Powershoring: a estratégia para atrair indústria intensiva em energia

O mundo está reorganizando a geografia da produção industrial em torno da disponibilidade de energia limpa

Por Mariana Araújo

A combinação entre energia renovável abundante, infraestrutura portuária estratégica e conectividade internacional está reposicionando o Nordeste no mapa global dos investimentos industriais. Em um momento em que grandes empresas buscam reduzir emissões e aproximar suas operações de fontes limpas e competitivas de eletricidade, a região desponta como um dos territórios mais promissores do mundo para receber indústrias intensivas em energia como data centers, produção de hidrogênio verde, siderurgia de baixo carbono, fertilizantes, química e mineração processada.

Esse movimento vem sendo descrito por especialistas como powershoring, estratégia que consiste em atrair atividades produtivas para locais capazes de oferecer energia renovável em grande escala, com preços competitivos e confiabilidade no fornecimento. Uma possibilidade concreta de reindustrialização em larga escala, capaz de alterar a trajetória econômica de uma região que concentra 27% da população brasileira, mas responde por apenas 14% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

Jorge Arbache: “Nordeste possui um ativo estratégico que poucos territórios no planeta conseguem oferecer em escala”

Na avaliação de Jorge Arbache, sênior fellow do Instituto Clima e Sociedade (iCS), economista e professor da Universidade de Brasília, o Nordeste está diante de uma oportunidade rara. “O mundo está reorganizando a geografia da produção industrial em torno da disponibilidade de energia limpa. E o Nordeste possui um ativo estratégico que poucos territórios no planeta conseguem oferecer em escala”, afirma.

Estimativas conservadoras citadas pelo economista indicam que a região pode atrair entre US$ 15 bilhões e US$ 60 bilhões em investimentos na próxima década, com impacto potencial de até 5% no PIB regional. Dependendo da forma como as cadeias produtivas forem estruturadas, o powershoring pode gerar entre 40 mil e 170 mil empregos diretos qualificados, além de até 350 mil postos de trabalho quando considerados os efeitos indiretos sobre fornecedores, serviços e infraestrutura.

Da exportação de elétrons à captura de valor

O desafio central é evitar que o Nordeste repita um padrão histórico de crescimento baseado na exportação de commodities ou insumos de baixo valor agregado. Hoje, a região já é protagonista na geração de energia renovável. Nordeste concentra 83% da geração solar e eólica nacional, respondendo por 68% de toda a nova capacidade instalada em renováveis no país em 2024, segundo o Relatório de Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração (Ralie) da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

O Instituto Clima e Sociedade (iCS) desenvolveu, em parceria com o Ceplan Consultoria, um estudo para avaliar como o Nordeste pode transformar sua abundância de energia renovável em uma estratégia estruturada de desenvolvimento industrial. O principal objetivo da pesquisa foi avaliar como a região pode converter esse potencial energético em crescimento econômico sofisticado, inclusivo e duradouro, articulando energia, indústria, logística, capital humano, financiamento e governança.

O estudo conclui que o powershoring pode representar uma das maiores oportunidades de investimento da história recente do Nordeste. Além de mapear setores com maior capacidade de atração, o documento propõe a criação do Observatório Powershoring Nordeste para monitorar indicadores econômicos, sociais e ambientais e garantir que os novos empreendimentos estejam integrados às cadeias produtivas locais, evitando a formação de enclaves e ampliando os benefícios para toda a economia regional.

 

Para Paulo Guimarães, CEO e sócio do Ceplan, o potencial energético é comparável a grandes marcos da infraestrutura brasileira. “O Nordeste já instalou o equivalente a duas Itaipus em energia eólica e uma Itaipu em energia solar. Não estamos falando apenas da principal região do Brasil nesse setor, mas de um dos territórios mais competitivos do mundo”, afirma.

Segundo ele, essa vantagem só produzirá desenvolvimento se for convertida em atração de grandes consumidores de energia. “O powershoring é justamente a estratégia de deslocar atividades produtivas intensivas em energia para territórios capazes de oferecer eletricidade limpa, confiável e barata”, pontua.

A lógica é simples. Empresas globais, pressionadas por metas de descarbonização e por exigências de investidores internacionais, tendem a localizar suas novas plantas em regiões com menor pegada de carbono. “Os grandes fundos e grupos industriais já tomaram a decisão de priorizar investimentos sustentáveis. O Nordeste pode se apresentar ao mundo como o território ideal para esse processo”, resume Magalhães.

Para Paulo Guimarães: “O Nordeste é um dos territórios mais competitivos do mundo”

Hidrogênio verde como infraestrutura industrial

Uma das principais apostas para consolidar essa nova fase industrial é o hidrogênio verde e seus derivados, como amônia e metanol verdes. Mais do que produtos de exportação, essas moléculas podem funcionar como insumos capazes de atrair cadeias industriais inteiras.

A CEO da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV), Fernanda Delgado, avalia que o Nordeste reúne um conjunto singular de atributos, como abundância de energia renovável, disponibilidade de áreas, acesso à água e infraestrutura portuária em complexos como Complexo Industrial e Portuário do Pecém e Porto de Suape.

“O Nordeste congrega hoje todos os fundamentos mais atrativos para projetos de hidrogênio, amônia e metanol verdes”, afirma. Em uma primeira etapa, a região tende a receber plantas voltadas à produção dessas moléculas. Em seguida, à medida que os projetos ganhem escala e preços mais competitivos, poderão atrair setores como aço verde, cimento, fertilizantes, vidro, indústria química e alimentos.

Levantamento da ABIHV mostra que o Nordeste concentra alguns dos mais robustos projetos de hidrogênio, amônia e metanol verdes em desenvolvimento no país. Apenas os empreendimentos previstos para entrar em operação entre 2026 e 2030 somam mais de US$ 10 bilhões em investimentos e capacidade combinada de eletrólise superior a 5,4 gigawatts.

O Complexo do Pecém, no Ceará, desponta como o maior hub nacional, reunindo projetos de empresas como Fortescue, Casa dos Ventos, Qair, FRV, Voltalia e EDF. No Porto de Suape, em Pernambuco, destacam-se iniciativas da European Energy e Qair.

Fernanda Delgado, da ABIHV: “Pela primeira vez, estamos largando junto com os principais players globais"

Entre os projetos mais avançados, o Fraternité, da Qair, no Pecém, tem início previsto para 2028, enquanto a planta da Fortescue deve entrar em operação no segundo semestre de 2029. Em Suape, o projeto da Qair está programado para começar em 2032.

Para Fernanda, o Brasil vive uma situação inédita. “Pela primeira vez, estamos largando junto com os principais players globais. Ainda não existe produção comercial em larga escala para exportação no mundo”, analisa.

O avanço, contudo, depende de segurança regulatória. O setor enxerga uma urgência na publicação dos decretos regulamentadores da legislação do hidrogênio de baixo carbono. “O investidor precisa de previsibilidade jurídica para aportar recursos em projetos de grande escala”, destaca a CEO da ABIHV.

Data centers e a industrialização da economia digital

O crescimento da inteligência artificial e da computação em nuvem também está reposicionando o Nordeste como destino estratégico para investimentos em infraestrutura digital. João Xavier, diretor de relações institucionais da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), destaca que poucas regiões do mundo combinam, ao mesmo tempo, energia renovável abundante e acesso direto às principais rotas internacionais de dados.

“Fortaleza é hoje o principal hub de cabos submarinos da América Latina, conectando o Brasil aos Estados Unidos, Europa e África. Essa infraestrutura reduz a latência e torna a região extremamente atrativa para aplicações de inteligência artificial”, afirma. Segundo a ABDC, o Nordeste já abriga 15 data centers, sendo 10 localizados em Fortaleza. O município de Caucaia desponta como novo polo para projetos de grande porte.

João Xavier, da ABDC

Xavier ressalta que data centers exigem energia disponível 24 horas por dia, conectividade robusta, estabilidade regulatória e infraestrutura integrada. Embora não sejam, isoladamente, solução para os problemas estruturais da região, eles têm potencial para estimular escolas técnicas, hotéis, logística e serviços especializados. “O Nordeste reúne condições reais para se consolidar como um dos principais hubs de data centers da América Latina”, afirma.

O powershoring também impõe escolhas estratégicas. Para Jorge Arbache, do iCS, o critério central deve ser a capacidade de gerar empregos qualificados, inovação e encadeamentos produtivos. “O debate precisa sair da lógica de quantos gigawatts vamos produzir para a discussão sobre quanto valor agregado conseguiremos capturar”, afirma.

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