
Uma startup criada por uma empreendedora alagoana está expandindo suas fronteiras e se preparando para internacionalizar uma solução tecnológica que ajuda empresas a prevenir o assédio e a gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Fundada por Meline Lopes, a Sandora foi a grande vencedora do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios 2025, na categoria Ciência e Tecnologia, e agora se prepara para levar sua experiência para o Canadá, Espanha e Portugal.
A Sandora nasceu no auge da pandemia, a partir de um incômodo real e recorrente vivido por sua fundadora com a exposição das mulheres à violência institucional, moral e sexual no ambiente de trabalho. Inicialmente idealizada como um marketplace de serviços voltado ao público feminino, a plataforma foi se transformando conforme Meline aprofundava suas pesquisas e ouvia relatos de outras mulheres. A virada, segundo contou a criadora, aconteceu quando ela percebeu que mais de 60% das mulheres que entrevistava já haviam sofrido algum tipo de violência no trabalho e mais de 80% nunca haviam denunciado.
“Eu me perguntava por que tantas mulheres tinham dificuldade de se vender e se posicionar no mercado. Será que era técnica ou será que o assédio e essas violências impactam realmente na forma como a gente se vê e, consequentemente, como se coloca profissionalmente?”, relembra Meline. A pergunta virou chave. E a Sandora passou a atuar onde poucos negócios de tecnologia ousam entrar: na dor silenciosa das relações de poder.
A Sandora é uma das startups impulsionadas pelo Instituto Atlântico, Instituição de Ciência e Tecnologia (ICT) de natureza privada, sem fins lucrativos, que há mais de 20 anos atua no desenvolvimento de soluções inovadoras em Tecnologia da Informação e Comunicação – TIC. O foco de sua atuação está nas áreas da indústria eletroeletrônica, energia e Indústria 4.0. Instituído pelo CPQD e pela Padtec, tem sede em Fortaleza (CE) e forte presença nacional e internacional.
Sandora usa IA para prevenir assédio
A virada institucional da startup veio com o surgimento da Lei 14.457/2022, que modificou a Norma Regulamentadora de Segurança e Saúde no Trabalho (NR-5) e tornou obrigatória a prevenção ao assédio nas empresas. A norma alterou, inclusive, o nome da CIPA que passou a ser Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio. A partir daí, a Sandora passou a oferecer uma solução tecnológica capaz de ajudar as empresas a se adequarem à legislação com ferramentas práticas e seguras.
A plataforma inclui módulos como canal de denúncias anônimo, documentação jurídica personalizada, capacitações obrigatórias, atendimento jurídico e psicológico, além de um sistema de mensuração de riscos psicossociais. A Sandora também se destaca por ser a única plataforma brasileira com inteligência artificial preditiva voltada à prevenção desses riscos. “Nosso sistema gera alertas antes que o dano aconteça. A gestora já recebe um painel com indicadores de risco e planos de ação automatizados”, explica Meline.
Hoje, a startup contabiliza 15 mil vidas protegidas por sua tecnologia, incluindo instituições públicas como a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas, com quem firmou uma parceria piloto para atender policiais militares e civis. “No último Anuário de Segurança Pública, pela primeira vez houve mais policiais mortos por suicídio do que por arma de fogo. Isso é um alerta grave sobre a saúde mental institucional. E a Sandora está aqui para ajudar a prevenir isso”, afirma.

Plataforma vai integrar programas de combate ao assédio em outros países
O trabalho da Sandora começa a ganhar destaque internacional. A startup foi selecionada para integrar programas de internacionalização em três frentes diferentes. No início de outubro, Meline viaja ao Canadá como uma das 15 empreendedoras brasileiras escolhidas pelo Global Startups para explorar o mercado canadense. Depois, em outubro e novembro, ela segue para a Espanha e Portugal, participando do Smart Cities e do Lisboa Summit, dois dos maiores eventos de inovação do mundo. A presença internacional foi viabilizada por iniciativas como Sebrae e Apex Brasil.
A vitória na etapa estadual do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, premiação ocorrida em agosto, também coroou esse momento de ascensão. Além da premiação estadual, a Sandora também foi selecionada pelo Tecnova Alagoas, sendo contemplada com mais de R$ 500 mil em subvenção. Em seu discurso, Meline destacou o protagonismo feminino que sustenta a trajetória da Sandora. “Essa vitória é de todas nós e das mulheres que vieram antes. O Canadá está logo ali, mas é por vocês que a Sandora vai ganhar o mundo”, declarou na cerimônia.
Apesar do reconhecimento, Meline destaca que ainda há barreiras profundas a serem enfrentadas, principalmente quando se trata de ambientes de tecnologia e investimento, majoritariamente masculinos. “Já me vi apresentando a Sandora para bancas totalmente masculinas, e não fazia sentido. Minha startup existe por causa da ausência de escuta nos espaços onde as mulheres deveriam ser ouvidas. Não tenho interesse em negociar com quem não entende a natureza do nosso propósito”, diz.
A empreendedora também alerta para a revitimização recorrente nas empresas. “Muitas vezes, a vítima é transferida de setor, silenciada ou ridicularizada. Já passei por isso. O assédio me afastou do jornalismo, minha primeira profissão. Mas não quis ficar calada. Quis transformar a dor em ferramenta de mudança”, afirma.
Ao falar com outras mulheres que sonham em empreender, o recado de Meline é direto. “Procurem se amparar umas nas outras. No fim do dia, é o que temos. Se não for por você naquele momento, que seja por quem virá depois. Um dia com mais força, outro com menos, mas sempre abrindo caminho para a próxima mulher passar., finalizou.
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