Neoindustrialização: o Nordeste já entrou neste jogo?

Embora atraia plantas modernas e projetos ligados à transição energética, a região ainda ocupa uma posição incipiente nas cadeias globais de valor

Por Mariana Araújo

O Nordeste brasileiro deixou de ser, há muito tempo, apenas uma periferia agrária dependente do ciclo das commodities e das políticas compensatórias de renda. A região reúne ativos considerados estratégicos para a nova economia, como energia renovável abundante, posição geográfica privilegiada, potencial logístico, bioeconomia e um mercado consumidor de quase 60 milhões de pessoas.

Mas o avanço dessa nova fronteira industrial ocorre em meio a um paradoxo. Embora atraia plantas modernas e projetos ligados à transição energética, a região ainda ocupa uma posição subordinada e incipiente nas cadeias globais de valor, com baixa autonomia tecnológica e forte dependência das decisões de investimento concentradas no Sul e Sudeste.

Os números ajudam a explicar. Embora responda por cerca de 14% do PIB brasileiro, o Nordeste capturou apenas 7,7% dos recursos do BNDES destinados à Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial lançada pelo governo federal para reposicionar a indústria nacional em áreas estratégicas como transição energética, digitalização, bioeconomia e saúde. Sul e Sudeste concentraram 76% dos financiamentos.

O dado evidencia que a disputa industrial contemporânea não se dá apenas pela atração de fábricas, mas pela capacidade de transformar infraestrutura, tecnologia e capital humano em vantagem competitiva permanente.

“O mercado corre para onde tem mais recursos”, resume o economista José Farias, coordenador-geral de Estudos e Pesquisas da Sudene. Para ele, a região ainda sofre com uma combinação histórica de fragilidade industrial, baixa densidade tecnológica e dependência da política macroeconômica nacional.

“A política regional consegue manter o Nordeste em torno de 14% do PIB nacional, mas a ausência de recursos para projetos estruturantes continua sendo um gargalo importante”, afirma.

A nova lógica industrial global, marcada pela reorganização geopolítica das cadeias produtivas, pela busca de segurança energética e pela corrida da descarbonização, abriu uma janela de oportunidade para o Nordeste. Essa oportunidade pode tanto consolidar uma nova etapa de industrialização sofisticada quanto reproduzir velhas dependências sob uma roupagem verde.

A nova indústria e a velha desigualdade regional

A Nova Indústria Brasil foi estruturada em seis grandes missões: agroindústria sustentável, complexo industrial da saúde, infraestrutura e mobilidade, transformação digital, bioeconomia e descarbonização, além da soberania tecnológica e defesa. Na teoria, quase todas dialogam diretamente com vocações do Nordeste.

Na prática, porém, a territorialização dessa política ainda é limitada. “O Nordeste entrou nesse jogo de forma ainda muito incipiente. Existem iniciativas importantes, mas ainda embrionárias. A grande questão é saber se essas missões da Nova Indústria Brasil estão realmente se regionalizando”, afirma Paulo Guimarães, sócio e CEO do Ceplan.

Segundo ele, a região avançou em áreas como agroindústria, energia renovável e complexo da saúde, mas ainda sem consolidar cadeias produtivas robustas. O Matopiba, por exemplo, tornou-se uma potência agrícola, mas segue exportando commodities com baixa agregação de valor. “A produção cresce rapidamente, mas a agroindustrialização ainda é pequena. Grande parte dos grãos sai como commodity, sem retenção de valor no território”, diz.

O mesmo raciocínio aparece no setor industrial. Pernambuco abriga a fábrica da Stellantis, em Goiana, um dos principais símbolos da industrialização recente do Nordeste. A planta atraiu dezenas de fornecedores e consolidou uma cadeia automotiva regional. Ainda assim, os componentes de maior complexidade tecnológica continuam vindo de fora.

José Farias, da Sudene, lembra que esse padrão se repete em setores estratégicos como siderurgia, energia renovável e equipamentos industriais. “As cadeias produtivas mais longas ainda permanecem fora da região. Os fornecedores de materiais mais complexos ficam concentrados no Sul e Sudeste”, afirma.

O risco de virar apenas uma “fazenda de energia”

A transição energética simboliza os dilemas da neoindustrialização nordestina. A região tornou-se protagonista nacional na geração de energia eólica e solar. Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco concentram projetos bilionários em renováveis, hidrogênio verde e biocombustíveis. Mas a abundância energética não tem se traduzido, necessariamente, em industrialização local.

“O desenho atual é produzir energia no Nordeste para alimentar a indústria do Sudeste. A gente corre o risco de virar apenas fazenda eólica e solar”, critica Ricardo Kawabe, gerente do Observatório da Indústria da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb).

Ricardo Kawabe - Gerente do Observatório da Indústria da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb).

“Projetos que estavam prontos para sair do papel foram paralisados. Os investidores estão segurando investimentos porque faltam linhas de transmissão”, explica Kawabe.

A solução, segundo ele, passa por inverter a lógica histórica. Em vez de apenas exportar energia, o Nordeste precisaria atrair atividades eletrointensivas para consumir essa produção localmente.

Data centers aparecem entre os principais exemplos. A explosão global da inteligência artificial aumentou a demanda por estruturas gigantescas de processamento de dados, altamente consumidoras de energia elétrica.

O problema se agravou com o chamado curtailment, os cortes obrigatórios na geração de energia por falta de capacidade de transmissão. Ou seja, os parques eólicos e solares precisam interromper a produção porque não há infraestrutura suficiente para escoar a energia até os grandes centros consumidores.“O mundo está correndo para esse caminho. O Nordeste poderia atrair data centers, siderurgia verde e outras indústrias eletrointensivas para perto dos parques geradores”, afirma Kawabe.

Paulo Guimarães, do Ceplan, corrobora. Para ele, o Nordeste já possui o principal ativo da economia de baixo carbono, que é a energia limpa abundante. O desafio agora é impedir que a região permaneça apenas como exportadora primária dessa nova riqueza. “Se não houver estratégia para atração de plantas industriais intensivas em energia, o Nordeste será apenas exportador de energia limpa”, alerta.

A leitura é que o Nordeste só conseguirá capturar uma fatia mais robusta da neoindustrialização global se deixar de vender apenas vantagens naturais e passar a construir uma plataforma de capacidades. Isso significa combinar energia barata, logística eficiente, formação técnica, digitalização, inovação, integração produtiva e inteligência territorial.

A nova disputa industrial não será vencida apenas por quem tiver sol, vento ou porto. Será vencida por quem conseguir transformar esses ativos em ecossistemas produtivos sofisticados, capazes de gerar tecnologia, reter valor e ocupar posições estratégicas nas cadeias globais.

Suape: o laboratório pernambucano da nova indústria

Em Pernambuco, o Porto de Suape tornou-se um dos principais laboratórios dessa tentativa de neoindustrialização. Nos últimos anos, o complexo portuário passou a atrair investimentos ligados à transição energética, ao setor farmacoquímico e à logística de alta eficiência.

“O perfil das indústrias mudou. Hoje chegam projetos de maior valor agregado”, afirma Armando Monteiro Bisneto, presidente de Suape. Entre os exemplos estão duas plantas de metanol verde, com investimentos estimados em R$ 2 bilhões cada, além da expansão do polo farmacoquímico.

A Aché Laboratórios ampliou sua operação no complexo, enquanto a Blau Farmacêutica prepara um grande investimento industrial com expectativa de geração de 1.400 empregos. “Suape não tinha um polo farmacoquímico. Hoje já existe uma cadeia em formação”, afirma Monteiro Bisneto.

O complexo também aposta em novas economias associadas à descarbonização. Há projetos ligados ao combustível sustentável de aviação (SAF), biodiesel avançado e termelétricas movidas a etanol.

Outro foco estratégico são os data centers, vistos como peças-chave da nova economia digital. “Suape entra na rota dos data centers. Temos condição logística e energética para atrair esse tipo de investimento”, afirma o presidente do porto.

Armando Monteiro Bisneto, presidente de Suape

Além da indústria, a infraestrutura logística passou a ser tratada como diferencial competitivo central, especialmente diante do avanço da reforma tributária, que tende a reduzir a importância da guerra fiscal. O novo terminal de contêineres de Suape será o primeiro 100% eletrificado da América Latina.

O porto também trabalha para atrair cargas do Matopiba graças à eficiência operacional. “Há portos mais próximos das regiões produtoras, mas com filas de até 40 dias. Em Suape, o caminhão entra e sai em 24 horas”, afirma Armando Monteiro Bisneto.

 

A nova indústria e a velha desigualdade regional

Apesar dos avanços pontuais, o Nordeste ainda enfrenta gargalos estruturais profundos. Para Bruno Veloso, presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe), a indústria nordestina segue concentrada em segmentos de baixa e média complexidade tecnológica.

“A região ainda apresenta menor produtividade, menor intensidade tecnológica e uma estrutura produtiva mais concentrada em setores tradicionais”, afirma. Segundo ele, isso limita os chamados ganhos de escala e de aprendizado, essenciais para uma industrialização sofisticada.

Paulo Guimarães considera a transformação digital o maior atraso regional dentro das missões da NIB. “Boa parte da indústria nordestina ainda dialoga com formas de produção defasadas. Essa talvez seja a missão mais atrasada da região”, afirma.

A região ainda apresenta menor intensidade tecnológica/ Foto: Sistema FIEPE

O problema não está apenas nas fábricas. Ricardo Kawabe afirma que o setor empresarial costuma reagir rapidamente às oportunidades, mas que o ambiente público ainda opera em velocidade incompatível com a dinâmica da nova economia global. “O investidor não espera dois anos por licença ambiental. O mundo está em corrida. Se a gente parar, alguém toma nosso lugar”, afirma.

Ele também aponta a educação como fragilidade crítica. “Ceará e Pernambuco mostraram que é possível melhorar indicadores educacionais. O Nordeste precisa encarar isso como prioridade estratégica”, pontua.

Outro desafio é o chamado “vazamento” de investimentos. Mesmo quando grandes projetos chegam à região, boa parte dos insumos industriais continua sendo comprada fora do Nordeste.
No saneamento, por exemplo, os investimentos bilionários previstos para os próximos anos tendem a beneficiar fornecedores do Sul e Sudeste, porque a cadeia regional de insumos ainda é pequena. “Você investe aqui, mas grande parte do dinheiro sai da região”, resume Paulo Guimarães.

Com a implementação das ações da reforma tributária, o modelo baseado apenas em incentivos tributários perdeu força. “A era da guerra fiscal está acabando. Vencerá quem tiver melhor infraestrutura”, afirma Armando Monteiro Bisneto.

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