A discussão sobre neoindustrialização no Nordeste passa não apenas por atrair novas fábricas, mas também por adensar cadeias já existentes e reduzir a dependência externa de insumos, componentes e bens intermediários. Em vez de apostar na ideia genérica de produzir tudo localmente, o debate hoje gira em torno de uma pergunta mais concreta: em quais cadeias faz sentido econômico produzir mais na região e agregar valor ao que já existe.
Esse movimento aparece com mais força em setores como química, fertilizantes, fármacos, energia e segmentos ligados à transformação industrial. A lógica é simples: onde já há base produtiva, infraestrutura, demanda e capacidade de articulação, a internalização produtiva pode deixar de ser discurso e se tornar estratégia. Sem isso, a região corre o risco de seguir exportando energia, matéria-prima e potencial de investimento, sem converter esses ativos em densidade industrial.
O superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, resumiu esse desafio ao defender que o Nordeste precisa usar seus próprios ativos para gerar encadeamento produtivo. “Melhor que fazer a linha de transmissão para mandar essa energia lá para o eixo centro-sul, é que nós façamos desenvolvimento regional para que as usemos aqui. Isso chama-se adensamento em cadeia produtiva”, afirmou em evento realizado em Maceió.
A fala ajuda a deslocar o debate do potencial abstrato para uma agenda mais objetiva. A questão não é apenas dispor de energia, território ou incentivos, mas criar condições para que esses ativos sustentem cadeias industriais mais completas, com produção local de insumos e bens intermediários. Nesse ponto, a internalização produtiva aparece como peça central da política industrial.
A ideia de internalização produtiva costuma ser associada, de forma simplificada, à busca por autossuficiência. Mas, na prática, o desafio é outro. O ganho econômico não está em tentar fabricar tudo dentro da região, e sim em identificar etapas das cadeias em que há viabilidade para produzir mais localmente, reduzir vulnerabilidades externas e ampliar o valor agregado.
Esse raciocínio ganhou força depois de choques recentes nas cadeias globais de suprimento. O reitor da Universidade Federal de Alagoas, Josealdo Tonholo, cita justamente a fragilidade exposta em momentos de crise. “A gente vê a nossa dependência externa em coisas tão básicas, como a gente passou agora recentemente na pandemia, em que o Brasil não tinha TNT para fazer máscara. Então, tem muita coisa para fazer”, afirmou.
A observação ajuda a explicar por que a discussão sobre internalização voltou à agenda industrial. Em cadeias como química, saúde, fertilizantes e energia, a dependência de insumos externos afeta custos, previsibilidade e capacidade de resposta da própria indústria. O desafio, porém, é separar o que é desejo do que é viável economicamente.
O avanço dessa agenda, porém, depende de viabilidade econômica concreta. A internalização produtiva não se sustenta apenas por decisão política ou por discurso regionalista. Para que uma etapa produtiva deixe de ser importada ou trazida de outros polos industriais, é necessário que existam condições objetivas para produzir com competitividade.
No Ceará, a Federação das Indústrias do Estado aponta que os principais entraves à produção local, em comparação com os produtos importados, estão concentrados na elevada taxa de juros, na carga tributária e no custo ou disponibilidade de matérias-primas.
“Esses fatores tendem a pressionar os custos de produção e, em diferentes magnitudes, afetam a competitividade da produção local frente aos bens importados, aspecto que é recorrentemente mencionado pelos empresários como um dos entraves enfrentados”, avaliou o economista da FIECE, Guilherme Muchale.
A localização estratégica e a estrutura do Complexo Industrial e Portuário do Pecém são apontadas pela FIECE como fatores que posicionam o Estado como um hub relevante para o comércio exterior e para a internalização de cadeias produtivas voltadas tanto ao mercado interno quanto ao externo. Projetos como o corredor verde de hidrogênio de baixo carbono reforçam esse potencial.
“Além da logística, o Ceará se destaca pela conectividade digital e pela oferta de energia renovável, criando um ambiente favorável à atração de investimentos em data centers, tecnologia e indústria 4.0. Para potencializar esses diferenciais, os investimentos em qualificação da mão de obra, especialmente em tecnologia, logística e energias renováveis, com iniciativas como a instalação do campus do ITA em Fortaleza, são fundamentais”, disse Muchale.
Na Bahia, o Polo Industrial de Camaçari aparece como outro exemplo importante desse tipo de ambiente. O complexo reúne mais de 80 empresas em operação, atua em segmentos como químico-petroquímico, automotivo, pneus, fertilizantes, fármacos, energia eólica e serviços, além de contar com integração operacional entre empresas, central de matérias-primas e disponibilidade de área para novos empreendimentos.
O Comitê de Fomento Industrial de Camaçari (Cofic), em parceria com a Federação das Indústrias do Estado da Bahia/Fieb, prefeituras dos municípios vizinhos, dentre outros parceiros estratégicos, mantêm interlocução permanente com o Governo do Estado, com base numa Agenda Positiva que prevê o mapeamento de oportunidades que contribuam para a sustentabilidade e competitividade do Polo em áreas estratégicas como: matriz energética e sustentabilidade, com ênfase no carbono neutro, hidrogênio verde e gás natural; inovação e tecnologia; formação de mão de obra; cadeias produtivas/ plano diretor; infraestrutura; segurança pública e logística.
“Essas são bases de um compromisso para que o Polo se mantenha competitivo e indutor do desenvolvimento econômico e social da Bahia, por meio da geração de emprego, renda e da atração de novos investimentos”, informou a entidade.
Em Alagoas, o debate sobre internalização produtiva aparece ligado a um esforço de reposicionamento da base industrial do estado.
Esse movimento já começa a ser traduzido em planejamento. No Mapa Estratégico da Indústria de Alagoas 2025–2032, a Federação das Indústrias do Estado de Alagoas apresenta o documento como principal instrumento de planejamento e ação para orientar o futuro do setor produtivo alagoano. O mapa foi construído a partir da integração entre o Programa Renascença, a Nova Indústria Brasil e o Mapa Estratégico da Indústria 2023–2032 da CNI, consolidando uma visão de longo prazo baseada em inovação, sustentabilidade e competitividade.
No ranking estadual de complexidade econômica do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do Banco do Nordeste, Alagoas aparece em 19º lugar nacional, com índice de -0,613. No recorte municipal, os melhores resultados do estado estão em Maceió, Marechal Deodoro, Arapiraca, Rio Largo e Santa Luzia do Norte. O dado sugere que há núcleos mais estruturados, mas ainda sem a escala observada nos principais polos da região.
Ao defender maior protagonismo da indústria na agenda regional, o professor da Ufal Reynaldo Ferreira Júnior chamou atenção para o efeito multiplicador do setor sobre o restante da economia. “Se fala muito de serviço, mas não existe serviço de qualidade sem indústria de qualidade”, afirmou.
Esse raciocínio ajuda a entender por que a internalização produtiva interessa tanto à política industrial. Não se trata apenas de produzir mais dentro da região por uma questão simbólica, mas de fortalecer cadeias capazes de irradiar demanda, serviços, logística, tecnologia e emprego qualificado.
O sucesso desse planejamento dependerá, no entanto, da capacidade do estado de saltar do atual índice negativo de complexidade para um ambiente que não apenas planeje, mas execute a integração tecnológica necessária para sobreviver à nova ordem industrial.