalização das lembrancinhas, do marketing digital e das redes sociais. Tiago responde pelo manejo agrícola, logística e estratégia comercial.
As vendas ocorrem principalmente pelas redes sociais (@floriculturasantoantonio), com entregas em Lagarto, Aracaju, Itabaiana, Estância, Nossa Senhora do Socorro e outros municípios sergipanos. O alcance já ultrapassou o estado. “Já vendemos para a Bahia e outras regiões”, afirma. Recentemente, após se formalizar como produtora rural, Larissa passou a vender também pelo Mercado Livre, ampliando o alcance nacional.
No atacado, as suculentas são comercializadas a partir de R$ 4,50 a unidade. As lembrancinhas personalizadas, muito procuradas para casamentos e eventos, custam a partir de R$ 5,50, com margem elevada devido ao controle total da cadeia produtiva. “A gente produz o substrato, reaproveita materiais, usa adubo das galinhas, carvão vegetal e até fibra de coco. Isso reduz custo e torna o produto único”, detalha Tiago.
Os planos incluem a conclusão da casa própria, a perfuração de um poço artesiano e a expansão das vendas para todo o Brasil. “A ideia é levar o nome de Lagarto para fora, mostrar que dá para viver do verde com dignidade, organização e acesso ao crédito certo”, resume Larissa.
Logística no interior cearense
Em Farias Brito, no interior do Ceará, a trajetória da produtora rural Maria Aldair Ferreira ilustra como o microcrédito pode atuar não apenas no aumento da produção, mas, sobretudo, na mudança do modelo de negócio no campo, ao permitir agregação de valor, redução de custos estruturais e acesso direto a mercados.
O sítio da família foi adquirido em 2015 com uma finalidade distante da atividade econômica. “No início, o propósito era só para lazer”, relembra. A transformação começou de forma gradual, mas ganhou ritmo a partir de 2019, com o início da pandemia da Covid-19. A família passou a morar permanentemente na propriedade e a conviver mais intensamente com a produção agrícola. “Começamos a colher muitos frutos, como maracujá, goiaba e cajá”, conta.
O aumento da produção, no entanto, trouxe um problema recorrente no meio rural: a baixa remuneração na venda in natura. “A venda das frutas era muito desvalorizada”, afirma Maria Aldair. A dependência de atravessadores reduzia drasticamente a margem de lucro, tornando a atividade pouco sustentável no longo prazo. Foi nesse contexto que surgiu a decisão estratégica de beneficiar a produção, transformando frutas frescas em polpas, agregando valor e ampliando o tempo de comercialização.
A transição exigiu mais do que vontade. Foi necessário regularizar o empreendimento, atender às exigências sanitárias e acessar novos canais de comercialização. “Comecei a pesquisar sobre polpas de frutas, entrei em contato com instituições que me ajudaram, iniciei toda a documentação e me registrei no Mapa”, relata. A formalização abriu as portas para a participação em chamadas públicas, tanto do município de Farias Brito quanto de cidades vizinhas, a partir de 2021, garantindo mercados institucionais e previsibilidade de demanda.
Com o crescimento da produção e a ampliação das vendas, um novo gargalo apareceu: o custo da energia elétrica. O processamento de polpas exige freezers, câmaras frias e equipamentos que consomem energia de forma contínua. “O valor da energia consumida era muito alto”, conta. A solução veio por meio do microcrédito do Banco do Nordeste.
“Recorri ao BNB e fui atendida com muita eficiência. Consegui um financiamento maravilhoso, com dez anos de prazo para pagar e juros muito baixos”, afirma. O crédito foi direcionado à implantação de um sistema de energia solar, reduzindo drasticamente os custos fixos do empreendimento. A economia gerada permitiu reinvestir na produção, ampliar o plantio de frutas e fortalecer o capital de giro.
O segundo movimento estratégico envolveu a logística. Com o aumento das vendas e a participação em chamadas públicas, a dependência de transporte terceirizado passou a limitar o crescimento do negócio. “Vimos a necessidade de adquirir um carro para facilitar as entregas das polpas”, relata. Mais uma vez, o financiamento do Banco do Nordeste viabilizou a aquisição de um veículo Saveiro, com prazo de cinco anos e juros considerados baixos pela produtora.
Atualmente, o empreendimento de Maria Aldair opera de forma estruturada, integrando produção agrícola, beneficiamento, armazenamento e distribuição. A atividade gera trabalho para aproximadamente cinco pessoas, entre familiares e colaboradores, e mantém capital de giro suficiente para compras à vista. “Conseguimos sempre trabalhar com um pouco de capital de giro para adquirir materiais à vista e conseguir descontos especiais”, afirma.
*Com reportagem de Antônio Carlos Garcia, Bruno Brandão, Edward Pena e edição de Patricia Raposo
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