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Em 2024, ocorreu um aumento significativo do crédito do Banco do Nordeste (BNB) para as empresas do setor sucroenergético. No ano passado, foram seis operações de empréstimos que somaram R$ 670,1 milhões. Isso correspondeu a 90% de todas as liberações que ocorreram para o setor entre 2020 e 2024, quando foram emprestados R$ 745 milhões. Esta é a quarta e última matéria da série “O crédito e o desenvolvimento”.
Das seis operações de financiamentos realizados ao setor pelo BNB em 2024, duas estão no Maranhão, três na Paraíba e uma no Rio Grande do Norte. Uma delas foi a fábrica da Inpasa do Brasil, no município de Balsas, no Maranhão. Com inauguração prevista para março próximo, o empreendimento será a maior usina de etanol à base de milho da América Latina e a matéria-prima será produzida por fornecedores instalados no Maranhão. O investimento girou em torno de R$2 bilhões, segundo informações do governo do Maranhão.
O Grupo pernambucano Olho D’Agua também fez uma operação, em 2024, para financiar parte da fábrica de açúcar da Usina Giasa, de sua propriedade, no município de Pedra de Fogo, na Paraíba. A unidade foi inaugurada em novembro do ano passado depois de receber investimentos da ordem de R$ 150 milhões.
“O nosso grupo não seria o mesmo, se não fosse o BNB”, conta o presidente do Grupo Olho D’Água , Gilberto Tavares de Melo. A primeira operação de financiamento que o grupo fez com a instituição foi em 2004, quando conseguiu o empréstimo pra fazer o plantio da cana-de-açúcar depois da estiagem de 2003. Na época, o banco financiou também vários fornecedores da região que passaram pelo mesmo problema.
Depois disso, foram algumas operações de crédito, incluindo duas que contribuíram uma para a expansão de uma unidade do Piauí e a outra para o negócio ficar mais sustentável em Pernambuco. Em 2008, um financiamento do BNB resultou na implantação da fábrica de açúcar que o grupo tem na Usina Comvap, no município piauiense de União.
Já em 2023, o grupo decidiu fazer uma segunda barragem na Usina Central Olho D’Água, que tem sua sede em Camutanga, na Mata Norte de Pernambuco. “Sem as barragens, teríamos perdido muita cana no ano passado”, comenta Gilberto. A Olho D’Água tem duas grandes barragens nas suas propriedades. A primeira foi construída em 2000 e contou com um financiamento do BNDES. As duas barragens deixaram o negócio menos vulnerável as estiagens que ocorrem na região.
Do Grupo, as usinas têm a seguinte capacidade de moagem: a Olho D’Água pode processar 2,1 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, a Giasa, 1,5 milhão de toneladas da planta e a Comvap, 1,6 milhão de toneladas. Na safra, o grupo emprega 9 mil trabalhadores e na entressafra, 6,5 mil pessoas.
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O grupo alagoano Carlos Lyra obteve empréstimos de cerca de R$ 260 milhões em várias linhas de financiamento do BNB nos últimos dois anos. “Os recursos dos financiamentos foram usados para fazer desde os tratos culturais do plantio, renovação dos canaviais, implantação de um projeto de geração solar, entre outros”, resumiu o supervisor financeiro do Grupo Carlos Lyra, Willams Oliveira. As atividades financiadas ocorreram nas usinas de Marituba, no município de Igreja Nova, e na Usina Caeté, em Sâo Miguel dos Campos. Ambos os municípios ficam em Alagoas.
O grupo também captou recursos da linha que financia as exportações. E se prepara para fazer um financiamento de cerca de R$ 100 milhões que deve ter entre 70% e 80% financiados pelo FNE Irrigação. “A nossa expectativa é de fazer um investimento de cerca de R$ 20 milhões, anualmente, nos próximos cinco anos”, conta Willams.
Segundo Willams, “é essencial para o crescimento da companhia este tipo de crédito, porque a empresa fica mais competitiva e pratica preços mais competitivos para a sociedade”. Das unidades do grupo em Alagoas, a Usina Caeté tem a capacidade de processar 2,3 milhões de toneladas de cana-de-açúcar e a Usina Marituba pode processar até 1,5 milhão de toneladas da planta. Nas duas unidades trabalham 6,3 mil pessoas na safra e 4,3 mil durante a entressafra.
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O crédito do BNB no setor sucroenergético
“O etanol é um dos grandes setores da economia do Nordeste. A nossa intenção é fortalecer a modernização do setor sucroenergético. Já financiamos boa parte das usinas de cana-de-açúcar. Estamos financiando uma planta de etanol de milho, da Inpasa. E queremos participar da expansão dos biocombustíveis”, resumiu o diretor de Planejamento do BNB, Aldemir Freire.
E acrescentou: “a nossa intenção é acompanhar as possibilidades que vão inserir este negócio na transição energética”. Com as novas tecnologias e programas, como o projeto combustível do futuro, o setor sucroenergético passa por uma nova fase que aponta um papel de protagonista em novos biocombustíveis, como o SAF, o bioquerosene sustentável de aviação, o diesel verde, e outros produtos, como o CO2 biogênico, entre, que vão colaborar com a descarbonização da economia.
E como consequência disso estão ocorrendo novos investimentos no setor. Na Bahia, a área cultivada com cana-de-açúcar cresceu 18,2% entre as safras 2022/23 e 2024/25 e no Maranhão este aumento foi de 6,4% para o mesmo período.
Segundo Aldemir, grande parte dos recursos emprestados pelo BNB ao setor sucroenergético foram usados para expansão de área e modernização. “Há no Nordeste, um claro movimento em direção ao aumento do uso de tecnologia nos cultivos, a exemplo da ampliação da área irrigada, colheita mecanizada e uso de bioinsumos, com vistas a reduzir custos e aumentar a produtividade”, concluiu.
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