A indústria 4.0 já faz parte da agenda do Nordeste, mas ainda avança em ritmos diferentes dentro da própria região. A digitalização de processos, a automação, o uso de inteligência artificial, a análise de dados e outras soluções voltadas ao ganho de produtividade começam a se consolidar em ambientes industriais mais densos, com maior diversidade produtiva, infraestrutura mais robusta e conexão mais forte com inovação. Em outra ponta, porém, ainda persistem gargalos como acesso limitado a crédito, baixa maturidade tecnológica e dificuldade de transformar inovação em prática cotidiana dentro das fábricas.
Esse descompasso ajuda a explicar por que a modernização da indústria nordestina avança, mas ainda não se dissemina de forma homogênea. Levantamento do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do Banco do Nordeste, mostra que a região aparece em terceiro lugar entre as cinco macrorregiões do país no índice de complexidade econômica com base no emprego, atrás das regiões Sudeste e Sul. O Nordeste tem índice de -0,596, à frente de Norte e Centro-Oeste, mas ainda distante das áreas mais sofisticadas do país.
No recorte por estado, a desigualdade fica ainda mais visível. Apenas Pernambuco e Ceará aparecem com índice positivo. Pernambuco ocupa a décima posição nacional, com 0,123, e o Ceará aparece em 11º, com 0,119. Os demais estados da região aparecem no estudo com resultado negativo. O dado mostra que, mesmo dentro do Nordeste, a base produtiva não parte do mesmo estágio de sofisticação.
Já na análise municipal, Camaçari, na Bahia, lidera o ranking nordestino de complexidade econômica, com índice de 2,876 e 30ª posição no ranking nacional. Em seguida aparecem São Francisco do Conde, também na Bahia, Recife, Simões Filho, São Luís, Salvador, Lauro de Freitas, Cabo de Santo Agostinho, Eusébio e Jaboatão dos Guararapes. Dos dez municípios mais complexos do Nordeste, cinco são baianos, três pernambucanos, um maranhense e um cearense.
O outro lado do mapa também ajuda a explicar o tamanho da assimetria regional. Entre os dez municípios menos complexos do ponto de vista industrial no Nordeste aparecem cidades do Maranhão, da Paraíba, de Alagoas e do Ceará. No caso alagoano, Palestina e Minador do Negrão figuram entre os piores resultados do ranking regional. O contraste reforça a ideia de que a indústria 4.0 chega a uma região marcada por bases produtivas muito diferentes entre si.
A liderança de Camaçari não é casual. O município abriga o maior complexo industrial integrado do Hemisfério Sul, com mais de 80 empresas em operação e presença de cadeias químicas, petroquímicas, automotivas, de fertilizantes, fármacos, pneus, energia eólica e serviços. O polo reúne ainda integração operacional entre empresas, central de matérias-primas e fornecimento de utilidades, formando um ambiente mais propício à incorporação de tecnologia e ganho de escala.
Segundo o Comitê de Fomento Industrial de Camaçari (Cofic), atualmente o polo tem faturamento próximo a US$ 15 bilhões por ano e responde por 15% das exportações baianas. As empresas abrigadas no complexo baiano têm capacidade produtiva superior a 12 milhões de toneladas ao ano de produtos químicos, petroquímicos básicos, intermediários e finais, além de responder por 22% do Produto Interno Bruto (PIB) da Bahia.
O Polo contribui ainda com uma receita superior a R$ 4 bilhões por ano em ICMS para o Estado da Bahia e com mais de 90% da receita tributária de Camaçari e Dias D´Ávila. Na área social, as empresas associadas ao Cofic investiram mais de R$ 15 milhões nos últimos três anos, beneficiando comunidades vizinhas e das áreas de influência do Complexo Industrial.
Ambientes mais complexos conseguem absorver com mais rapidez automação, sensores, controle de processos, inteligência artificial e gestão de dados. Já em parques industriais menos densos, o avanço tende a ser mais lento e fragmentado.
No Ceará, os números ajudam a mostrar que o avanço tecnológico tem reflexo direto no desempenho industrial. O economista chefe da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIECE), Guilherme Muchale, explicou que dados da Pesquisa Industrial Anual do IBGE apontam que a produtividade do trabalho da indústria cearense ficou em torno de R$ 135 mil por trabalhador em 2023. Nos setores classificados como altamente intensivos em tecnologia, porém, esse valor chegou a aproximadamente R$ 159 mil por trabalhador, desempenho 17,4% superior à média da indústria estadual.
A diferença fica ainda maior quando a comparação é feita com os setores de média-baixa intensidade tecnológica, nos quais predominam processos mais tradicionais de manufatura.
“Nesse caso, o gap de produtividade chega a 30,2%, indicando uma distância significativa de desempenho entre os dois grupos. Esses números reforçam que o avanço da automação, da inovação e da tecnologia industrial é um fator-chave para a elevação da produtividade no Ceará”, disse ao Movimento Econômico.
Muchale ainda destaca que 90,0% das indústrias cearenses investem na capacitação dos próprios trabalhadores. Além disso, 37,0% das empresas recorrem a políticas mais competitivas de contratação, com salários e benefícios mais atrativos, para ampliar o acesso a profissionais qualificados. Ainda assim, 62,0% dos industriais apontam a falta ou a baixa qualificação profissional como uma das principais dificuldades para contratar no estado. “Ainda assim, esse obstáculo não tem se configurado como um fator impeditivo aos investimentos. O setor produtivo cearense vem respondendo de forma ativa, direcionando recursos, parcerias e estratégias para superar essa limitação”, afirmou.
O economista reconhece que a requalificação do trabalhador é um desafio relevante, mas também como uma agenda em curso, enfrentada com ações concretas, que reforçam a confiança na capacidade da indústria cearense de avançar tecnologicamente e sustentar novos ciclos de investimento.
No último dia 06 de maio, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) lançou em Alagoas o programa NE 4.0. Durante o evento, o professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Reynaldo Ferreira Júnior, afirmou que a competitividade industrial hoje depende diretamente da capacidade de modernização tecnológica.
“Se queremos salário de qualidade e agregação de valor, teremos que ter uma indústria moderna. Não adianta fugir. Já se foi o tempo em que o concorrente estava no mesmo estado, do seu lado. Hoje ele está em qualquer lugar do mundo. Então, se você não tem capacidade de se diferenciar, de construir soluções e de se mostrar competitivo, não adianta”, disse.
O superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, fez leitura semelhante ao defender a transformação digital como condição de permanência no mercado. “Quem não está fazendo transformação está sofrendo. Ele fica para trás na competitividade. Ele não consegue concorrer com os seus parceiros nem internamente. Quanto mais se a gente olhar para fora do país. Este é um desafio da ordem do dia”, afirmou.
As falas convergem em um ponto central da nova agenda: a indústria 4.0 deixou de ser apenas um tema associado à inovação e passou a ser um critério concreto de sobrevivência competitiva. A diferença está na capacidade que cada empresa e cada território têm de responder a essa pressão.
Em Alagoas, o debate sobre indústria 4.0 foi associado a um reposicionamento mais amplo da base produtiva do estado. O reitor da Ufal, Josealdo Tonholo, afirmou que a economia alagoana vive uma fase de transição e que isso exige uma nova estratégia para a indústria.
“É um momento de reposicionamento. No estado de Alagoas, não é diferente. Temos uma transição econômica em curso, tanto no setor industrial quanto no sistema agrícola do estado, e isso exige novas respostas”, afirmou.
No ranking estadual do Etene, Alagoas aparece em 19º lugar nacional, com índice de complexidade econômica de -0,613. No recorte municipal, os melhores resultados do estado aparecem em Maceió, Marechal Deodoro, Arapiraca, Rio Largo e Santa Luzia do Norte. O dado sugere que o estado já possui núcleos mais estruturados, mas ainda distante do grau de sofisticação observado em polos como Camaçari, Recife ou Cabo de Santo Agostinho.
Tonholo também defendeu que a competitividade industrial passa cada vez mais pela capacidade de transformar conhecimento em atividade econômica. Na avaliação dele, a base local ligada à tecnologia e à inteligência artificial deve ser tratada como parte da própria estratégia industrial do estado.
Se a pressão por modernização é crescente, a capacidade de resposta ainda encontra barreiras importantes. Procurado pela reportagem, o Banco do Nordeste informou que não possui uma linha específica para financiar indústria 4.0. Segundo o banco, projetos com recursos da Finep ou do BNDES podem incluir máquinas e equipamentos ligados a esse processo, mas esses itens aparecem diluídos em operações mais amplas.
Na prática, isso reforça o diagnóstico de que a agenda ainda não está estruturada de forma clara do ponto de vista financeiro. O diretor de Planejamento da Sudene, João Farias, chamou atenção para esse problema ao afirmar que parte do empresariado ainda desconhece os instrumentos existentes para financiar inovação.
“Poderemos pensar numa residência tecnológica para trabalhar indústria 4.0 e trabalhar mais fortemente algum tipo de linha de crédito para a inovação. O empresariado ainda não enxerga, em muitos casos, recursos muito baratos disponíveis para inovação e competitividade”, declarou.