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Estudo aponta bagaço da cana como solução a térmicas e curtailment

Pesquisa da Embrapa aponta que biomassa de cana gera energia firme durante a seca, com emissão 5 vezes menor que diesel. Nordeste concentra 9% da produção nacional. Geração noturna complementa solar e hidrelétricas
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Segundo estudo da Embrapa, a bioeletricidade da cana pode operar de forma complementar à geração hidrelétrica e solar, reforçando a segurança do sistema nacional. Foto: Freepik

A geração de energia elétrica a partir do bagaço da cana-de-açúcar pode substituir fontes fósseis em períodos críticos do sistema elétrico nacional. A biomassa da cana oferece geração firme — com fornecimento constante — e apresenta emissão de carbono cinco vezes inferior à de termelétricas a diesel, de acordo com estudo conduzido pela Embrapa Meio Ambiente.

Com produção concentrada durante os meses de seca, o bagaço permite geração noturna e contínua, o que complementa as limitações operacionais da energia solar, restrita ao período diurno. Em algumas regiões, essa complementaridade evita o curtailment — termo usado para descrever a restrição de injeção de energia na rede elétrica por sobrecarga ou limitação de escoamento em horários de pico.

Segundo o estudo, publicado na revista Renewable Energy, a pegada de carbono da bioeletricidade da cana é de 0,227 kg de CO₂ equivalente por kWh, contra até 1,06 kg por kWh nas térmicas a diesel. A biomassa também se diferencia por não adicionar carbono novo à atmosfera: a planta absorve CO₂ durante a fotossíntese e, após ser processada, parte desse carbono é liberada na queima do bagaço — em um ciclo já compensado pelo crescimento de novas lavouras.

Bioeletricidade complementa hidrelétricas e energia solar

A pesquisa aponta que a bioeletricidade da cana pode operar de forma complementar à geração hidrelétrica e solar, reforçando a segurança do sistema nacional em períodos de estiagem prolongada e instabilidade climática.

Outro diferencial é a possibilidade de priorizar sua geração durante a noite, o que não é possível com a energia solar. A biomassa, por ser uma fonte despachável, pode ser ativada em momentos de maior demanda ou quando outras fontes são limitadas.

Essa flexibilidade operacional posiciona a biomassa da cana como uma solução estratégica para a matriz elétrica, substituindo com menor impacto ambiental o uso de térmicas a combustíveis fósseis.

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O Nordeste concentra cerca de 9% da produção nacional de cana-de-açúcar, com capacidade para geração de energia. Foto: José Roberto Miranda/Embrapa Territorial

Baixo impacto ambiental e integração agroenergética

Além da baixa emissão de carbono, a bioeletricidade da cana se baseia em um resíduo já disponível da cadeia produtiva de alimentos (açúcar) e biocombustíveis (etanol).

O estudo reforça que esse modelo está alinhado ao conceito de agricultura climaticamente inteligente, que integra produtividade agrícola, redução de emissões e adaptação às mudanças climáticas.

Segundo o pesquisador Vinicius Bufon, da Embrapa Meio Ambiente, o diferencial da biomassa da cana está no uso eficiente do que já é produzido: “Tudo isso lhe dá um papel estratégico para a segurança energética e para a transição rumo a um sistema mais sustentável e equilibrado”, afirma.

O estudo foi desenvolvido no âmbito do doutorado da pesquisadora Jasmim Zevallos, com participação de Zita Sebesvari, da Universidade das Nações Unidas, e Jakob Rhyner, da Universidade de Bonn. Os resultados foram publicados nas revistas Environmental Advances e Renewable Energy.

Nordeste pode ampliar cogeração com estrutura já instalada

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Nordeste concentra cerca de 9% da produção nacional de cana-de-açúcar, o que equivale a aproximadamente 60 milhões de toneladas na safra 2024/2025. Alagoas, Pernambuco e Paraíba lideram o cultivo na região.

As usinas instaladas em polos como a Zona da Mata pernambucana, o litoral norte alagoano e a Mata Paraibana possuem potencial para cogeração elétrica com uso do bagaço, especialmente entre setembro e fevereiro, quando se intensificam as restrições hídricas.

A localização das unidades industriais próximas aos centros de carga permite reduzir perdas de transmissão e otimizar a operação do sistema. A produção de energia a partir de um subproduto agrícola também favorece a economia circular e amplia a competitividade da agroindústria canavieira na região.

*Com informações da Embrapa

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