Inovação industrial no NE: região produz tecnologia ou apenas importa soluções?

Entre o software do Porto Digital e o hardware do SENAI Cimatec, indústria nordestina tenta romper dependência de matrizes estrangeiras e nacionalizar inteligência

Por Edward Pena

A geografia da inovação no Brasil está em disputa. Historicamente vista como um polo de montagem que recebe “pacotes fechados” de tecnologia vindos de matrizes no Sudeste ou no exterior, a indústria do Nordeste vive atualmente o desafio de territorializar o desenvolvimento de suas soluções. A pergunta central que ecoa nessa equação é clara: a região está conseguindo produzir sua própria inteligência ou continua sendo uma consumidora de prateleira?

​O debate ganha força diante do descompasso entre o avanço do software e a carência de hardware nacional. No Recife, o Porto Digital, que fatura anualmente mais de R$ 7 bilhões, ainda lida com a percepção de ser um polo de “software puro”, enquanto as fábricas são vistas como redutos de “hardware puro”.

Romper esse isolamento é o foco das novas estratégias de inovação aberta que tentam conectar os algoritmos do Bairro do Recife com as máquinas do Polo Automotivo de Goiana e do Complexo de Suape.

​Fellipe Sabat, superintendente de negócios e produtos do Porto Digital, reconhece que o ecossistema ainda não possui dados precisos sobre quanto do faturamento vem diretamente da indústria local. “A gente não tem esse levantamento relacionado ao faturamento das startups do Porto vinda da contratações de indústrias locais, não temos”, admite. No entanto, Sabat pondera que o posicionamento estratégico do polo é focado naquilo que o Nordeste provou ser resiliente: o desenvolvimento de sistemas.

O abismo entre o código e a máquina

A separação entre quem desenvolve o sistema e quem opera a máquina física ainda é um gargalo. Segundo Sabat, o mercado global de hardware é dominado por gigantes internacionais, o que torna a competição nesse nicho quase inviável para novos clusters locais.

“A gente entende que nós hoje não temos capacidade de desenvolver um cluster de soluções tecnológicas de hardware. A gente tem players de mercado internacionais muito mais consolidados e que estão engolindo tudo. O nosso posicionamento é ser o melhor no nicho de software”, explica o superintendente.

​Apesar dessa limitação no hardware, o Porto Digital afirma que não está distante das fábricas. Desde 2020, o polo atendeu mais de 300 empresas tradicionais para aproximar startups do chão de fábrica em Pernambuco. O foco não é apenas em gestão ou finanças, mas em soluções que deem inteligência às máquinas, mesmo que o componente físico venha de fora.

Superintendente de Negócios e Produtos do Porto Digital, Fellipe Sabat, fala das ações do Ponte Tech. Foto: Porto Digital/Divulgação

Sabat reforça que, para entregar projetos completos de Internet das Coisas (IoT), o caminho é o trabalho em rede. “A gente tem diversas soluções voltadas para a indústria, mas que não compõem hardware. Quando a gente tem alguma solução que necessita de hardware, a gente entra em parceria com o Senai e montamos projetos em rede”, explica.

Para o Porto Digital, o mercado global de hardware é dominado por gigantes internacionais, o que torna a competição nesse nicho quase inviável para novos clusters locais. Foto: Porto Digital/Divulgação

Do "pacote fechado" à solução disruptiva

Na Bahia, o SENAI Cimatec atua no outro extremo da cadeia, focando na pesquisa aplicada para evitar que as multinacionais que se instalam no Nordeste tragam apenas tecnologias prontas. Danilo Luna, gerente executivo no Senai Cimatec, defende que a região já tem plena capacidade para substituir tecnologias importadas, que muitas vezes chegam com custos elevados e desadaptadas à realidade local.

​“Sempre existe espaço para o desenvolvimento de soluções inovadoras locais. E hoje o Nordeste tem plena capacidade para isso”, afirma. Ele ressalta que o desenvolvimento doméstico permite tornar os processos produtivos mais eficientes e adaptados aos desafios regionais, reduzindo a dependência externa.

Na Bahia, o Senai Cimatec atua como um dos extremos da cadeia, focando na pesquisa aplicada para evitar que as multinacionais que se instalam no Nordeste tragam apenas tecnologias prontas. Foto: divulgação/Senai Cimatec

Luna destaca que o Cimatec atua em 44 áreas de competência, exportando soluções como robótica subaquática capaz de operar a 3.000 metros de profundidade e inteligência artificial aplicada à supercomputação.

No sertão nordestino, acrescenta, projetos de biocombustível a partir da cultura do Agave mostram que a inovação local também está ligada à transição energética.

Esse modelo de substituição de importações tecnológicas fortalece a soberania industrial do Nordeste e gera propriedade intelectual brasileira. ​A autossuficiência tecnológica do Nordeste, aponta ele, já é visível em áreas de alta complexidade.

A competitividade do desenvolvimento local

O gerente do CIMATEC explica que um dos mitos que o setor tenta derrubar é o de que importar tecnologia seria mais barato do que desenvolvê-la na região. Danilo Luna argumenta que o custo de importar pacotes prontos envolve taxas, contratação de especialistas estrangeiros e repasses contínuos às matrizes. Em contrapartida, o Nordeste oferece hoje instrumentos de fomento que tornam a inovação interna estrategicamente superior.

​“No Nordeste, por outro lado, as empresas têm acesso a diversos instrumentos de fomento à inovação, que apoiam o desenvolvimento tecnológico local e reduzem significativamente os custos. Isso torna o desenvolvimento de soluções na região mais competitivo e estratégico”, explica o executivo.

Além da economia direta, a criação de tecnologia própria gera receita por meio da exportação de conhecimento para outros mercados globais. O exemplo mais emblemático dessa inversão de fluxo é o centro global de desenvolvimento da Ford, instalado dentro do ecossistema do CIMATEC.

Mesmo após encerrar a produção industrial no país em 2021, a empresa preservou parte das operações de engenharia e inovação. O CIMATEC segue sendo parceiro em projetos tecnológicos, desenvolvimento automotivo, testes, pesquisa aplicada e iniciativas ligadas à mobilidade, conectividade e novas tecnologias industriais.

Por lá, atualmente, mais de mil engenheiros nordestinos desenvolvem tecnologias de ponta que são aplicadas em veículos vendidos em todo o mundo. É a prova de que o Nordeste deixou de ser apenas um “montador” para se tornar um “pensador” da indústria automotiva global.

Integração acadêmica e startups

​Para o futuro próximo, a meta é integrar ainda mais o meio acadêmico com o ambiente empresarial. O SENAI CIMATEC prepara a inauguração do Science Park Bahia e do Technology Park, complexos desenhados para conectar universidades de todo o mundo a startups brasileiras. O objetivo é criar um ecossistema único onde a pesquisa científica se transforme rapidamente em produto industrial.

 

​Danilo Luna detalha que essa integração é fundamental para que novas soluções em processos apoiem o desenvolvimento da economia e da sociedade como um todo. Atualmente, o instituto conduz mais de 170 projetos, com uma carteira superior a R$ 1,8 bilhão, atendendo desde microempresas até gigantes como Shell e Petrobras, reforçando o modelo baseado em engenharia avançada.

​O cenário aponta para uma convergência necessária: enquanto o Porto Digital refina a inteligência do código, centros como o Cimatec garantem a sustentação física e a pesquisa pesada. O desafio de produzir tecnologia no Nordeste deixa de ser uma questão de capacidade técnica para se tornar uma questão de coordenação entre os polos.

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