Um dos principais insumos da indústria, a energia tornou-se abundante no Nordeste com a expansão das fontes renováveis, que ocorreu em maior velocidade entre 2020 e 2023. O aumento da geração, no entanto, não se transformou em maior industrialização da região. O excedente veio acompanhado de problemas no setor elétrico, como cortes de geração, gargalos de transmissão e dificuldades de conexão para novos empreendimentos. Faltaram planejamento, política industrial para estimular o consumo local e infraestrutura para escoar a energia, como novas linhas de transmissão para outras regiões do país. Com isso, alguns projetos foram adiados, outros estão sendo reavaliados e parte deles acabou cancelada.
O Nordeste produz mais energia do que consome desde 2020, segundo o gerente do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene) do Banco do Nordeste (BNB), Allison David de Oliveira Martins. Segundo ele, naquele ano a geração foi de aproximadamente 105 terawatts-hora (TWh), frente a uma carga (consumo) de 95 TWh, resultando em um superávit de cerca de 10%.
“Esse superávit avançou nos anos seguintes e chegou a cerca de 45% em 2025, com geração de 171 TWh e carga (consumo) de 117 TWh”, comenta Allison, acrescentando que a região respondeu por 62,5% da expansão da geração centralizada do país em 2024 e por 44,4% em 2025. Geração centralizada é aquela feita por grandes usinas.
Os entraves estruturais citados por Bruno começam nas distorções do próprio setor elétrico. “O custo da energia para a indústria permanece elevado, mesmo em regiões com grande capacidade de geração. Isso ocorre devido à composição tarifária brasileira, que inclui encargos setoriais, subsídios cruzados e custos de transmissão, fazendo com que o preço final não reflita integralmente a competitividade das fontes renováveis”, diz o empresário.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), Bruno Veloso, reconhece que o aumento da produção de energia na região representa “um ativo estratégico relevante, mas não é, isoladamente, suficiente para impulsionar a industrialização na região”, argumentando que “a conversão desse avanço em maior densidade industrial ainda enfrenta entraves estruturais”.
Outro problema do setor elétrico que atingiu o Nordeste foi o corte de geração (também conhecido como curtailment), que passou a ocorrer depois de agosto de 2023, deixando as geradoras de energia renovável em uma situação delicada: passaram a produzir menos do que o previsto, perdendo receita.
A estimativa é que as geradoras de renováveis da região tenham perdido cerca de R$ 6 bilhões somente em 2025, em cálculo feito pela consultoria Volts Robotics. Isso representou um desperdício de cerca de 20,6% da energia solar e eólica que poderiam ter sido produzidas no país no ano passado.
De maneira simplificada, os cortes de geração ocorrem quando há excesso de geração em relação ao consumo em determinado horário — como, por exemplo, pela manhã — ou quando as linhas de transmissão não conseguem escoar a energia para outras regiões. O corte é determinado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Os cortes de geração contribuíram para desacelerar os investimentos que vinham ocorrendo na indústria de energia renovável. Ou seja, o Nordeste perdeu investimentos e empregos que seriam gerados durante a instalação e a operação desses empreendimentos.
“Historicamente, também houve falta de coordenação entre a expansão da oferta de energia e políticas industriais estruturadas, o que contribuiu para um descompasso entre a disponibilidade energética e a atração de novos empreendimentos industriais”, afirma Bruno.
Os outros entraves estruturais citados por Bruno, que também dificultam a atração de novas indústrias, incluem logística, infraestrutura, proximidade dos mercados consumidores, ambiente regulatório e mão de obra qualificada, fatores que influenciam diretamente a localização das plantas industriais. Ainda de acordo com Bruno, na região, “apesar dos avanços em polos ligados ao Porto de Suape e ao Porto do Pecém, ainda existem desafios de integração logística e de adensamento das cadeias produtivas”.
A infraestrutura no Nordeste é mais precária do que a do Sul e Sudeste; além disso, a região está distante dos grandes polos consumidores do país, e a mão de obra, em geral, apresenta menos anos de estudo em comparação com as regiões citadas anteriormente. A implantação de empreendimentos industriais é importante pelos investimentos, pela introdução de novas tecnologias, pela geração de empregos qualificados e pelos salários, que geralmente são mais altos do que os dos demais setores.
A empresa Solatio teve seu parecer de futura conexão ao Sistema Interligado Nacional (SIN) negado pelo ONS em maio do ano passado, juntamente com outros quatro grandes empreendimentos que pretendem se instalar no Nordeste. Inicialmente, o projeto da Solatio — que está sendo implantado no município de Parnaíba, no Piauí — previa investimento de R$ 26 bilhões para implementar uma fábrica que produziria hidrogênio verde, exportando o produto na forma de amônia. A expectativa da empresa era conseguir uma conexão com capacidade de 3 mil megawatts (MW), apontada como viável em estudos preliminares realizados pela própria companhia.
“A última versão do estudo mostrou que cabiam 800 megawatts. Então, em vez de 3.000 MW, só cabiam 800. Com essa redução, a gente não tem a capacidade nem a economia de escala necessárias para montar a infraestrutura local e fazer a exportação do hidrogênio na forma de amônia. Com 3 mil MW, a conta fechava”, explica o CEO da consultoria Singular Energia, Eduardo Azevedo. A Singular Energia prestou consultoria para a Solatio.
Com a futura conexão de 800 MW, a empresa reavaliou o projeto e agora vai implantar no local um data center, que exige menos estrutura física, porque, por exemplo, a “exportação” ocorre digitalmente, sem necessidade de porto ou logística pesada, como infraestrutura portuária.
A CEO da Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde (ABIHV), Fernanda Delgado, afirma que “nenhum projeto de hidrogênio verde foi cancelado por dificuldade de conexão elétrica. O que existe, de forma concreta e já publicamente noticiada, são casos de projetos que tiveram pareceres ou pedidos de garantia futura de conexão negados, o que pode levar à postergação de cronogramas, à reavaliação de investimentos e ao aumento da incerteza sobre a implantação”.
Os pareceres de conexão garantem que a empresa terá conexão ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e energia para funcionar.
A executiva considera que os pedidos negados de conexão configuraram uma situação transitória, com a negativa do operador — o ONS — associada aos riscos de sobrecarga na rede de transmissão e à ausência de reforços estruturais suficientes para atendimento da carga pretendida.
“Sem clareza sobre acesso à rede, disponibilidade de margem de transmissão e cronograma de reforços, os empreendedores enfrentam maior dificuldade para avançar em contratos de energia, financiamento com grandes bancos, decisão final de investimento e compromissos comerciais com compradores. Esse é hoje um dos principais gargalos para a consolidação da indústria de hidrogênio verde no Brasil, especialmente no Nordeste, onde há grande potencial renovável, mas também forte concentração de projetos eletrointensivos em regiões específicas”, comenta Fernanda Delgado.
Tanto Allison David, do Etene, quanto Fernanda acreditam que os problemas com conexões e linhas de transmissão serão resolvidos em um futuro próximo, pois o governo já realizou alguns leilões que resultarão na construção de novas linhas de transmissão, ampliando a capacidade de transportar energia no Nordeste e no Brasil.
Allison afirma que novos projetos de transmissão elevaram a capacidade de escoamento do Nordeste para 20.000 MW, sendo 13.800 MW destinados ao Sudeste/Centro-Oeste e 6.200 MW ao Norte. O planejamento do setor prevê expansão para 25.000 MW em 2030 e 28.000 MW em 2032.
Fernanda argumenta que “para a indústria, especialmente para setores eletrointensivos, como o hidrogênio verde — incluindo amônia, metanol e fertilizantes —, não basta haver geração renovável disponível na região. É necessário que essa energia esteja acessível no ponto de consumo, com conexão garantida, margem de transmissão, segurança operativa, previsibilidade de preço, contratos financiáveis de longo prazo e ambiente regulatório estável”.
A indústria de energias renováveis foi apontada por muito tempo como um setor que contribuiria para o desenvolvimento do Nordeste, região que possui os melhores ventos do país e uma das maiores incidências de radiação solar. No ano passado, 141 usinas — sendo 35 eólicas e 106 solares — devolveram as outorgas de funcionamento à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), responsável pela regulação do setor. Isso significa que os investidores desistiram de implantar esses parques geradores centralizados e deixaram de realizar um investimento total de R$ 18,9 bilhões. Desse total, entre 90% e 95% seriam destinados ao Nordeste.
A desistência foi provocada pelas incertezas do setor elétrico, como os cortes forçados de geração e a falta de linhas de transmissão, fatores que trouxeram prejuízos às empresas do setor na região. E o mais grave: consultores do setor acreditam que parte desses investimentos migrará para outras regiões.
Mesmo com o avanço das renováveis, a indústria do Nordeste tinha participação de 13% no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2020 e permaneceu nesse patamar entre 2022 e 2023, segundo o sócio-diretor da consultoria Ceplan, o economista Paulo Guimarães. Não há dados mostrando esse percentual em 2024 e 2025.
Segundo Paulo, no caso do Nordeste, a consolidação de um bloco significativo de investimentos nas primeiras décadas do século XXI fez com que a região aumentasse sua participação no PIB industrial de cerca de 10%, em 2000, para aproximadamente 13%, em 2020, com a implantação de fábricas das indústrias química, automobilística, petroquímica, de refino de petróleo, de alimentos, de bebidas, de calçados e de confecções. “É um movimento lento e com desafios estruturais inerentes ao setor”, comenta.
Ele lembra também que a “concentração industrial no Sudeste do Brasil foi um processo histórico iniciado na primeira metade do século XX e, embora nas últimas quatro décadas tenha ocorrido certa desconcentração, a região ainda detém cerca de 55% do PIB industrial brasileiro”.
“A presença de energia renovável abundante e de baixo custo é um fator relevante, por se tratar de um insumo fundamental para a indústria, tornando-se uma variável de aumento da competitividade regional. Contudo, é um componente relativamente recente, principalmente quando se trata da capacidade de influenciar a espacialização industrial”, resume Paulo.
E conclui: “É fundamental observar também que a disponibilidade isolada de energia limpa não garante a atração de investimentos, mesmo para grupos com normativos socioambientais relevantes. Há necessidade da presença de outros elementos, como qualidade da infraestrutura — inclusive de armazenamento e distribuição de energia —, eficiência logística e qualificação dos recursos humanos”.