Gargalo de qualificação no NE retira até 20% da produtividade industrial

Descompasso entre aporte em tecnologias 4.0 e formação técnica local eleva custos operacionais e limita o retorno sobre investimento na região

Por Edward Pena

O avanço da digitalização na indústria nordestina enfrenta um limite concreto: a escassez de capital humano preparado para operar tecnologias de fronteira. Embora o cenário macroeconômico aponte para um ciclo de neoindustrialização, impulsionado por investimentos em hidrogênio verde, polos automotivos e infraestrutura digital, a produtividade total dos fatores (PTF) na região é pressionada pelo descompasso entre o CAPEX (investimento em capital) em novas plantas e a qualificação da força de trabalho local.

​Dados do Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027 indicam que o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores em três anos, sendo que a maior fatia (11,8 milhões) se refere à requalificação de quem já está no mercado.

No Nordeste, esse gargalo se traduz em ociosidade tecnológica e elevação do OPEX (custo operacional), uma vez que a subutilização de ativos modernos e a necessidade de “importar” especialistas de outros polos encarecem a produção regional em relação ao Sudeste e ao mercado global.

A neoindustrialização do Nordeste depende da velocidade com que o sistema produtivo eleva a complexidade técnica do trabalhador local, sob pena de a tecnologia se tornar um custo fixo sem o retorno esperado em produtividade e competitividade global. É o que os especialistas entrevistados pelo Movimento Econômico detalham a seguir.

​Em Pernambuco, por exemplo, a projeção é de uma demanda por qualificação de 145.126 trabalhadores até 2027. O estado, que liderou o crescimento do Índice de Atividade Econômica Regional (IBCR) no início do ano com alta de 7%, vê o setor de serviços e a indústria de transformação puxarem a ocupação, mas esbarra na dificuldade de preencher vagas em áreas transversais como Automação, Logística e Tecnologia da Informação (TI).

 

​”O Nordeste já não convive apenas com os antigos entraves ligados à falta de infraestrutura. O desafio atual é transformar tecnologia em produtividade efetiva. Automação, digitalização e inteligência artificial exigem trabalhadores preparados para interpretar informações e adaptar processos. O risco é ter fábricas modernas funcionando abaixo do potencial por falta de trabalhadores preparados”, analisa Edgar Leonardo, economista e coordenador de pós-graduação da Unit.

Custo de oportunidade e ociosidade

A ausência de métricas oficiais sobre o valor monetário da ociosidade não oculta o impacto no balanço das empresas. “Estimamos que a ociosidade por falta de mão de obra qualificada, a capacidade ociosa forçada, retire de 15% a 20% da produtividade potencial das empresas industriais no Maranhão. O prejuízo é o prolongamento do tempo de retorno do investimento, o que afugenta novos aportes”, afirma Edilson Baldez das Neves, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (FIEMA).

​Em Sergipe, a realidade de plantas tecnológicas avançadas força a busca por talentos em outras regiões. “Alguns segmentos em Sergipe recorrem à importação de mão de obra de outros estados para operar plantas tecnológicas. Isso gera custos adicionais com deslocamento e hospedagem, encarecendo a operação e reduzindo a margem de lucro. Além disso, a rotatividade dificulta a transferência de conhecimento para equipes locais”, ressalta Rodrigo Rocha, coordenador da área econômica da Federação das Indústrias do Estado de Sergipe (FIES).

Edilson Baldez das Neves, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (FIEMA)

Integração entre educação e indústria

Para amenizar o gap temporal entre o surgimento de uma inovação e a formação de turmas, o Sistema S tem adotado modelos prospectivos. “O SENAI tem reduzido esse intervalo com uma atuação cada vez mais preditiva. Utilizamos estudos prospectivos e o apoio do Observatório da Indústria para antecipar tendências. Isso permite agilidade na criação de cursos de curta duração, focados em tecnologias emergentes”, explica Patrícia Evangelista, superintendente de Educação Profissional do SENAI Bahia.

Cassiano Pereira, presidente da Federação das Indústrias do Estado da Paraíba (FIEPB) e Associação Nordeste Forte

​Na Paraíba, o investimento em infraestrutura pedagógica tenta simular o ambiente industrial moderno. “Fizemos investimentos para a aquisição de kits didáticos de robótica autônoma com uso de inteligência artificial, plantas smart 4.0 e gêmeos digitais. O empresário entende que investir na qualificação interna fortalece a competitividade e garante alinhamento entre a equipe e as demandas reais”, destaca Cassiano Pereira, presidente da Federação das Indústrias do Estado da Paraíba (FIEPB) e Associação Nordeste Forte.

Matriz energética e novos polos

​A estratégia governamental no Ceará e em Pernambuco vincula a concessão de incentivos à absorção de mão de obra local. “Nos protocolos para novos investimentos, a contratação local é prioridade. O Hub de Combustíveis Sustentáveis e o SENAI Park, em Suape, já formam mão de obra especializada para a indústria verde”, afirma Guilherme Sá, secretário executivo de Energia de Pernambuco.

​No Ceará, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) monitora o impacto de projetos como o Hub de Hidrogênio Verde e Data Centers. “A qualificação técnica e científica passa a ser um diferencial competitivo para o Ceará. Projetos como o H-TEC e o Geração Tech demonstram a visão de integrar educação e inovação”, diz Brígida Miola, secretária executiva da Indústria do Ceará.

Eletrolisador da planta piloto de hidrogênio sustentável do Senai Park, em Suape. Foto: Fiepe/Divulgação

Gargalo na base escolar

Segundo os especialistas, um dos principais entraves à absorção de tecnologias 4.0 reside na deficiência de formação básica em matemática e ciências. Observa-se uma fragilidade nos conhecimentos de base oriundos do ensino regular, o que dificulta o aprendizado de tecnologias 4.0. No SENAI-PE, enfrentamos isso com uma metodologia que reforça matemática e ciências de forma aplicada no chão de fábrica”, explica Ana Dias, diretora de Educação do SENAI-PE.

​A análise é corroborada pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação de Pernambuco. “As universidades estaduais e escolas técnicas são pilares estratégicos. A UPE, por exemplo, desenvolve pesquisas em Gêmeos Digitais e IA para fornos industriais em parceria com empresas como a Vivix, aproximando o conhecimento acadêmico das necessidades reais”, ressalta em nota.

Dinâmica do mercado baiano

Na Bahia, o impacto da falta de qualificação é sentido de forma distinta conforme o porte da empresa. De acordo com Carlos Danilo Peres, especialista da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), a restrição na oferta de mão de obra qualificada não apenas limita o avanço para atividades mais intensivas em tecnologia, como também compromete a sustentabilidade de pequenas e médias empresas, que enfrentam maiores dificuldades para absorver custos.

​O Maranhão, por sua vez, foca na expansão de cursos para 2026. “Registramos 1.802 matrículas em cursos técnicos de TI e Indústria 4.0 em 2025. Para 2026, ampliaremos a oferta com Inteligência Artificial e Segurança Cibernética. Mais de 92,3% dos nossos egressos conseguem inserção imediata”, detalha César Miranda, superintendente da Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (FIEMA).

​Em Sergipe, o currículo técnico já sofreu alterações estruturais para incluir IA. “O SENAI/SE incluiu nas grades curriculares a unidade de Inteligência Artificial aplicada à Indústria. Realizamos workshops com setores produtivos para ouvir as demandas e reduzir o gap entre a tecnologia disponível e o conhecimento operacional”, destaca o SENAI Sergipe em nota.

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