
Uma bebida com quase a idade do Brasil, mas que por séculos foi marginalizada, vem a cada ano ocupando mais espaço na boca e nos corações brasileiros, sem distinção de classe social. Desde o início dos anos de 2000, quando o termo “cachaça” passou a ser exclusivo do Brasil e, legalmente, uma bebida é reconhecida como um produto tipicamente brasileiro, o mundo passou, mesmo que ainda timidamente, a enxergar e consumir mais o nosso produto. Com um mercado que movimenta mais de R$ 15,5 bilhões por ano e gera mais de 600 mil empregos diretos e indiretos em todo o país, a cachaça será estrela de dois festivais nos próximos 10 dias, um no Recife e outro em João Pessoa.
Em sua quinta edição, o Festival Cachaça na Praça reunirá produtores, comerciantes e consumidores neste sábado (18), a partir das 14h, na Praça de Casa Forte. O evento deve atrair mais de 2 mil pessoas e contará com a presença de marcas tradicionais como Germana, Gregório, Estância Moretti, Século XVII, Sanhaçu e Triunpho. Além das degustações, o público poderá aproveitar apresentações musicais e pratos da culinária regional, como caldinhos e sanduíches.
Com um formato ao ar livre e gratuito, o festival se diferencia por promover o contato direto entre produtores e consumidores, permitindo conhecer os processos de fabricação dos diversos rótulos. Os próprios fabricantes conduzem as degustações e compartilham as histórias de criação de suas cachaças, favorecendo a troca de experiências e a possibilidade de novos negócios com representantes e vendedores do setor.

Embaixadora da cachaça
Este ano, uma convidada do evento demonstra a força que a bebida vem conquistando no mundo. Brasileira radicada em Lisboa, Raquel Lopes ostenta o título de embaixadora da cachaça no mundo. Reconhecida como uma das principais divulgadoras do destilado no exterior, ela lidera uma estratégia que une curadoria, gastronomia e identidade cultural para reposicionar a bebida nacional. Atualmente, leva 45 rótulos de cachaças artesanais de diferentes estados brasileiros a países europeus, resultado de uma atuação que valoriza o produto como símbolo de sofisticação e autenticidade.
“A cachaça é o nosso patrimônio imaterial. É preciso apresentá-la ao mundo com orgulho e sofisticação”, afirma Raquel, que desde 2015 se dedica à internacionalização do destilado. À frente da BRZ Select, empresa que nasceu como importadora e evoluiu para um projeto de promoção cultural, ela conecta produtores brasileiros a novos consumidores, mostrando que a cachaça vai muito além da caipirinha.
Em eventos internacionais como o Fruit Attraction (Madrid) e o Lisbon Bar Show (Lisboa), Raquel promove degustações e harmonizações que aproximam o destilado da alta gastronomia e da coquetelaria contemporânea. Segundo ela, a cachaça é o único destilado do mundo que pode ser envelhecido em mais de 40 tipos de madeira, o que a torna uma bebida com potencial sensorial e cultural singular. “Não é uma bebida para ficar bêbado. É uma experiência que conta a história do Brasil”, explica.
Com presença consolidada em Portugal, Espanha e França, Raquel prepara novos eventos em Dublin e Colônia e planeja a abertura do Da Cana, bar temático em Lisboa que reunirá bebidas de países lusófonos, como a cachaça brasileira, o grogue cabo-verdiano e o rum da Ilha da Madeira. Para ela, valorizar o destilado é fortalecer também o turismo e a economia criativa do país, estimulando o surgimento de rotas de alambiques semelhantes às regiões vinícolas. “Cachaça só o Brasil tem. É hora de mostrar ao mundo o valor dessa herança”, conclui.
Festival na Paraíba
Do Recife, Raquel seguirá para João Pessoa, onde a partir do dia 22 participa do Brasil Cachaças 2025. Um dos principais eventos dedicados à valorização do destilado na Região Nordeste, o evento segue até o dia 25 e reunirá empresas produtoras de 20 estados brasileiros. Diante da onda de contaminação de bebidas com metanol, uma das preocupações, nesta edição, é com a segurança e a valorização da cachaça autêntica, produzida dentro dos padrões legais e sanitários.
Para este ano, a expectativa é que 6.500 pessoas passem pelo Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa, que se coloca como a capital nacional da cachaça. Na Paraíba, a cachaça tem destaque especial: são mais de 100 engenhos em funcionamento e uma produção anual de aproximadamente 25 milhões de litros, colocando o estado como o segundo maior produtor de cachaça de alambique do Brasil.
Se hoje a cachaça ocupa espaço e é estrela de festivais, nem sempre foi assim. A trajetória dessa bebida acompanha a própria formação do Brasil, como explica o pesquisador Gilberto Freyre Neto, estudioso do tema e neto do sociólogo Gilberto Freyre, um dos primeiros a relacionar a cachaça à história econômica e cultural do país.
Segundo ele, os primeiros registros de exportação de açúcar do Brasil datam de 1516, o que mostra que a cana já era cultivada antes disso. “Alguém teve que testar, plantar, colher e produzir antes de mandar para Portugal”, afirmou. O início da produção está ligado à expansão dos engenhos em Pernambuco, especialmente em Itamaracá, onde a aguardente começou a ser destilada a partir do melaço e do bagaço da cana.
Segundo Freyre Neto, a cachaça surgiu como um subproduto natural da produção de açúcar, quando o excesso de melaço era fermentado e destilado em pequenos alambiques de barro. “A cachaça começa aqui. Produzia-se a cana para o açúcar e, a partir disso, fazia-se a aguardente”, disse. A destilação, segundo ele, é uma técnica milenar trazida à Península Ibérica pela presença árabe, que acabou sendo incorporada pelos portugueses e transferida para o Brasil colonial. O pesquisador ressalta que o país se tornou o ambiente mais propício do mundo para o cultivo da cana, o que permitiu à cachaça alcançar escala global, tornando-se uma das bebidas destiladas mais produzidas do planeta.

Do estigma à valorização
Durante séculos, a cachaça foi tratada como uma bebida popular e de baixo prestígio. O cenário começou a mudar com o reconhecimento legal da denominação de origem controlada, a partir dos anos 2000, quando o setor se organizou em associações regionais e nacionais, como o Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac). “Hoje, temos mais de 5 mil produtores fiscalizados e uma produção anual de cerca de 800 milhões de litros”, explicou Freyre Neto. Ele destaca que o Brasil, com a cachaça, compete em qualidade com o uísque da Escócia, a tequila do México, o whisky japonês, o baijiu chinês. Com os destilados tradicionais da Coreia, do Japão, reforçando o potencial econômico do setor.
A valorização também passa pela qualidade. “A cachaça brasileira compete de igual para igual com destilados internacionais, como o uísque escocês e a tequila mexicana”, afirmou. Estados como Minas Gerais, Pernambuco, Paraíba, São Paulo e Alagoas se destacam entre os principais produtores, embora hoje haja cachaças premiadas em praticamente todo o território nacional. O pesquisador cita o exemplo da pernambucana Pitu, maior exportadora brasileira, cuja presença na Europa consolidou a identidade da caipirinha como símbolo do Brasil. “Em algumas regiões da Alemanha, a bebida é conhecida como pitulinha, tamanha a força da marca”, completou.
A cachaça, que nasceu como subproduto da cana e símbolo de resistência popular, consolida-se agora como expressão legítima da identidade brasileira, reunindo tradição, economia e cultura em um mesmo copo. De engenho em engenho, de alambique em alambique, ela atravessou séculos, superou o preconceito e se reinventou como produto de excelência, com potencial comparável aos grandes destilados do mundo. Sua trajetória reflete a do próprio país — diversa, resiliente e em constante transformação.
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