Inteligência artificial na indústria: onde já há ganho real

No Ceará, empresas dos setores de cimento, alimentos, têxtil, calçados e energia já conseguem traduzir esse impacto em números

Por Bruno Brandão

A inteligência artificial entrou na indústria pela via da inovação, mas se consolidou pelos resultados. Nos últimos dois anos, o discurso no setor produtivo mudou: o que antes era tratado como teste ou tendência passou a ser medido em produtividade, redução de custos e ganho de eficiência. No Ceará, empresas dos setores de cimento, alimentos, têxtil, calçados e energia já conseguem traduzir esse impacto em números — e os resultados chamam atenção tanto pelo avanço operacional quanto pela quebra de paradigmas sobre o uso da IA na indústria.

Na Cimento Apodi, em Fortaleza, empresa com unidades industriais no Ceará e no Rio Grande do Norte, a inteligência artificial não é projeto, é operação. O sistema implantado nos moinhos monitora, em tempo real, 276 variáveis do processo industrial: pressão, temperatura, vibração, alimentação, consumo energético, separação do cimento e desempenho dos equipamentos. A cada 30 segundos, o algoritmo processa mais de 2 milhões de combinações possíveis para identificar qual configuração operacional é a mais eficiente naquele exato momento.

“A IA funciona como um copiloto operacional da nossa moagem, acompanhando a planta em tempo real e tomando decisões de otimização continuamente. Pequenas variações operacionais podem gerar impactos relevantes em custo, desempenho e sustentabilidade. A IA reduz essas oscilações e torna a operação muito mais estável, preditiva e eficiente”, explica Hilberto Feitosa, diretor industrial da Apodi.

O resultado não ficou na tela do sistema: chegou à planilha. O ganho de produtividade é de até 13% nos moinhos, crescimento de até 10% na capacidade instalada e redução mensurável nos custos de produção, com menor consumo de energia, água e combustíveis fósseis, além de queda nas emissões de gases de efeito estufa. O investimento total em digitalização e IA superou R$ 6 milhões.

O que chama atenção, porém, não é apenas o valor investido é a maturidade do retorno. Parte do resultado já está sendo percebida na operação atual, em múltiplas dimensões: eficiência, custo, sustentabilidade e capacidade analítica interna. O desafio que antecedeu esses resultados também é revelador.

“O maior desafio não foi desenvolver a tecnologia. Foi garantir que ela gerasse confiança operacional e valor real para o negócio. No ambiente acadêmico, você trabalha com hipóteses. No chão de fábrica, qualquer decisão impacta produtividade, qualidade, consumo energético, custos e segurança operacional”, diz Feitosa. 

Sistema de inteligência artificial monitora 276 variáveis e processa mais de 2 milhões de combinações a cada 30 segundos nos moinhos da Apodi

Onde a IA entrega resultado mais rápido

Antes de detalhar as aplicações, é preciso situar a discussão: a inteligência artificial industrial não é Indústria 4.0 com outro nome. Conectividade, automação, sensores e sistemas integrados são a base. A IA é o que transforma esses dados em decisão e é aí que mora o diferencial.

Na avaliação do Senai Ceará, os ganhos mais rápidos aparecem em três frentes: manutenção, produção e gestão. Cada uma tem uma lógica própria. “Na manutenção, a IA consegue prever falhas antes que elas aconteçam, reduzindo parada de máquinas e prejuízos operacionais. Na produção, a tecnologia ajuda a identificar desperdícios, gargalos e oportunidades de melhoria em tempo real. Na gestão, a IA acelera análise de indicadores, planejamento operacional e tomada de decisão baseada em dados”, afirma Leilael Melo, especialista técnico do Senai.

A manutenção preditiva é a aplicação mais madura e disseminada. O modelo é simples na lógica e poderoso na execução: sensores coletam dados contínuos dos equipamentos, vibração, temperatura, consumo elétrico e algoritmos identificam padrões que antecedem falhas. O alerta chega antes do problema, e a intervenção é planejada, não emergencial. O custo de uma parada não programada em uma linha de produção pode ser devastador; a IA reduz essa imprevisibilidade.

Na produção, a IA atua como um acelerador de visibilidade. Identificar gargalos, calcular eficiência de linha, ajustar parâmetros de processo, tarefas que antes dependiam de análise humana periódica passam a acontecer de forma contínua e automatizada. Em setores como alimentos e têxteis, onde variações afetam diretamente qualidade e desperdício, o impacto é imediato.

Formação de profissionais é o principal gargalo para escalar a IA na indústria. Para o SENAI Ceará, a tecnologia aumenta, e não reduz, a importância do conhecimento técnico industrial no perfil dos trabalhadores - Foto: IA

Na gestão, o resultado é menos visível, mas igualmente relevante. A IA está acelerando a capacidade analítica das lideranças industriais, da leitura de indicadores ao planejamento operacional, passando pela inteligência comercial e pelo controle financeiro mais granular.

“Algumas aplicações simples de inteligência artificial já conseguem trazer ganhos relevantes, principalmente nas áreas de custos, planejamento e análise gerencial. O maior potencial da IA na indústria está no uso estratégico da informação para melhorar produtividade, margem e competitividade  e não apenas na automação de máquinas”, pontua Danielle Porto, Diretora do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF) do Ceará.

Há um paradoxo curioso no mapa da IA industrial: grandes empresas estão capturando mais valor absoluto, mas as pequenas e médias são as que têm mais a ganhar em termos proporcionais. “As grandes indústrias ainda conseguem capturar mais valor absoluto porque possuem mais estrutura tecnológica, investimento e organização de dados. Por outro lado, as pequenas e médias podem ser as maiores beneficiadas proporcionalmente. Quando implantam soluções simples de IA em áreas como estoque, compras, precificação ou planejamento da produção, conseguem ganhos rápidos de produtividade e redução de custos”, explica Porto. 

O Ceará no cenário nacional

O Ceará acumula vantagens estratégicas que criam um ambiente favorável para a adoção de IA industrial: posição geográfica privilegiada, hub de cabos submarinos, crescimento acelerado de data centers, expansão da matriz energética e fortalecimento do setor tecnológico. O Ceará liderou o número de projetos aprovados no Smart Factory, iniciativa nacional voltada à inserção de tecnologias digitais na indústria.

“A transformação digital tem sido uma prioridade crescente para a indústria cearense, embora muitas iniciativas e resultados permaneçam restritos ao ambiente corporativo por questões estratégicas”, diz o economista da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), Guilherme Muchale.

Guilherme Muchale, economista-chefe da FIEC, acredita que a transformação digital é uma prioridade para a indústria - Foto: George Lucas/FIEC

Para atender ao crescente interesse pela IA, o Observatório da Indústria e o Instituto SENAI de Tecnologia vêm conduzindo projetos em inteligência artificial, automação e transformação digital. O IEL, em parceria com o Governo do Estado, qualificou milhares de profissionais em tecnologia. SENAI e SESI ampliam iniciativas em IA, robótica e cultura maker. “Na prática, o que antes aparecia em casos isolados já começa a se tornar mais recorrente. Há aplicações crescentes de IA em manutenção preditiva, automação de processos, logística, eficiência energética e inteligência comercial. Ainda assim, faltam pesquisas estruturadas que permitam mensurar, de forma robusta, impactos agregados em produtividade, margem ou emprego na indústria cearense”, pontua Muchale. 

Separando o hype da realidade

O entusiasmo com inteligência artificial é justificado pelos resultados, mas alimenta expectativas que a tecnologia, por si só, não é capaz de cumprir. Três ilusões comuns precisam ser desmontadas, alertam especialistas no assunto. A primeira é a de que a IA resolve problemas estruturais da empresa. A segunda ilusão é a de que a IA só funciona com grande investimento. A terceira, e talvez a mais perigosa para o setor industrial, é a ideia de que a IA substitui o conhecimento técnico.

“A IA não elimina a necessidade do conhecimento técnico. Na verdade, ela aumenta ainda mais a importância dele. Não adianta formar alguém que sabe usar ferramentas de IA mas não entende como funciona uma linha de produção, um CLP, um sistema supervisório ou uma rotina industrial real”, diz Leilael Melo.

O que está sendo subavaliado, por outro lado, é o potencial da IA no perfil de contratação. O mercado industrial começa a valorizar profissionais com capacidade analítica e habilidade de tomar decisões baseadas em dados. Não é substituição de pessoas pela tecnologia. É mudança de perfil. Tarefas repetitivas e operacionais são automatizadas; cresce a demanda por quem une gestão, tecnologia e visão estratégica.

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